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A musa da CPI: depois da teoria, o espetáculo

A exemplo de outras ocasiões, já nos acostumamos a ver musas em meio a crises políticas. O filósofo francês Gilles Lipovetsky diz que a “política não se mantém afastada da sedução”. Em 1992, Thereza Collor chamou a atenção da mídia com um tailleur vermelho quadriculado quando seu marido, Pedro Collor convocou uma coletiva de imprensa para comprovar sua sanidade mental e sustentar denúncias de corrupção contra seu irmão, o então presidente da República, Fernando Collor. Thereza virou
musa.

Em 2007,a jornalista Mônica Veloso foi a pivô do escândalo que derrubou o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Congresso Nacional. A jornalista virou a musa do episódio que ficou conhecido como “Renangate”. Meses depois fez um ensaio para uma revista masculina.

Em fevereiro desse ano, o Ministério Público Federal de Goiás e a Polícia Federal deflagraram a Operação Monte Carlo em que foi realizada a prisão do bicheiro Carlos Cachoeira. Seu envolvimento com agentes públicos e privados originou uma Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar as ilicitudes envolvendo seu nome.

Num movimento cíclico no país, o grande destaque na mídia é a esposa do bicheiro, a empresária Andressa Mendonça. Alguns se quer mencionam seu nome. É conhecida apenas como “a musa da CPI”. Como nos explica o britânico Terry Eagleton, estruturalismo, marxismo e pós-estruturalismo não são mais os assuntos excitantes de antes.

Hoje, há a perda da capacidade de construir as próprias representações da realidade, o que ocasiona uma dependência dos meios de comunicação de massa para a construção do cotidiano. São os meios de comunicação que dizem quem é o mundo e quem é quem. Ao lado da acumulação de capital, a sociedade acumula espetáculos e sobrepõe o “ter” ao “ser”. Dessa forma, o conceito de alienação de Marx passa a ter uma segunda dimensão, não somente de forma material. A alienação passa a ser a perda do controle sobre a própria imagem. Wolfgang Haug, baseado em Marx, decreta que o que impera na sociedade capitalista de hoje é a “tecnocracia da sensualidade”, definida como o “domínio sobre as pessoas exercido em virtude de sua fascinação pelas aparências artificiais tecnicamente produzidas”. Lipovetsky nos ensina: “dessa sociedade doente de desemprego e desorientada diante da ruína dos projetos políticos estruturantes só pode advir o ceticismo, o distanciamento dos cidadãos em relação à coisa pública, a
decadência da militância partidária.”

É nesse contexto que surgem as musas. Numa política desacreditada com um quê de Novela da Globo, com o galã e a mocinha. Danem-se as teorias, o estruturalismo e a economia. Olá, espetáculo! Aguardemos o próximo escândalo e a próxima musa.

*Esse texto foi escrito em junho, quando Denise Rocha era somente um suposto affair de Romário.  O texto original é um artigo de 20 páginas.

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Então…

De toda a bibliografia desse primeiro semestre, a única que eu não conhecia era Terry Eagleton. Até que a professora Simonetta Persichetti indicou o primeiro capítulo de Depois da Teoria como leitura. PIREI!!! Não resisti e comprei o livro. Ainda não terminei, masvou dar meus pitacos. O grande questionando de Eagleton é a mudança na teoria cultural. Estudar marxismo, pós-estruturalismo ou “formas de combate à fome” parece ultrapassado tendo em vista a profusão cultural de hoje. De acordo com o teórico tornou-se muito mais interessante estudar a cultura por trás de Friends do que “como metade da população mundial sobrevive com dois dólares por dia?”. A idade de ouro da teoria cultural já era. Não devemos encontrar hoje em dia estudiosos pioneiros como Roland Barthes (adoro),  Michel Foucault ou Lacan. A geração de hoje aparentemente não tem ideias próprias comparáveis. O corpo não é mais aquele atormentado ela fome, mas é o corpo dos desfiles de moda, de Paris ou de um São Paulo Fashion Week. Vampirismo e cultura punk dão lugar ao estruturalismo de Horkheimer.

Se, antes, o rock era uma distração dos estudos, hoje ele pode ser estudado com base filosófica. Por um lado, Eagleton admite que os centros acadêmicos ignoraram a vida cotidiana, por outro indaga esse interesse massivo em estudar o banal. E, emenda que ao resgatar estudos que até então eram marginalizados, dá-se voz aos mesmos. A vida social tornou-se passiva de estudos. As diferenças não têm mais fronteiras o que ratifica a noção de pós-modernismo: “não acredita nos indivíduos, não acredita no pluralismo, mas também não coloca muita fé nos trabalhadores” (p. 34). E, finaliza o primeiro capítulo adiantando que é necessário descobrir uma nova forma de pertencimento. Para o autor, o mundo caminha para uma direção em que os ricos possuem cada vez mais mobilidade enquanto os pobres mantém a localidade. No futuro, não será difícil um grupo sob a proteção de armas e vigilância, e o outro “catando” comida. Enquanto isso, os estudos acadêmicos analisam “Friends” ou “Two and a Half Men”.

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