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Homem público tem vida privada?

A Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, noticiada pela grande imprensa em 23 de novembro, indiciou Rosemary Noronha por tráfico de influência e corrupção passiva. Rosemary era chefe de gabinete do escritório da Presidência da República em São Paulo até operação revelar um esquema de compra de pareceres técnicos de agências do governo, como ANA (das Águas) e Anac (Aviação Civil). Mas o que tem ocupado as páginas dos jornais é a ligação estreita que ela mantinha com o ex-presidente Lula desde 1993. Alguns setores da imprensa dão conta de que a primeira dama Marisa Letícia “não gostava da assessora” e que Rosemary viajava com o ex-presidente quando sua mulher não podia.

Até que ponto essa relação mais íntima deve ser de conhecimento da imprensa? A partir do momento em que a ex-chefe de gabinete usa o nome de um presidente da República para conseguir benefícios, nomear cargos e tomar decisões em nome do Palácio do Planalto, a relação tem importância de Estado.

Richard Sennet, professor de sociologia na London School of Economics e na New York University, afirma, em O declínio do homem público, que os debates políticos tornam-se melodramas sentimentais, e os temas públicos são tratados como assuntos da intimidade salpicados de namoros e intrigas pessoais. A dimensão clássica do homem público se esvanece, consumida pela sua intimidade exposta. Isso pode confundir na hora da checagem da noticiabilidade.

Mas, como informa o pesquisador Eugênio Bucci, o que prejudica o jornalismo, não é a divulgação da informação, mesmo que seja divulgação dessa intimidade. O que prejudica o bom jornalismo é o sensacionalismo, o moralismo e o mau gosto e, acrescento, a mania pertinente de julgar antes do Ministério Público ou órgão responsável. Afinal, quando o poder age no sentido de subtrair ao cidadão a informação que lhe é devida, está corroendo as bases do exercício do jornalismo ético, que é o bom jornalismo, e corrompendo a sociedade. Ao jornalismo, o que lhe é de direito: divulgação da informação. À esfera jurídica, o julgamento.

É justo devassar a intimidade de alguém? A resposta é óbvia: “Não, todo mundo sabe”. Mas, de novo, e recorro à Bucci, não é com tanta simplicidade que essas dúvidas costumam aparecer. “Pergunte-se outra vez: é justo investigar a intimidade de alguém que esteja exercendo uma função pública e guarda, em sua intimidade, práticas suspeitas que envolvem o Estado?”. Para essa pergunta, escritor Rui Barbosa tem a resposta: “Queiram ou não, os que se consagraram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro”.

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