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Em nome de Deus, da família e do espetáculo

 Aliás – Estadão 01/05/16 12:32

GABRIEL ZACARIAS – O ESTADO DE S.PAULO

O excesso de exposição pode ser uma arma perigosa aos políticos

Desde que se iniciou a crise política brasileira, diversas metáforas foram empregadas para descrevê-la, sempre ligadas ao âmbito dos espetáculos. Manifestantes foram comparados a torcedores de futebol, políticos a personagens de novelas e seriados. Antes de acontecer, a transmissão ao vivo da votação do processo de impeachment na Câmara foi antecipada como uma final de campeonato. Após sua realização, porém, a metáfora que se impôs foi a do circo. Pouco justa com os artistas circenses, cujas peripécias são muito menos trucadas do que a dos políticos nacionais, pareceu todavia transmitir bem a imagem de espetáculo barato, rumoroso e deselegante que caracterizou a votação no plenário. Cabe, então, perguntar: porque essas metáforas parecem se adequar tão bem à política? Qual a verdade de fundo por trás da simples piada?

Se retomarmos a caracterização da sociedade contemporânea como uma “sociedade do espetáculo”, talvez possamos responder tais perguntas. Quando propôs essa expressão pela primeira vez, na década de 1960, o pensador francês Guy Debord não se referia simplesmente à mídia – que considerava apenas a manifestação “superficial” e “mais esmagadora” do espetáculo. Com o conceito de espetáculo abarcava um fenômeno social total, ou seja, um “conjunto de relações sociais mediadas por imagens”. Se na sociedade capitalista é o mercado que serve de instância unificadora das atividades sociais, as relações sociais se estabelecendo em torno à produção e ao consumo de mercadorias, na sociedade do espetáculo essas relações se estabelecem também em torno à produção e ao consumo de imagens. Debord vê a sociedade do espetáculo como um desdobramento da sociedade capitalista. Assim, é a hiperespecialização do trabalho no capitalismo que, restringindo a experiência quotidiana à realização de uma tarefa muito específica e repetitiva, torna necessário o consumo imaginário de outras experiências – o que fazemos, por exemplo, quando nos identificamos aos protagonistas de enredos declaradamente fictícios (como telenovelas) ou supostamente reais (como a vida de celebridades).

Sucesso midiático e eleitoral. Como parte da sociedade do espetáculo, a democracia representativa é orientada pela mesma lógica espetacular, o sucesso eleitoral de políticos sendo proporcional ao grau de identificação que conseguem arrebatar através de sua exposição midiática. Não é à toa que cada vez mais as fronteiras entre políticos profissionais e celebridades pareçam se confundir.

Tomemos o exemplo de alguns dos membros mais célebres do Congresso. Durante seu mandato anterior, o deputado federal Jair Bolsonaro – aquele que em seu voto pró-impeachment homenageou um torturador – conseguiu aumentar sua exposição nas mídias por conta de declarações ofensivas, sexistas e homofóbicas, o que lhe garantiu o terceiro maior eleitorado para a Câmara nas últimas eleições.

No polo oposto, Jean Wyllys, internacionalmente reconhecido pela defesa da comunidade LGBT, antes de ser deputado havia sido vencedor de um reality show de televisão. Tiririca, único palhaço profissional no circo em questão, também chegou ali por conta de seu sucesso televisivo. E sequer precisou aderir a uma causa política. Foi eleito em 2010 com slogans de campanha cínicos, como “Tiririca, pior do que está não fica”, e “Você sabe o que faz um deputado? Vote em mim que eu te conto”.

Se Tiririca tivesse contado, talvez não tivesse sido reeleito. Ao menos a julgar pelo impacto negativo que a exposição da Câmara produziu nas redes sociais. Segundo pesquisa de Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, as postagens em língua portuguesa no Twitter, particularmente intensas no dia 17, durante a votação, extrapolaram a polarização em torno do impeachment, em favor de um repúdio generalizado ao ritual transmitido pela televisão.

A lógica da exposição espetacular parece ter se chocado à opacidade habitual da política brasileira. Para uma política feita de conchavos e ditada de cima para baixo, a exposição excessiva pode ser uma arma perigosa. Do ponto de vista da legitimação do sistema político, o impeachment pode ter sido um tiro pela culatra que, expondo despudoradamente o jogo de negociatas da Câmara, trouxe à tona uma parte da política que apenas subsiste por estar à sombra.

