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Prof. Miguel Chaia e a época da reprodutibilidade acadêmica

Vocês já devem ter ouvido falar do livro “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin. O texto mexe com o status da obra de arte, retirando-lhe o que Benjamin chamou de “aura”, ou seja, aquela característica que a torna única, a experiência da contemplação “aqui e agora”. Para além do artístico, o autor revela as consequências dessa revolução para os campos social e político.O que Benjamin chama em seu texto de “reprodutibilidade técnica” é, na verdade, a entrada do processo industrial na produção artística. A reprodutibilidade tira da obra de arte sua aura e com isso, eu diria, seu próprio status de obra de arte.

Em 2013 fiz vários posts falando sobre a exigência que nós, pesquisadores, temos de produzir, produzir e produzir. No IBERCOM, o prof. Miguel Vicente questionou se estávamos em condições de importar talentos, visto que o debate era que a academia americana seria preconceituosa com os trabalhos latinos. Já comentei que, aqui no Brasil, a exigência pela produção QUANTITATIVA é  mil vezes maior do que pela produção QUALITATIVA e isso explica muita coisa. Não estamos em pé de igualdade com os americanos porque temos que produzir qualquer coisa para ser publicada. Estamos apenas Reproduzindo. Não temos mais a aura.

Por que estou falando tudo isso? Porque ontem fui surpreendida com a notícia de que o professor Miguel Chaia ( não vou me ater em apresentações, um simples “google” fala por si) havia sido “descredenciado” da pós da PUC.  Na verdade, ele “pediu para sair” conforme vocês verão abaixo. Existem os critérios de avaliação de “produtividade” da CAPES, os quais expressam cada vez mais um processo de delinquência acadêmica. O processo, puramente quantitativista, produz resultados desastrosos. Acabou refletindo num dos maiores intelectuais brasileiros: o professor Miguel Chaia. 

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Abaixo, reproduzo a carta do professor ao Programa de Pós-graduação da PUC. O professor nem imagina que estou publicando. A carta, como vocês imaginam, rodou. E é emocionante. SEM MAIS.

São Paulo, 27 de outubro de 2014.

À Coordenação do PEPG em Ciências Sociais

O soco acadêmico me pegou de jeito, bem no fígado: rebaixamento a professor colaborador, eufemismo para descredenciamento. Experimentei o constrangimento de perder as credenciais num bom momento da carreira, sentir-se um convidado em sua própria casa.

Considero injusta a sentença lançada sobre as minhas atividades acadêmicas, emitida pela comissão de avaliação e pela coordenação do programa. Discordo do resultado e do processo que levou a esta sentença, mesmo que ele tenha se dado no interior de uma tendência atual nas universidades.

Além do mais acho omissa, burocrática e insensível a coordenação do programa, tão apegada ao exercício do pequeno poder que nem suspeita que dois mais dois são cinco. É preciso ter sabedoria e boa vontade para defender sim, simultaneamente, os interesses da instituição e de seus pares.

Acho injusta a sentença, pois no período da avaliação, produzi um dos melhores textos da minha trajetória – longo, denso e criativo – fruto de mais um ano de pesquisa meticulosa sobre arte e micropolítica. Ele foi publicado pela Editora Cosac Naify, que tem Prêmio Nobel em seu catálogo.

Acho injusta a condenação, porque no período em questão organizei um substancioso livro sobre cinema e política, do qual produzi um capítulo. Selecionei os textos, li, reli, tive dúvidas e após um bom tempo já está no prelo pela Editorial Azougue (RJ).

Acho injusta a sentença, pois nesta época toda, fui diretor da EDUC, fantástica editora universitária da PUC-SP. Nesta fábrica magnífica de pontuações para a CAPES, incentivei a publicação de dezenas de livros e revistas. Professores da casa e de outras universidades receberam, pela EDUC, inúmeras pontuações.

Acho injusta a condenação, pois no período em questão participei da diretoria da Bienal Internacional de São Paulo e de seu comitê curatorial que elegeu em suas edições o tema “Arte e Política”, sem remuneração, levando o nome da PUC-SP e do NEAMP para além dos muros da universidade.

Acho injusta a sentença porque participo como um dos pesquisadores principais do Projeto Temático/FAPESP “Lideranças Políticas no Brasil: características e questão institucional”.

Acho injusta a condenação, pois há três anos estou aperfeiçoando um longuíssimo texto sobre o Poder Político em William Shakespeare, a partir do seu aprendizado com Maquiavel. Só agora é que ele está quase pronto para ser encaminhado para eventual publicação. Para mim o processo intelectual é lento, gostosamente penoso, que exige reflexão demorada e uma íntima contemplação.

Critico a coordenação por não defender seus pares, por não dificultar a aplicação da pena, por deixar que professores sérios e históricos recebessem penas imerecidas.

A coordenação foi ineficiente ao aplicar a penalidade quando já estavam planejadas as atividades acadêmicas para o primeiro semestre de 2015.

A coordenação foi deselegante na forma como conduziu a comunicação da sentença aos professores.

Conclusão: por isso tudo inicio um processo para me desligar do PEPG em Ciências Sociais. Não tenho mais a mínima vontade de atuar junto ao programa. Ficarei apenas o tempo necessário para orientar os excelentes mestrandos, doutorandos e um pós-doutorando sob a minha responsabilidade.

Sou produtivo e escrevo muito, para o meu aprendizado e formação intelectual, para os meus interlocutores e, principalmente, para o meu prazer. Não gosto de ser medido por números rasos. Mesmo que eu já tenha construído um significativo espaço para contribuir com o desenvolvimento do programa, desde o início dos anos 90, agora não quero mais trabalhar nele. Simples assim, com certa leveza: bye, bye pós-graduação.

Miguel Chaia

 

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