Arquivos da Tag: Susie Linfield

UOL perde a noção

Orientanda que fui da Simonetta, me chamou a atenção uma matéria no UOL: “A tragédia de um país resumida em uma foto”. Logo comecei a pensar no que a Susie Linfield fala sobre as fotografias terem de ser encaradas de frente (tem uma publicação minha sobre isso: aqui). Para a autora, algumas fotografias precisam se tornar públicas para que as pessoas tomem conhecimento das realidades horríveis escondidas. E, aí retiro uma parte do meu texto sobre The Cruel Radiance, devidamente orientado pela Simonetta (Persichetti):

 

“Linfield diz que as pessoas muitas vezes falam sobre o horror da guerra, e sobre a necessidade de construção de uma política de direitos humanos, em termos extremamente abstratos, mas esquecem que há a necessidade do engajamento e questionamento sobre o que a guerra realmente faz com as pessoas, o que é que a opressão política, o sofrimento e a derrota fazem. Fotografias, mais do que qualquer outra forma de arte ou qualquer jornalismo, oferecem uma conexão imediata, visceralmente emocional para o mundo.”

Mas o que eu não esperava na matéria do UOL era o total descuido ao final da matéria. Ao mesmo tempo que essa imagem choca:

 

Fonte: reuters

Fonte: reuters

 

O UOL coloca essa matéria patrocinada logo abaixo:

Fonte: UOL 31 out 16

Fonte: UOL 31 out 16

Numa total falta de bom senso, de leitura cuidadosa, de tato e de bom jornalismo, sim, o UOL coloca um link patrocinado sobre como perder peso. As imagens de guerra precisam ser encaradas de frente. E, o que está acontecendo com o nosso jornalismo TAMBÉM. Inadmissível. Se o fotógrafo da Reuters teve todo o cuidado ao fazer essa imagem, que pena que nossos colegas jornalistas brasileiros não tiveram o mesmo tato na hora de informar.

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The Cruel Radiance – Foto de menino refugiado morto na praia atrai atenção para crise

A imagem do corpo de um menino de três anos encontrado à beira do mar na Turquia repercute internacionalmente, se espalha por redes sociais e aumenta a tragédia humana dos milhares que refugiados que tentam diariamente chegar —muitas vezes sem sucesso— à União Europeia.”

Assim começa a matéria da Folha de S. Paulo. O UOL divulgou um texto em que explicava os motivos de ter exposto a fotografia em página principal.

A primeira coisa que me veio a cabeça foram as aulas da Simonetta Persichetti, na cásper Líbero, sobre a urgência de olharmos as fotos de frente.  Bom, já fiz um post sobre isso (aqui) e no meio dos pensamentos sobre essa imagem chocante, lembrei da Simonetta reiterando a Linfield: “essas fotografias nos alertam para a necessidade da vigilância e do raciocínio a respeito do que nos mostram. As fotografias não podem explicar as complexidades das histórias ou suas causas. As fotografias são vislumbres poderosos, sugestões poderosas. A autora pede para os telespectadores tornarem-se mais proativos em vez de se lamentarem eternamente sobre todas as coisas que as fotografias não podem fazer e não nos dizem, e todos os caminhos que não podem percorrer.”

Que as pessoas parem de condenar aqueles que estão fugindo e passem a olhar para essa questão como algo sério e não apenas como “isto é”, mas também como “isto não deve ser”.

 

Every image of barbarism – of immiseration, humiliation, terror, extermination – embraces its oppsite, though sometimes unknowingly. Every imagem of suffering says not only, “This is so”, but also, by implication: “This must not be”; not only, “This goes on”, but also, by implication: “This must stop”. Documents of suffering are documents of protest: they show us what happens when we unmake the world. (LINFIELD, 2010, p. 33).

