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Tragédia e política

Nada como voltar das férias e dar de cara com esse texto do professor Miguel Chaia, na Revista Cult

prof Miguel Chaia. / Fonte: pucps.br

prof Miguel Chaia. / Fonte: pucps.br

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Em suas peças, William Shakespeare produziu formas de saber e de conhecimento, brotadas da arte, e que permitem estruturar um pensamento político sofisticado e muito bem sistematizado. Esse pensamento político em Shakespeare, com forte acento teórico, articula-se em torno dos seguintes conceitos: relações instáveis de poder; movimento autônomo do núcleo central do poder; insistência dos homens em tomar o governo; mútuas referências entre ações dos políticos e a presença de cidadãos/povo nas ruas; defesa da legitimidade; e os impactos negativos que o poder exorbitante exerce sobre os diferentes sujeitos – levando a sofrimentos ou até mesmo à morte tanto os indivíduos que circulam em torno do poder (Macbeth, por exemplo) quanto as pessoas que vivem nos locais externos ao poder (a fome da população de Roma em Coriolano ou mesmo o impedimento do amor entre jovens em Romeu e Julieta). Assim, Shakespeare filia-se a uma tendência analítica dada pela “política como tragédia”, por supor a permanência dos conflitos na vida no âmbito do poder e nas relações entre governo e dominados. Portanto, Shakespeare entende a política como esfera de crises e estabilidades que se sucedem indefinidamente, jogando os homens em períodos de legitimidade e usurpação, em épocas de harmonia e de violência e em períodos de guerra e paz.

Para o dramaturgo, a política é prática de seres humanos no embate com o poder e com outros homens, ações estas que acontecem sem que se tenha controle ou previsibilidade dos seus resultados. Os desejos humanos de se direcionarem ao poder deverão encontrar regras próprias da política que colocam em risco a sanidade, o corpo e o destino do governante ou do ser político.

A dimensão teórica decantada pelas peças do dramaturgo resulta do seu singular processo de trabalho, uma vez que cada peça nasce não apenas de seu talento, sensibilidade e genialidade, mas também de um processo árduo de trabalho intelectual que envolve pesquisas das publicações filosóficas do seu tempo (Shakespeare leu e citou várias vezes Maquiavel, La Boétie, Montaigne e outros), estudo da história (vejam-se as ricas peças históricas, como as séries “Henrique” e “Ricardo”), competições intelectuais entre os autores da sua geração e da anterior, contatos com as universidades inglesas, as contribuições dos seus atores nas diversas edições de cada peça (as colaborações de parceiros aprimoravam as peças) e, inclusive, o aprendizado com a maçonaria e com mitologias que circulavam em seu tempo. Shakespeare foi um estudioso e pesquisador atento do seu tempo, da história e dos desatinos do ser humano. O teatro de Shakespeare, pode-se dizer, é uma encenação de uma perspectiva de homem e de mundo, baseada numa teoria filosófica.

Neste sentido, uma vez destacada não apenas a potência da arte como forma de conhecimento, mas também o pensamento político sistematizado engendrado por Shakespeare, o que foi problematizado e escrito para a Roma de Júlio César pode ser desdobrado para situações da contemporaneidade. Enfatizando o fato de que os escritos de Shakespeare permitem várias entradas analíticas, uma vez que a força de seu legado encontra-se nas metáforas criadas por esse dramaturgo.

Júlio César (1599) faz parte da trilogia romana juntamente com Antônio e Cleópatra (1606) e Coriolano (1607), na qual o autor analisa as movimentações em torno do poder, focando tanto a disputa, as tentativas de tomada e manutenção do poder quanto a relação dos homens políticos com formas de resistência e pressão advindas do povo, dos cidadãos. Na primeira e na terceira peças citadas, o povo é personagem nuclear e constitui-se em uma força política com potencial de rebelar-se ou ser manipulado. Em Coriolano, o povo faminto desequilibra relações de poder, possui direitos consagrados e chega a derrubar e enviar para o exílio o seu governante. Em Júlio César, Marco Antônio, representante das ideias jovens de Roma da época, astuto, sedutor e convincente, incita e manipula a multidão com a força das palavras e das ideias. No discurso diante do cadáver de César, o futuro participante do triunvirato imperial, juntamente com Otávio e Lépido, Marco Antônio, com a eloquência de um grande orador, leva a multidão ao arrebatamento, colocando-a contra os jovens insurgentes republicanos Brutus, Cássio e Casca. (Vale destacar que, em Antônio e Cleópatra, a resistência ou oposição a Roma vem de reino periférico ao Império, o Egito, e sua rainha).