Contradições da sociedade do espetáculo. Debord havia notado na década de 1980 que uma regra original do espetáculo – de ser uma “imensa positividade” na qual “tudo que aparece é bom, tudo que é bom aparece” – dava agora lugar a uma valorização absoluta de tudo mostrar, bom ou ruim. Mas o valor supremo da exibição tem um preço, e a exposição demasiada pode minar o próprio espetáculo. Para quem assistiu ao circo do dia 17 de abril, o cinismo de deputados corruptos que falam contra a corrupção, a carência de argumentos políticos, a insistência monotemática em dedicar seu voto a Deus e à família podem ter funcionado como um efeito de distanciamento brechtiniano – rompendo o mecanismo de identificação e expondo os limites da representação.

 

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Debord e o hiperespetáculo

Apesar dos autores de minha tese morarem muito distante do condado maravilhoso onde habita Debord (acredito que minha tese reside em Mordor), de umas semanas para cá, tenho me deparado com frequência com escritas debordianas. E, some-se a isso as aulas do professor Juremir Machado da Silva, resolvi reler Guy Debord: antes e depois do espetáculo, organizado pelo próprio Juremir e pela professora Cristiane Freitas Gutfreind.

Tinha esquecido da frase impactante (como não poderia deixar de ser) do professor:  “Guy Debord é o homem do século. Passado”. (p. 37). Numa primeira impressão, para uma apaixonada por Debord como eu, essa frase quase mata. Mas aí o texto desenrola com, me desculpem a empolgação, a maestria que só o professor Juremir tem:  não  vivemos mais na era do espetáculo, mas do hiperespetáculo. O espetáculo era marcado por uma contemplação passiva por parte do indivíduo, do espectador, com relação às imagens midiáticas. Essa contemplação teria como objeto um outro distante, idealizado, “superior” – inalcançável. Seria, portanto, um estágio de manipulação, de “servidão voluntária”. Já no hiperespetáculo, segundo o autor, a contemplação continua. Mas é, agora, uma contemplação de si mesmo em um outro, em princípio, plenamente alcançável, semelhante ou igual ao contemplador.

Entendo que, para os autores do livro, o espetáculo é o mundo transformado em economia. Dessa premissa, Tonin (2007), também compartilha.

 

Na sociedade do espetáculo, o sujeito trabalha para ser merecedor de férias, de poder, de consumo. São instâncias apresentadas como subprodutos, finalidades do próprio trabalho, instâncias consumíveis, amplamente vendidas como de possível acesso por todos. E, o que é mais radical, como se o indivíduo fosse capaz de encontrar a felicidade nelas. Para Debord, nada escapa à lógica espetacular do consumo. O espetáculo é o supermercado onde se compram rotinas, valores, lugares, prazeres que perambulam entre produtos multifacetados. (TONIN, 2007, p.51).

Juremir afirma que “[…] em que todos devem ter direito ao sucesso, os famosos simulam uma superioridade fictícia. São tanto mais adorados quanto menos se diferenciam realmente de seus fãs” (SILVA, 2007, p.31).

Ainda segundo este autor (2007, p.31), se o hiperespetáculo não é a eliminação do espetáculo, mas sua aceleração “[…] plasmada no bandido que sorri para a câmera antes de atirar, ou no aumento dos rendimentos da Ciccareli depois de ser filmada, puxando o biquíni para receber, em uma praia espanhola, ‘o doce veneno do escorpião’”, o que dizer da recente aparição de Lady Gaga na cerimônia do Video Music Awards (VMA) usando um vestido feito de carne, cuja estética já virou tendência em Nova York? Trata-se de uma imagem que procura satisfazer quais necessidades humanas?

Em tempos de pós-modernidade ou sociedade “medíocre”, em que o espetáculo, segundo Chaui, converte-se em simulacro e o simulacro se põe como entretenimento; os velhos e novos “trajes”, o sofrimento dos humanos e dos animais, as catástrofes naturais, a política, as festas, guerras, cerimônias religiosas, tudo se converte, por intermédio das velhas e novas mídias em (hiper)espetáculo, em entretenimento e “deserção do real”.

Referências

SILVA, Andréa Tubero.Resenha da obra: GUTFREIND, Cristiane Freitas; SILVA, Juremir Machado da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. 172 p.

TONIN, J. A imagem em Guy Debord. In: GUTFREIND, C. F.; SILVA, J. M. da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p.46-60.

