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Oscar Pistorius: refém nas mãos da mídia

Primeiramente vamos observar as imagens divulgadas pelo Cape Times, maior jornal sul africano, sobre o caso Oscar Pistorius, na semana em que ocorreu o incidente envolvendo o atleta, o que ocasionou a morte de sua namorada Reeva Steenkamp.

Capa do Cape Times/ 15 de fevereiro 13

Capa do Cape Times/ 15 de fevereiro 13

 

Capa Cape Times /19 de fevereiro 13

Capa Cape Times /19 de fevereiro 13

 

Cape Times / 20 de fevereiro 13

Cape Times / 20 de fevereiro 13

Site Cape Times / 22 de fevereiro 13

Site Cape Times / 22 de fevereiro 13

Coloquei essas imagens aqui para dar uma noção de como foi (e tem sido) a cobertura na África do Sul. O velocista paraolímpico, que fez história ao tornar-se o primeiro atleta portador de deficiência física a conseguir competir nos Jogos Olímpicos, em Londres, é um herói nacional da África do Sul. E, no entanto, é normal que haja, como bem comprovam as imagens, uma dúvida se Pistorius é realmente o assassino que premeditou a morte da namorada, ou o ídolo que a confundiu com um ladrão.

Na capa de 15 de fevereiro, um dia depois do episódio,o Cape Times mostra Pistorius ainda nas pistas de atletismo. Porém, logo em seguida, a imagem que começa a aparecer do atleta é sempre dele envolvido com armas (como mostra a capa de 19 de fevereiro) ou saindo tribunal, onde por uma semana, é julgado seu pedido de fiança. Os veículos da África do Sul cobrem massivamente o evento, e a maioria das imagens não têm nada a ver com o Pistorius vencedor. Pelo contrário. Em 20 de fevereiro o Cape Times condena o atleta antes mesmo do tribunal: “Como eu matei Reeva”. Assim que o pedido de fiança do atleta e a liberdade provisória são concedidos, os jornais, sem mais o que especular, voltam a ter dúvidas sobre o envolvimento do atleta em assassinato premeditado. A dúvida, num país apaixonado pelo atleta, volta a se refletir nas páginas dos jornais.

Como afirma Giuseppe Mininni (2008), “a mídia cria e destrói deuses num ritmo vertiginoso”. Foi o que fizeram com Pistorius. Antes mesmo de um julgamento na justiça (que só deve ocorrer em 4 de junho) o atleta foi condenado pela imprensa. Não é mais o espetáculo. É o hiperespetáculo. “O espetáculo era a representação do imaginário moderno. Algo designado para ser superado. O hiperespetáculo é um imaginário sem representação. Imagem nua. Deliciosamente obscena”.  (GUTFRIEND;DA SILVA: 2007)

A imprensa precisa fazer o que lhe é de direito: informar. Precipitar-se e condenar pessoas não é, definitivamente, seu trabalho. Tanto a imprensa brasileira (objeto de um estudo mais aprofundado que pretendo desenvolver sobre esse caso), quanto a imprensa da África do Sul, outorgaram-se o direito de fazer uma inquisição no atleta. As imagens são poderosas. Não há nada do mito Pistorius naquelas imagens de tribunal.

“As imagens possuem um peso praticamente ilimitado na sociedade moderna, principalmente as imagens fotográficas; e a razão de tal autoridade advém qualidades peculiares às imagens que obtemos através das câmaras. Essas imagens são verdadeiramente capazes de usurpar a realidade porque, antes de mais nada, uma fotografia é não só uma imagem, uma interpretação do real- mas também um vestígio, diretamente calcado sobre o real, como uma pegada  ou uma máscara fúnebre.” (SONTAG, 1981)

Não poderia deixar de finalizar com Guy Debord.  É o espetáculo provocado pela mídia. “Em toda parte onde reina o espetáculo, as únicas forças organizadas são as que querem o espetáculo.” (2011)

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 3. ed. Cotia, SP : Ateliê Editorial, 2009a.

…………………. Os Tempos da Fotografia. 2. ed. Cotia, SP : Ateliê Editorial, 2007.

………………… Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. 4.ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009b.

GUTFREIND, Cristiane Freitas,DA SILVA, Juremir Machado. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. EdiPUCRS, Porto Alegre, 2007.

MINNINI, Giuseppe. Psicologia Cultural da Mídia. São Paulo, SP, A Girafa, 2008.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre a Fotografia. 2. Ed. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.

 

 

 

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Lance Armstrong: as imagens de um heroi (até o final) no jornal Folha de São Paulo

Há algum tempo eu queria escrever um texto maior (e, me desculpem por isso) sobre os casos Lance Armstrong e Oscar Pistorius. Acompanhei todo o processo do Lance pela Folha de São Paulo, desde junho do ano passado. O que ficou claro foi que, mesmo quando o caso de doping já estava nos tribunais, as imagens utilizadas no jornal eram sempre de vitórias do ciclista ou outros momentos de glória.

Folha de SP/14 de junho

Folha de SP/20 de agosto 12

Numa das  matérias sobre a suspeita de doping, a imagem que aparece na matéria de 20 de agosto é de arquivo, de 12 de fevereiro. Uma outra matéria de 24 de agosto informa que Armstrong desiste de lutar na justiça e perderá os títulos. A mesma imagem: Armstrong em um Ironman 70.3. A notícia diz que ele sofre processo de doping; a imagem mostra um super atleta. Em 25 de agosto, o ciclista é banido do esporte. O atleta aparece em seus melhores momentos.

Galeria de fotos- Folha de São Paulo/ 25 de agosto

Galeria de fotos- Folha de São Paulo/ 25 de agosto 12

Quando a matéria é que Armstrong “utilizou os métodos de dopagem mais sofisticados da história”, a mesma imagem publicada primeiramente aqui no blog, é a que aparece como ilustração do texto. Avançando um pouco, para o dia 14 de janeiro (pouco antes do caso Oscar Pistorius ter seu início), a imprensa mundial informa que Armstrong confessou o doping para a apresentadora americana Oprah Winfrey. Sem imagens de tribunais, de seringas, de choro. Apenas um heroi sendo questionado.

Folha de São Paulo / 14 de janeiro

Folha de São Paulo / 14 de janeiro

Martine Joly (2005) diz que uma das funções da análise da imagem pode ser a busca ou a verificação das causas do bom ou do mau funcionamento de uma mensagem visual. Jean- Luc Godard dizia: “palavra e imagem são como cadeira e mesa: se você quiser se sentar à mesa, precisa de ambas”. Mesmo que ambas possam ser tão distoantes como nesse caso, onde um dos maiores julgamentos do esporte ocorre sendo ilustrado com imagens de vitória. O que ocorreu no caso de Armstrong, que não ocorreu com Pistorius, foi que, desde o início, prevaleceu a imagem do heroi, do ciclista sete vezes campeão do Tour de France. Talvez por isso, e somente por isso, a imagem do atleta possa ser reconstruída.

 

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