O ator Caco Cioler

Como nas ruas do Brasil após as jornadas de junho de 2013, a multidão de Roma após a morte de César está em busca de um “nome”, como fala Cássio: “… Há ocasiões em que os homens são senhores dos seus destinos; se nós somos subalternos, o erro, caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós próprios. Brutus e César! Que há neste César? Por que é que este nome há de soar melhor do que o teu?… Em nome de todos os deuses, de que substância se alimenta o nosso César, para se tornar tão grande!”. Shakespeare permite não apenas pensar na possibilidade de revolução (veja-se, ainda, sobre essa possibilidade a peça A tempestade), mas, também, na inconstância ou permanente procura das massas por um “nome” a ser seguido. A situação política brasileira, com dificuldades de acomodar as exigências do povo, torna-se mais grave ainda com a polarização entre os dois partidos políticos expressivos resultante da divisão do eleitorado na votação presidencial. As diferentes posições contra e a favor da presidente Dilma Rousseff vêm criando divisões radicais no país, sem que haja a previsibilidade de uma acomodação entre as forças em jogo na atual conjuntura política do Brasil. Ou estaria o povo, tragicamente, servindo de massa de manobra à disposição de habilidosos retóricos?  Ou estariam surgindo várias e novas lideranças políticas com potencial de rearranjar as relações políticas do país?

As relações entre governantes e cidadãos são sempre tensas e sujeitas às interferências de crises ou de políticos com capacidade de desestabilização. Mesmo o governante eleito pelo voto popular, aquele com legitimidade política, pode gradativamente se desgastar, exigindo a reposição de um nome. A queda nas pesquisas de popularidade confirmando a rejeição do governo Dilma Rousseff, considerando ruim ou péssimo o seu governo, abre o flanco para a imprensa propagar a proposta de impeachment – pode-se pensar o discurso convincente de Marco Antônio, sendo feito, nos dias de hoje, pela mídia, com forte poder de sedução e convencimento próprios da imprensa escrita e da televisão. 

Convém não esquecer que a Roma de César assassinado, aquele que deve morrer, é um cenário de crise, de perspectiva de mudanças de regime e de desejos de mudanças sociais, econômicas e políticas. Assim como o pedido de impeachment da atual presidenta pode ser visto na metáfora de “César deve morrer”. Os confrontos entre duas forças de Roma – dos jovens republicanos conspiradores e da aspiração ou possibilidade de retorno ao regime tirânico – são também expressões de outros confrontos polarizados que se colocam constantemente nas políticas de Estados e nações. Pode-se pensar que as exacerbações das posições de direita no Brasil e o enfraquecimento da esquerda sejam dinâmicas de um povo em movimentação. E, mais ainda, essas exacerbações podem ter origem nos erros dos políticos dirigentes do atual governo em suas diferentes gestões. Afinal, como diz Cássio, o erro não está nas estrelas, mas advém dos próprios governantes que conduziram a essa situação da procura de um novo nome para ser seguido pela multidão. A política como prática é tarefa de pessoas, de seres humanos e não de deuses, como diz Cássio sobre César: “Em Espanha teve febre; quando estava com o acesso notei como ele tremia; é a verdade, este deus tremia! Os lábios covardes descoraram-se, e os olhos que fazem tremer o mundo, perderam o brilho”. Os grandes governantes podem cair do céu ao inferno, no intenso e inesperado processo político. Basta se perguntar hoje sobre o significado de homens públicos brasileiros que contavam com grande aprovação da população. Na política vai-se rapidamente de herói a vilão. A anunciada morte, enquanto desgaste, do lulismo marca dois períodos distintos na história do Brasil – aquele da aglutinação nacional e do sentimento de avanço social econômico e, agora, recentemente, a dispersão e a emergência radical da direita no país. Ou seja, não se trata da morte física de César, mas da morte política, sempre possível nas circunstancias da luta pelo poder. E, principalmente, sempre uma possibilidade quando o povo se torna um protagonista com o potencial de influir nessas relações.