Linfield firma que uma das vantagens da fotografia é justamente essa, a de trazer para perto qualquer coisa que se possa pensar sobre. Linfield diz que as pessoas muitas vezes falam sobre o horror da guerra, e sobre a necessidade de construção de uma política de direitos humanos, em termos extremamente abstratos, mas esquecem que há a necessidade do engajamento e questionamento sobre o que a guerra realmente faz com as pessoas, o que é que a opressão política, o sofrimento e a derrota fazem. Fotografias, mais do que qualquer outra forma de arte ou qualquer jornalismo, oferecem uma conexão imediata, visceralmente emocional para o mundo. É essa conexão emocional com a imagem que está no coração de seu livro, que ela identificou como o “tecido conjuntivo de preocupação” para os outros que engendra a fotografia, como ela o chama para a necessidade de “integrar emoção na experiência de olhar”.

Na minha dissertação eu passo por esse tema. Na Alterjor tem uma resenha sobre o livro da Susie Linfield.

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Tradução de 'The Cruel Radiance', de Susie Linfield

As fotografias podem iluminar a escuridão? Podem tornar o mundo mais habitável e dar voz ao silêncio expondo situações de crueldade? Em The Cruel Radiance – photography and political violence (ainda sem tradução para o português), Susie Linfield, professora do departamento de jornalismo da Universidade de Nova York, examina o que as imagens fotográficas podem nos dizer sobre o sofrimento humano.

 

Quando eu estava no mestrado, a professora Simonetta pediu que eu lesse The Cruel Radiance, da Susie Linfield. É um livro em inglês, ainda sem tradução para o português. AMEI!!!! Um dos melhores livros que já li na vida e mudou muito do que eu penso sobre fotojornalismo. Pois, acabei fazendo uma resenha sobre o livro e foi publicado hoje na Alterjor, revista da USP. Aqui está o link para quem se interessar.

linfield

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Se existisse uma representação exata, eu não fotografaria. Claude Maillard, Sur l’imphotographiable

‘Onde a escrita é impotente para captar, na verdade e na variedade de seus aspectos, os monumentos e as paisagens; onde o lápis é fantasia e divagador, alterando a pureza dos textos, a fotografia é inflexível”.(ROUILLÉ, 2009, p. 49-50)

(Foto: REUTERS/Jalal Al-Mamo)

(Foto: REUTERS/Jalal Al-Mamo)

Essa imagem fotográfica está na matéria do G1 “Ataque aéreo do regime sírio sobre Aleppo deixa ao menos 33 mortos”. A matéria por si só é terrível, mas essa fotografia choca. Não choca pela desgraça latente na imagem ou por algum outro tipo de apelação. Ela machuca porque, como afirma Rouillé, a verdade está  em segundo plano, indireta, enredada como um segredo. Não é colhida à superfície dos fenômenos. Ela apenas se estabelece.  Fosse qualquer outra situação poderíamos pensar que as crianças se machucaram brincando. Mas a simples inserção da Síria na matéria dá um outro significado.  A fotografia não está sozinha, e nem frente a frente com a coisa que ela representa.  Sozinha, não significa nada. Nua, não tem referente ou, o que é a mesma coisa, tem mil, como testemunham esses clichês da imprensa que volta e meia situam legendas abusivas em contextos opostos, alheios ao seu próprio contexto. (ROUILLÈ, 2009,p. 94-95)

Como questionaria Susie Linfield, em The cruel radiance,  as fotografias podem iluminar a escuridão? Podem tornar o mundo mais habitável e dar voz ao silêncio expondo situações de crueldade? Eu acredito que sim. Linfield afirma que uma das vantagens da fotografia é justamente essa, a de trazer para perto qualquer coisa que se possa pensar. Linfield diz que as pessoas muitas vezes falam sobre o horror da guerra, e sobre a necessidade de construção de uma política de direitos humanos, em termos extremamente abstratos, mas esquecem que há a necessidade do engajamento e questionamento sobre o que a guerra realmente fazer com as pessoas, o que é que a opressão política, o sofrimento e a derrota fazem.

As fotografias não podem explicar as complexidades das histórias ou suas causas. As fotografias são vislumbres poderosos, sugestões poderosas. A autora pede para os telespectadores tornarem-se mais pró-ativos em vez de se lamentarem eternamente sobre todas as coisas que as fotografias não podem fazer e não nos dizem, e todos os caminhos que não podem percorrer. Cabe a nós começar uma investigação sobre essas histórias e sobre o que as imagens estão dizendo. Toda imagem de sofrimento não diz somente “isso é”, mas também implica em “isto não deve ser”, ou “isto está acontecendo”com “isto deve parar”.

