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O paulistano acolheu a ressignificação

Fernando Haddad então é o prefeito de São Paulo. Bancado pelo ex-presidente Lula,  durante a campanha eleitoral soube ser coadjuvante quando esse era o seu papel. Mostrou ao eleitor o jovem letrado de 49 anos, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Economia e doutorado em Filosofia, pai de família. Apesar de sua inexperiência nas urnas e frente ao Ministério da Educação, ponto que não foi explorado por seus opositores, mais ocupados com a polarização Russomanno Vs Serra no primeiro turno, a campanha se esforçou para mostrá-lo como “o candidato de Dilma e Lula”, o “candidato da mudança” que se opõe aos “prefeitos de meio mandato”, expressão usada para se referir à saída de José Serra da Prefeitura em 2006 para concorrer ao governo estadual e ao envolvimento de Kassab na criação do PSD, o qual o acusou de ter “abandonado” a cidade.

O político-produto apresentado ao eleitorado busca encontrar os anseios das massas ou o segmento alvo que muitas vezes têm base nas relações de insegurança e narcisismo (LASCH, 1986). “O candidato do Lula”, “o candidato da Dilma” colocaram Fernando Haddad numa sensação de intimidade com seus eleitores (SCHWARTZENBERG,1977). A proximidade com o patriarca Lula em um misto de intimidade e servidão garantiram um perfil mais experiente do que o petista Haddad realmente tinha. E, a população aceitou esse “novo” Haddad. Acolheu a ressignificação. “O discurso espetacular faz calar, além do que é propriamente secreto, tudo o que não lhe convém. O que ele mostra vem sempre isolado do ambiente, do passado, das intenções, das consequências. É, portanto, totalmente ilógico”. (DEBORD,1997:182)

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Um pouco de política

Lendo a página 10 da ZH, vi as “promessas absurdas” e deslizes dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre. Em menor ou maior grau, tive a oportunidade de conviver um pouco com cada um, de alguma forma. O Jocelin Azambuja (PSL) é uma pessoa muito agradável e um amigo dos tempos de DEM. Mas, como a própria Rosane de Oliveira falou, é fácil dizer que vai “federalizar os professores e pagar os mesmos salários em todos os níveis” quando se tem 1% das intenções de voto. Vale lembrar que em 2002 Rigotto foi uma das maiores surpresas da eleição. O PT havia consolidado sua hegemonia em terras gaúchas, ocupando o governo estadual pela primeira vez e a prefeitura de Porto Alegre pela quarta, a partir do pleito de 2000. Lula caminhava para a vitória na eleição presidencial, o que poderia inflar os votos do candidato a governador Tarso Genro. Rigotto tinha começado a campanha com cerca de 2% das intenções de voto e, às vésperas do 1º turno, ainda estava em terceiro lugar. Venceu. Portanto, promessas infundadas não são, ou não deveriam ser a melhor opção.

Ainda de acordo com a coluna da Rosane, a Manuela disse que estudou em Harvard. Esqueceu de especificar que foi um seminário que ela assistiu. A Manuela merece um artigo. Atuante (e eficaz) nas mídias sociais, um produto que dá certo, abusa da força que a  juventude lhe dá e sabe que tem essa força. “A aparência na qual caímos é como um espelho, onde o desejo se vê e se reconhece como objetivo”. (HAUG, Wolfgang F.) Manuela é a personificação da juventude, da gênese sociológica do rejuvenescimento obrigatório ao qual Haug há muito prenunciou. Capaz de ter o apoio da poderosa senadora do PP, Ana Amélia Lemos, quando seu partido definiu que seu candidato seria outro. Mais recentemente, o cortejo de Ciro Gomes (PSB).”Ela é o fetiche dos jornais ilustrados e de seu público; os mais velhos a cortejam, e novas formas de rejuvenescimento ambicionam conservá-la”. No sentido Guy Debord da palavra: a Manuela é um espetáculo.

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A musa da CPI: depois da teoria, o espetáculo

A exemplo de outras ocasiões, já nos acostumamos a ver musas em meio a crises políticas. O filósofo francês Gilles Lipovetsky diz que a “política não se mantém afastada da sedução”. Em 1992, Thereza Collor chamou a atenção da mídia com um tailleur vermelho quadriculado quando seu marido, Pedro Collor convocou uma coletiva de imprensa para comprovar sua sanidade mental e sustentar denúncias de corrupção contra seu irmão, o então presidente da República, Fernando Collor. Thereza virou
musa.

Em 2007,a jornalista Mônica Veloso foi a pivô do escândalo que derrubou o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Congresso Nacional. A jornalista virou a musa do episódio que ficou conhecido como “Renangate”. Meses depois fez um ensaio para uma revista masculina.

Em fevereiro desse ano, o Ministério Público Federal de Goiás e a Polícia Federal deflagraram a Operação Monte Carlo em que foi realizada a prisão do bicheiro Carlos Cachoeira. Seu envolvimento com agentes públicos e privados originou uma Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar as ilicitudes envolvendo seu nome.

Num movimento cíclico no país, o grande destaque na mídia é a esposa do bicheiro, a empresária Andressa Mendonça. Alguns se quer mencionam seu nome. É conhecida apenas como “a musa da CPI”. Como nos explica o britânico Terry Eagleton, estruturalismo, marxismo e pós-estruturalismo não são mais os assuntos excitantes de antes.

Hoje, há a perda da capacidade de construir as próprias representações da realidade, o que ocasiona uma dependência dos meios de comunicação de massa para a construção do cotidiano. São os meios de comunicação que dizem quem é o mundo e quem é quem. Ao lado da acumulação de capital, a sociedade acumula espetáculos e sobrepõe o “ter” ao “ser”. Dessa forma, o conceito de alienação de Marx passa a ter uma segunda dimensão, não somente de forma material. A alienação passa a ser a perda do controle sobre a própria imagem. Wolfgang Haug, baseado em Marx, decreta que o que impera na sociedade capitalista de hoje é a “tecnocracia da sensualidade”, definida como o “domínio sobre as pessoas exercido em virtude de sua fascinação pelas aparências artificiais tecnicamente produzidas”. Lipovetsky nos ensina: “dessa sociedade doente de desemprego e desorientada diante da ruína dos projetos políticos estruturantes só pode advir o ceticismo, o distanciamento dos cidadãos em relação à coisa pública, a
decadência da militância partidária.”

É nesse contexto que surgem as musas. Numa política desacreditada com um quê de Novela da Globo, com o galã e a mocinha. Danem-se as teorias, o estruturalismo e a economia. Olá, espetáculo! Aguardemos o próximo escândalo e a próxima musa.

*Esse texto foi escrito em junho, quando Denise Rocha era somente um suposto affair de Romário.  O texto original é um artigo de 20 páginas.

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