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Mais de uma luz

**Artigo do meu amigo e grande jornalista, Eduardo Balduino.

Um professor da Universidade de Brasília causou uma polêmica, ao criar, em fevereiro de 2018, uma disciplina na cadeira de Ciência Política, com o título “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. O que poderia ser uma bela oportunidade de se estudar esse turbulento período da vida brasileira, se perdeu no sectarismo do professor, que criou a matéria para tentar validar a teoria de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff teria sido um golpe institucional, comparando-o ao que aconteceu em 1964.

De acordo com várias reportagens feiras sobre o tema “a disciplina pretende analisar a “ruptura democrática” com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a “agenda de retrocessos” imposta pelo governo Temer e ainda discutirá elementos como a Lava Jato e a ascensão do “parafascismo” no país”.

E uma de suas edições de fevereiro deste ano, o The Intercept Brasil, portal de notícias novo e bem crítico – com inteligência -, traz uma matéria deliciosa intitulada “Pantera Negra leva “público exótico” ao Shopping Leblon”. Assinada pela repórter Juliana Gonçalves, a matéria mostra um grupo de quase 50 pessoas negras que – aspas da repórter – “participavam do rolezinho preto” para assistir ao filme onde a imensa maioria dos atores é negra. Juliana fez o título de sua matéria a partir do depoimento de uma senhora branca que estava no cinema. “Que diferentes. Exóticos”, disse a senhora.          Pois, possivelmente sem ler toda a matéria, nas redes sociais uma minoria barulhenta acusou Juliana de racismo e de “fazer parte da elite branca do Leblon” por causa do título da matéria, aspa de uma senhora lebloniana que foi evidentemente explicada no texto logo na primeira linha.

A questão é que a Juliana Gonçalves é negra, do subúrbio carioca, pobre que só conseguiu se formar em Jornalismo pelo sistema de cotas. Ela não costuma ir ao shopping do Leblon porque, como disse a seu editor, “sente um estranhamento por parte das pessoas”, toda vez que vai lá.

No dia 24 de janeiro deste 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª. Região – agora intimamente citado por todos, nas ruas, nas favelas, nos botecos e até nos altos círculos sociais e políticos como TRF4 – condenou, por unanimidade, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 12 anos e um mês de prisão – aumentando a pena de nove anos e seis meses dada pelo juiz Sérgio Moro -, pelos crimes de corrupção passiva e obstrução da justiça.

Naquele dia eu estava em um café de Brasília e na hora em que a sentença foi dada, com transmissão simultânea pelas redes sociais, um murmúrio de lamentação preencheu o ar do café, enquanto foguetório em vários pontos da cidade celebrava a notícia.

Depois de esgotados todos os recursos possíveis, em todas as instâncias, até o STF, contra a sentença proferida pelo TRF4, o ex-presidente Lula foi preso no dia 7 de abril. Foi um sábado cheio de suspense, protagonizado por militantes do PT em volta do sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em São Bernardo do Campo, onde Lula se instalou desde o início de sua prisão até o desfecho final, sua viagem para Curitiba.

Os militantes não pouparam ninguém de sua ira contra o cumprimento de uma ordem judicial – não foi uma ordem judicial qualquer, mas era judicial. A violência com que protestaram contra a prisão de seu líder alcançou, indistintamente, a quem não era do lado deles. E isso incluiu jornalistas que estavam trabalhando, ou seja, trabalhadores da imprensa cumprindo o seu papel, justificando seus salários, sua sobrevivência como todo trabalhador.

Esses episódios trazem, em seu bojo, fenômeno social já identificado, mas ainda não percebido em toda a sua perigosa extensão. O professor universitário – e até seus críticos -, os detratores da jornalista Juliana, os manifestantes sobre a sentença dada a Lula e os militantes que tentaram impedir a prisão do ex-presidente – e os que soltaram foguetes comemorando o fato -, não são capazes de debater e de promover com argumentos aquilo que defendem. Eles simplesmente estão a favor ou contra. E simplesmente atacam, agridem – já não tão apenas com palavras – os que os contestam; e estes também já não contestam simplesmente, agridem.