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III Seminário Comunicação, Cultura e Sociedade do Espetáculo

Para quem quiser: convite para o III Seminário Comunicação, Cultura e Sociedade do Espetáculo que acontecerá na Casper Líbero, em SP,  dias 15, 16 e 17 de outubro. Mais informações AQUI

A Sociedade do Espetáculo e a Dialética da Cultura

No ano em que comemora dez anos de existência, o grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo, do Programa de Mestrado da Cásper Líbero, organiza o seu terceiro seminário para debater pesquisas sobre a relação entre comunicação e cultura na sociedade do espetáculo.  A dialética da cultura, a possibilidade dela tanto afirmar como negar as características da sociedade do espetáculo, e dos processos comunicacionais que fazem parte desta sociedade, é o tema que articula as apresentações.

Fazem parte do seminário, trabalhos que discutem a presença da indústria cultural na sociedade contemporânea, e seu vínculo com a mercantilização da cultura, assim como trabalhos que refletem sobre produções culturais e práticas comunicacionais que procuram caminhos alternativos a esta mercantilização. A dimensão política da produção cultural, ou seja, da atuação de jornalistas, intelectuais e artistas, também está presente como objeto de investigação de pesquisas apresentadas no seminário. Receberá especial atenção o contexto contemporâneo, de crescimento de posturas conservadoras, tanto do ponto de vista político quanto do ponto de vista cultural.

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Espetáculo e Poder Simbólico / Comunicação e Imagem

A minha colega do grupo de pesquisa Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo, a mestranda Vivian Santana Paixão passou o link para baixar os livros nos quais eu publiquei capítulos. Também tem nesse link outros livros da Casper Líbero que podem interessar os pesquisadores de comunicação. O link para baixar todos os livros da Casper está aqui. Para baixar os livros em que tenho textos, só clicar nas imagens abaixo.

Espetáculo e Poder Simbólico

Comunicação, Entretenimento e Imagem

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Programação III Seminário Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo

Sobre o evento

O seminário é organizado pelo Grupo de Pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo do Programa de Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, e está vinculado ao projeto de pesquisa Mídia, Política e Espetáculo. O objetivo do seminário é a apresentação e o debate de trabalhos que procuram compreender as relações entre comunicação e política na sociedade brasileira do espetáculo, tendo como objeto as campanhas eleitorais de 2014, as coberturas midiáticas dessas campanhas e suas relações com o processo político brasileiro.

Captura de Tela 2014-09-18 às 08.27.40

 

Sexta-feira, 17 de outubro – Tarde

14h Cláudio Coelho Abertura
14h15 Cláudio Coelho Comunicação, política e poder na sociedade do espetáculo
14h45 Emerson Ike Coan Espetacularização da política e redemocratização do Brasil
15h15 Debate
15h45 Intervalo
16h Kátia Saisi Dilma Rousseff na campanha eleitoral: construção da imagem política pela mídia
16h30 Mara Rovida  A (i)mobilidade urbana e as eleições estaduais de 2014
17h Rodrigo de Carvalho Governo Lula: a mídia e a construção da hegemonia
17h30 Debate
18h Encerramento

 

19h Cláudio Coelho Abertura
19h15 Vanderlei de Castro Ezequiel Questões sociais e discurso político eleitoral
19h45 Deysi Cioccari Dilma Bolada ou Dilma Roussef: Quem é a diva da nação?
20h15 Debate
20h45 Intervalo
21h Eliana Natividade Manifestações contra a copa e possíveis influências nas urnas de 2014, segundo a cobertura da mídia impressa
21h30 Gabriel Leão Herói ou animal político?
22h Debate
22h30 Encerramento

 

9h Cláudio Coelho Abertura
9h15 Synesio  Cônsolo Filho A necessidade de se administrar a visibilidade
9h45 Ingrid Baquit A política externa nos governos Lula e Dilma e o cenário político contemporâneo
10h15 Debate
10h45 Intervalo
11h Jaime Carlos Patias Lula: carisma e poder – Uma abordagem a partir de estudos sobre liderança carismática de Max Weber
11h30 Gilberto da Silva  A sedução do lulismo: imagens e leituras de Lula na Sociedade do Espetáculo
12h Debate
12h30 Encerramento

 

14h Márcia Amazonas Eduardo Campos & Marina Silva: a “Nova Política” entre o drama e a esperança
14h30 Vivian Paixão  Carta Capital e Veja nas eleições presidenciais de 2014
15h Debate
15h30 Genilda Alves de Souza  A percepção e a influência das pesquisas eleitorais nas classes c e d/e nas eleições para o Governo do Estado de São Paulo em 2014
16h Fábio Cardoso Marques  O “príncipe eletrônico” e a representação política
16h30 Debate
17h Encerramento

 

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"A REALIDADE NÃO CONTENTA"

Texto de Marcelo Coelho, na FSP.