A Síria deve parar.

 

A fotografia – entre documento e arte contemporânea- André Rouillè

The Cruel Radiance – photography and political violence. Susie Linfield

 

A Síria deve parar.

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The Cruel Radiance

Eu comecei a escrever sobre esse livro e não falei mais nele. Então, um breve comentário sobre The Cruel Radiance.

Nachtwey

As fotografias podem iluminar a escuridão? Podem tornar o mundo mais habitável e dar voz ao silêncio expondo situações de crueldade? Em The Cruel Radiance – photography and political violence (ainda sem tradução para o português), Susie Linfield, professora do departamento de jornalismo da Universidade de Nova York, examina o que as imagens fotográficas podem nos dizer sobre o sofrimento humano.

“O Brilho Cruel” foi escrito em 2010 e analisa, em sua essência, fotografias políticas e de violência. Um livro de crítica e não de teoria. De crítica a uma das principais teóricas do assunto, Susan Sontag, que via nas fotografias um lamento sem pensamento. As fotografias não podem explicar as complexidades das histórias ou suas causas. As fotografias são vislumbres poderosos, sugestões poderosas. A autora pede para os telespectadores tornarem-se mais pró-ativos em vez de se lamentarem eternamente sobre todas as coisas que as fotografias não podem fazer e não nos dizem, e todos os caminhos que não podem percorrer. Cabe a nós começar uma investigação sobre essas histórias e sobre o que as imagens estão dizendo. Toda imagem de sofrimento não diz somente “isso é”, mas também implica em “isto não deve ser”, ou “isto está acontecendo” com “isto deve parar”.

Além das indicações morais para o fotógrafo, o espectador enfrenta seus próprios dilemas quando se olha para fotos de violência, dor e sofrimento. E um desses dilemas concentra-se na imprevisibilidade das reações.

Linfield afirma que fotografias de sofrimento e violência nem sempre privilegiam, nem devem, empatia e solidariedade. Algumas fotografias não estão devidamente contextualizadas politicamente. A autora fala do quão desconcertante é olhar, por exemplo, para fotografias de crianças-soldados. Vítimas de terríveis crimes, são sequestrados e espancados. Mas  também são criminosos. Foram treinados para serem assassinos, para serem sociopatas, e eles mesmos são culpados de estupro e assassinato e mutilação. Linfield conclui que ao invés de censurar a nós mesmos, devemos nos permitir experimentar as fotografias, e depois analisar o que significam essas reações. Emoção não é um ponto final, mas pode ser o ponto de partida para investigar o que significa ser uma vítima, o que significa ser derrotado, o que faz da opressão política. The Cruel Radiance é leitura obrigatória para quem quer entender o que é o poder da imagem fotográfica.

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Susie Linfield contra Roland Barthes e Susan Sontag

Eu sempre gostei de Roland Barthes e de como ele abordava a fotografia. Sempre achei aquele sentimentalismo com o punctum, a “ferida” na fotografia algo que me encantavam. A forma como a Susan Sontag também tratava esse chamativo nas imagens fotográficas me prendia. Mas, pelo pouquíssimo que li da Susie Linfield em The Cruel Radiance ( O Brilho Cruel), eu começo a entender a indignação dela com esses dois autores que eu sempre adorei.

Susan Sontag

Linfield critica essa postura do Barthes e da Sontag em ver a imagem fotográfica apenas com o sentimento e não com o intelecto. Como se a imagem fosse um ópio que não deixasse pensar no que há por trás dela. Barthes fala um pouco do “Isso foi”, mas a conversa pára por aí. E, Linfield fornece um exemplo que faz a gente pensar: por quê eu tenho que ficar transtornada com o menino-soldado de nove anos com uma arma na mão?? Esse mesmo menino também é um soldado, que mata, que é transgressor e violento. Mas mais do que isso: a fotografia está aí para nos tornar pró-ativos em vez de nos lamentarmos sobre o que a fotografia não pode fazer. E, isso, Barthes e Sontag esquecem. And, here we go, Susie!!!

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