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Guerra Santa nas eleições de SP 2012

Nas eleições municipais para prefeitura de São Paulo, no ano de 2012, a religião roubou a cena do debate político. Se antes o tema era restrito à peregrinação de candidatos em busca de apoio dos fieis, de qualquer que fosse a religião, nessa disputa verificou-se uma espetacularização do assunto. Mais do que apoio, os candidatos buscaram negociações diretas e declarações formais às suas candidaturas. Também não faltaram ânimos acirrados. A ascenção do candidato do PRB Celso Russomanno, cujo partido é diretamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), apimentou ainda mais a disputa.

Some-se a isso a liderança nas intenções de voto de Russomanno durante todo o primeiro turno da disputa em São Paulo. Em pesquisa Datafolha divulgada no final de agosto, Russomanno já apareceu com 31% das intenções de voto, contra 22% de José Serra (PSDB) e 14% de Fernando Haddad (PT). Esses números transformaram a polarização paulistana PT vs. PSDB em Russomanno vs. Serra/Haddad. Russomanno passou a ser apresentado como “o” candidato da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), com compromissos com esse grupo. Unido ao apoio de uma grande corrente evangélica o crescimento do candidato do PRB foi diretamente associado à sua escalada nas pesquisas.

Sua ligação com a Universal proporcionou uma espetacularização do tema religioso. O candidato foi constantemente questionado sobre o assunto, em algumas ocasiões mostrando irritação. Por diversas ocasiões o candidato do PRB tentou desvincular sua figura e de seu partido da Igreja Universal.

Há de se ressaltar um cenário complexo em torno do debate da religião no cenário político de São Paulo. A força política da IURD, que estabeleceu metas políticas claras no cenário brasileiro, fazendo até mesmo com que a Igreja Católica entrasse na “guerra,” demonstra uma midiatização do cenário que até então era relegada à segundo plano.  Nesse contexto, parece que um dos fundamentos da democracia moderna, a separação entre a Igreja e o Estado e a garantia de que o exercício da cidadania política independe das crenças religiosas de cada um, foi esquecido. Em contrapartida, o Estado deveria garantir a imparcialidade no trato com as diferentes Igrejas e a liberdade religiosa. Porém, como bem explicam Gianpetro Mazzoleni e Winfried Schulz (1999) vivemos na era do remix, onde todas as áreas da vida em sociedade se misturam. A política deixou de ser feita somente por políticos e passou a ser uma atividade que se faz em espaços institucionais. A religião passou a fazer parte do sistema político ajustando-se às demandas dos meios de comunicação.

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O animal político

Ontem, pesquisando em livros para um seminário (que em breve darei detalhes) que vou participar com o grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo*, em outubro, achei muita coisa interessante. Um deles é o trabalho do Gabriel Augusto Costa Santos Nascimento, sobre o animal midiático. Também comecei a ler O mínimo eu, de Christopher Lasch. O que pretendo entender é como o homem político se comporta em tempos de exposição excessiva de imagem e como ele age nessa sociedade narcisista, que como nos diz Lasch, é fruto de insegurança e esvaziamento de valores e sentidos.

Roger-Gerard Schwartzenberg afirma que o mundo do espetáculo e da política se entrosam cada vez mais. Nesse mundo do espetáculo, Sergio Buarque de Hollanda informa que a nossa política traz a marca da matriz lusitana de valorizar o político em detrimento do partido. O personalismo brasileiro foi construído aos moldes portugueses.

Nascimento fala que a a globalização levou o crescimento das campanhas publicitárias de marcas para diversos pontos do mundo além dos países desenvolvidos tendo como principal agente os Estados Unidos da América. Esse fenômeno midiático, com apoio nas técnicas desenvolvidas por Goebbels, chegou aos políticos contemporâneos.Um exemplo claro desse animal político midiatizado é o próprio Arnold Schwarzenegger. Schwarzenegger nasceu e vive nessa sociedade espetacularizada e a utilizou em seu detrimento nas campanhas.

O contexto faz com que o eleitorado se identifique com seu candidato. (HAUG, 1996)

É de Nascimento a exemplificação do que acontece com o “animal político midiático” no Brasil. Na sociedade do espetáculo, o capitalismo aliado ao imagético derrotou as ideologias, e governos considerados bem sucedidos figuram nas regiões centrais do espectro político, o que pode denotar as diversas semelhanças entre PT e PSDB, que são partidos de centro-esquerda em sua formação.

As campanhas publicitárias de Lula mostram um Brasil desigual o apontando como praticamente um dos pais fundadores da nação brasileira. A campanha serrista de 2010 o mostrou como candidato do rompimento, mas com propostas semelhantes ao lulismo e negando a herança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos principais intelectuais de centro que em meio ao tempo de crises fundou a base da atual política econômica do país, promoveu avanços para eliminar a inflação e trouxe a questão de cotas raciais para a deliberação. Serra fugiu de aliar sua imagem à de FHC por conta de privatizações de estatais estratégicas à União, entretanto há aquelas que são apontadas como mal sucedidas. A tática mal  empreendida do tucano ajudou na vitória eleitoral da presidente e pupila de Lula, Dilma Rousseff (PT), mesmo sem ela ter experiência em pleitos eleitorais. Foi mais um demérito de Serra e uma conquista de Lula em formar uma sucessora do que um mérito da ex-ministra da Casa Civil que em seu discurso parecia uma reprise de Lula.

Mas vale lembrar Guy Debord, mais uma vez. “O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” (1997: p.17)Mas isso é assunto para outro texto…

*O grupo Comunicação e Sociedade do Espetáculo é coordenado pelo prof. Dr Cláudio Coelho.

BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo, Editora Perspectiva, 1989.
BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997
LASCH, Christopher. O Mínimo Eu. São Paulo Editora Brasiliense, 1986.
NASCIMENTO,Gabriel Augusto Costa Santos. O animal político midiático (artigo)

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