SELFIES

 

Muita gente se irrita, e tem razão, com o uso indiscriminado dos celulares. Fossem só para falar, já seria ruim. Mas servem também para tirar fotografias, e com isso somos invadidos no Facebook com imagens de gatos subindo na cortina, focinhos de cachorro farejando a câmera, pratos de torresmo, brownie e feijoada.

Se depender do que vejo com meus filhos —dez e 12 anos—, o tempo dos “selfies” está de todo modo chegando ao fim. Eles já começam a achar ridícula a mania de tirar retratos de si mesmo em qualquer ocasião. Torna-se até um motivo de preconceito para com os colegas.

“Fulaninha? Tira fotos na frente do espelho.” Hábito que pode ser compreensível, contudo. Imagino alguém dedicado a melhorar sua forma física, registrando seus progressos semanais. Ou apenas entregue, no início da adolescência, à descoberta de si mesmo.

A bobeira se revela em outras situações: é o caso de quem tira um “selfie” tendo ao fundo a torre Eiffel, ou (pior) ao lado de, sei lá, Tony Ramos ou Cauã Reymond.

Seria apenas o registro de algo importante que nos acontece —e tudo bem. O problema fica mais complicado se pensarmos no caso das fotos de comida. Em primeiro lugar, vejo em tudo isso uma espécie de degradação da experiência.

Ou seja, é como se aquilo que vivemos de fato —uma estadia em Paris, o jantar num restaurante— não pudesse ser vivido e sentido como aquilo que é.

Se me entrego a tirar fotos de mim mesmo na viagem, em vez de simplesmente viajar, posso estar fugindo das minhas próprias sensações. Desdobro o meu “self” (cabe bem a palavra) em duas entidades distintas: aquela pessoa que está em Paris, e aquela que tira a foto de quem está em Paris.

Pode ser narcisismo, é claro. Mas o narcisismo não precisa viajar para lugar nenhum. A complicação não surge do sujeito, surge do objeto. O que me incomoda é a torre Eiffel; o que fazer com ela? O que fazer de minha relação com a torre Eiffel?

Poderia unir-me à paisagem, sentir como respiro diante daquela triunfal elevação de ferro e nuvem, deixar que meu olhar atravesse o seu duro rendilhado que fosforesce ao sol, fazer-me diminuir entre as quatro vigas curvas daquela catedral sem clero e sem paredes.

Perco tempo no centro imóvel desse mecanismo, que é como o ponteiro único de um relógio que tem seu mostrador na circunferência do horizonte. Grupos de turistas se fazem e desfazem, há ruídos e crianças.

Pego, entretanto, o meu celular: tiro uma foto de mim mesmo na torre Eiffel. O mundo se fechou no visor do aparelho. Não por acaso eu brinco, fazendo uma careta idiota; dou de costas para o monumento, mas estou na verdade dando as costas para a vida.

Não digo que quem tira a foto da cerveja deixe de tomá-la logo depois. Mas intervém aí um segundo aspecto desse “empobrecimento da experiência”. Tomar cerveja não é o bastante. Preciso tirar foto da cerveja. Por quê?

Talvez porque nada exista de verdade, no mundo contemporâneo, se não for na forma de anúncio, de publicidade. Não estou apenas contando aos meus seguidores do Facebook que às 18h42 de sábado estava num bar tomando umas. Estou dizendo isso a mim mesmo. Afinal, os meus seguidores do Facebook, sei disso, não estão assim tão interessados no fato.

Não basta a sede, não basta o prazer, não basta a vontade de beber. Tenho de constituí-la como objeto publicitário. Preciso criar a mediação, a barreira, o intervalo entre o copo e a boca.
Vejam, pergunto a meus seguidores inexistentes, “não é sensacional?”. Eis uma cerveja, a da foto, que nunca poderá ser tomada. A foto do celular imortaliza o banal, morrerá ela mesma em algum arquivo que apagarei logo depois.

Não importa; fiz meu anúncio ao mundo. Beber a cerveja continua sendo bom. Mas talvez nem seja tão bom assim, porque de alguma forma a realidade não me contenta.

A imagem engoliu minha experiência de beber; já não estou sozinho. Mesmo que ninguém me veja, o celular roubou minha privacidade; é o meu segundo eu, é a minha consciência, não posso andar sem ele, sabe mais do que nunca saberei, estará ligado quando eu morrer.

Talvez as coisas não sejam tão desesperadoras. Imagine-se que daqui a cem anos, depois de uma guerra atômica e de uma catástrofe climática que destruam o mundo civilizado, um pesquisador recupere os “selfies” e as fotos de batata frita.