Muito já se discutiu sobre as razões do debate político no Brasil ter se transformado num “Fla-Flu”, com todos os componentes irracionais que incendeiam a torcida por um time de futebol. Nunca vou admitir que o meu time jogou mal e mereceu perder: a culpa sempre será do juiz… E essa discussão não chegou a lugar algum; ela apenas institucionalizou, validou o intransigente “eles contra nós”.

Uma pessoa intransigente, ensinam os dicionários, “é caracterizada pela sua rigidez emocional e comportamento austero, sendo incapaz de tentar enxergar determinada situação, por exemplo, a partir de um ponto de vista diferente daquele que acredita”.

Essas pessoas não alcançam ou não aceitam, talvez por ignorância (no seu sentido latu), a diversidade que conforma o mundo. Por isso não aceitam pontos de vista, ideias ou culturas diferentes dos seus. São intolerantes.

A intolerância já é estudada pela ótica da saúde mental. É, digamos assim, diagnosticada como uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões. Num sentido político e social, intolerância é a ausência de disposição de aceitar pessoas com pontos de vista diferentes. Importante: a intolerância não distingue ideologias.

Uma demonstração latente e de fácil percepção de intolerância sempre foi a que se manifesta junto às religiões. A liberdade de expressão garante a todos o direito de manifestar as suas opiniões sobre determinado assunto, incluindo a incluindo a religião, às diversas religiões. A intolerância religiosa se manifesta quando a pessoa age com indiferença, violência ou de qualquer outro modo que fira a dignidade de quem professa e defende uma religião diferente da sua. Hoje, no entanto, o campo político está primordialmente marcado pela intolerância mais violenta.

Quando o ser humano não se permite admitir a existência de “mais de uma luz”. Quando não nos permitimos conhecer o que existe na outra margem do rio, que pode ser bom ou ruim, mesmo que simplesmente diferente. Na hora em que caminhamos para as verdades absolutas, que só têm título, o conteúdo já não é relevante. Nesse momento estamos, espontânea e perigosamente, nos deixando dominar pela paixão cega que leva alguém a extremos em favor de uma verdade, a sua, que tem como única e incontestável.

Os extremos em favor de uma religião, doutrina, partidos e líderes políticos são atos de violência. É o fanatismo.          Um fanático, na lúcida, profunda e consentânea visão de Amós Oz, quando considera que algo é ruim – e tudo que é contra o que ele defende é, a princípio, ruim -, seu dever é liquidar imediatamente “aquela abominação”.          O título deste artigo é título do mais recente livro de Amós Oz editado no Brasil, pela Companhia das Letras. São três artigos revisados deste romancista que é considerado um dos mais importantes e poderosos ensaístas da atualidade. Nascido em Jerusalém, ele é definido por Nadine Gordimer, prêmio Nobel da literatura, como “a voz da sanidade emergindo da confusão, da mentira, do balbucio histórico da retórica mundial a respeitos dos conflitos atuais”.

Amós se aprofunda nos conflitos entre Israel e seu entorno e, em seu estudo sobre fanatismo, transcende sua visão do Oriente Médio para o resto do mundo. E a carapuça cabe com muita exatidão no Brasil.

A cinco meses das eleições, a conexão desses perfis psicológicos com o quadro que se aprofunda nas relações interpessoais no Brasil, que avançam por todos os ambientes de convivência humana, notadamente na política, na religião e nos costumes, indica uma preocupante evolução para o fanatismo.

Já há quem aposte, já há quem tema, já há quem defenda que o fanatismo seja o signo dessas eleições. É o pior que pode acontecer. O fanatismo é o maior inimigo do projeto de Nação. E o que o Brasil mais precisa é de ter um projeto nacional.

 

**Originalmente publicado em Carta Pólis.

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