“Como as pessoas eram felizes naquela época!” A alternativa seria dizer: “Como eram tontas!”. Dependerá, por certo, dos humores do pesquisador.

coelhofsp@uol.com.br

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Mario Vargas Llosa e a Sociedade do Espetáculo

“A cultura já não é mais a mesma, se tornou um circo, um espetáculo que, ao abarcar tudo, não é mais nada”, alfinetou Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de literatura, em sua passagem pelo Brasil. Llosa afirmou que a cultura do imediato está apagando uma produção cultural “instigadora”, que para ele, é a fonte do “progresso humano”. Criticamente, atacou o que chama de “revolução audiovisual”, afirmando que a Internet e novas tecnologias converteram tudo ao centro, para ele, avanço importante, sobretudo no campo da liberdade de expressão, mas chama a atenção para o dilúvio de informação, jogada sem discriminação, responsável por um “estado de confusão absoluta”.
Nesta linha, Guy Debord (1997) afirmava, já no final dos anos 60, que a sociedade busca constantemente a produção de imagens, embora não saiba, muitas vezes, o que fazer com elas. Para Debord, essa é a sociedade do espetáculo onde as imagens seriam a concretização de uma alienação. As imagens recebem novos atributos, além de se tornarem o meio de propagação e construção de discursos ideológicos. “Quando o mundo real se transforma em simples imagens as simples imagens tornam-se seres reais (…) o espetáculo como tendência de fazer ver (…) o mundo que já não se pode tocar”. (1994, p.18).
A construção do espetáculo é uma forma de separação, de alienação e de dominação na sociedade para produzir uma falsa consciência de existir, na tentativa de se criar a ideia de uma sociedade unificada. Dentro desta configuração social, o espetáculo é uma espécie de “catalisador” da dominação. Esta alteração se estabeleceu ainda na época da Revolução Industrial, quando as relações de trabalho se alteraram junto com a necessidade de uma produção em massa que modificou a vida social. A mercadoria foi o produto desta alteração.
O que Mario Vargas Llosa reiterou, foi o que Guy Debord afirmou há mais e 40 anos: toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.

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Política e Sociedade do Espetáculo

Semana passada aconteceu o II Seminário Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo, na Cásper. Eu fiz uma análise de como o deputado federal Indio da Costa (ex-DEM/RJ) foi construído e desconstruído pela mídia no ano de 2010. Foi um estudo de como o relator do projeto Ficha Limpa saiu das páginas de política e ocupou o posto de vice-presidente na chapa do tucano José Serra nas eleições presidenciais daquele ano, culminando com uma atenção especial de toda a imprensa brasileira. Por fim, discutimos de que forma, após as eleições, o então deputado democrata foi totalmente esquecido pela mesma Sociedade do Espetáculo que o colocou no centro das atenções pelo período de um ano.
“O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo. A afirmação de Guy Debord é bastante pertinente para o caso Indio da Costa. Catapultado ao centro dos holofotes no ano de 2010, tornou-se tão conhecido como o próprio José Serra.
Indio saiu das eleições e teve somente mais dois meses de mandato legislativo. Sem o mandato legislativo, o mito não se manteve. Após um ano conturbado no DEM com escândalo do “Mensalão de Arruda”, Indio da Costa perdeu seu papel e sua influência. Mudou-se para o PSD de Kassab e desde então deixou o centro dos holofotes. “Aquilo que o espetáculo deixa de falar durante três dias é como se não existisse. Ele fala então de outra coisa,e é isso que, a partir daí, afinal, existe.” (Debord)

“Hoje em dia, o espetáculo está no poder. Não mais apenas na sociedade, tão enorme foi o avanço deste mal. Hoje, nossas conjeturas já não têm como único objeto as relações do espetáculo e da sociedade em geral, como as que tecia Guy Debord em 1967. Agora, é a superestrutura da sociedade, é o próprio Estado que se transforma em ‘empresa teatral’ em ‘Estado de Espetáculo’. De uma forma sistemática e organizada. Para melhor divertir e iludir o público de cidadãos. Para melhor distrair e desviar. E mais facilmente transformar a esfera política em cena lúdica, em teatro de ilusão.” (Schwartzenberger)
E, para finalizarmos:
Os campos de batalha modernos são mais extensos do que os campos de batalha antigos, o que obriga ao estudo de um maior campo de batalha. É preciso muito mais experiência e gênio militar para comandar um exército moderno do que era preciso para comandar um exército antigo. (Bonaparte)

 

 

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