Na peça Júlio César, os movimentos dos cidadãos – de apoio ou de oposição – acontecem primeiro em direção a César, depois a favor de Brutus, contra Brutus e Cássio, a favor de Marco Antônio – personagem este que incita a multidão com o seu discurso potente politicamente. Pela voz de um cidadão pedem-se explicações sobre a morte de César (“Queremos que nos deem explicações”). Sobre Brutus, após seu discurso, dizem os cidadãos: “Viva Brutus!, Levemo-lo em triunfo até sua casa. Que seja César”; Brutus leva os cidadãos a crerem que César era um tirano. A seguir, o discurso de Marco Antônio conduz os cidadãos a acreditarem que César não era ambicioso e que em Roma “não há outro homem mais nobre do que Antônio”.

Os atores Caco Cioler e Carlo Dalla Vecchia em cena de Caesar - Como construir um império (Foto: Bob Sousa)

A multidão tanto pode mudar de rumo, deixando-se guiar de um líder a outro, quanto ocupar as ruas clamando contra os “Traidores! Ó celerados!”, gritando pela revolta ou se propondo a queimar as casas dos políticos (“Queimaremos a casa de Brutus!”) e, ainda, buscando estratégias radicais – como em algumas recentes manifestações de rua no Brasil: “Vamos buscar o lume! Despedacemos os bancos!… Quebremos as cadeiras, as janelas, tudo!”. Devido a esse potencial da presença do povo, alguns políticos brasileiros conclamam para que as suas militâncias saiam às ruas (ou, ainda, os trabalhadores ou a classe média), como forma de pressão política e expressão da força de um partido. Enfim, as ruas de Roma, como as ruas do Brasil, constituem um cenário relevante de lutas e de manifestações políticas.

Num primeiro momento, Roma (talvez o Brasil) está à beira de uma convulsão política ou próxima de um colapso com a morte de César, com o desaparecimento ou esvaziamento de uma liderança política legítima aceita temporariamente pelo povo – nessa Roma com a vacância do poder, Marco Antônio consegue redirecionar a mobilização da multidão iniciada por Brutus. No Brasil, agora, alguns políticos se apresentam tentando repetir a proeza de Marco Antônio: os presidentes das casas legislativas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros e o senador Aécio Neves – mesmo porque os políticos éticos como Brutus fracassaram (como Brutus fracassou), em tentar propor uma saída à morte do governo brasileiro, ou no caso de Roma, uma saída à morte de César.

Além de tratar das relações entre governo e povo, em Júlio César, Shakespeare aborda a movimentação política que ocorre no interior da esfera do poder indicando como nela trafegam mecanismos de traições – a política é um jogo de relações surpreendentes, no qual o elemento novo teima em emergir constante e inesperadamente. Nessa direção, a metáfora construída por Shakespeare aponta para a série de traições que ocorrem atualmente na base partidária da presidente Dilma Rousseff. Convém lembrar que a corrupção é um elemento a mais da desestabilização governamental. A coligação partidária vem se desfazendo, sem controle por parte do governo, levando políticos a assumirem a ruptura e a oposição como práticas corriqueiras. Quando duas forças se empenham na mútua negação, como é o caso do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), emerge um terceiro nome, como foi o de Marco Antônio, na figura do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Para Shakespeare, uma conjuntura política ou uma rebelião sempre propiciam um desdobramento inesperado, não permitindo o cálculo efetivo do seu desfecho. Brutus e Cássio não calcularam a emergência de Marco Antônio. Dilma Rousseff e sua equipe menosprezaram as possibilidades da vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados.

Outra grande pista que Júlio César faz reviver no presente é aquela referente à permanência das lideranças políticas – para Shakespeare, a política é uma atividade exercida por um sujeito, mesmo que se defronte com mecanismos alheios aos desejos humanos. Dessa forma, a política se apresenta enquanto vitalidade para a ação no lugar público a ser gasta por pessoas com capacidade para executar projetos legítimos, que desejem exercer o mando a qualquer custo ou queiram direcionar cidadãos. Tanto suas peças históricas quanto as tragédias indicam a prática política como visualizada ou sintetizada nas pessoas dos governantes ou de políticos das diferentes esferas do poder. Esse líder deve ter a capacidade de articular as forças internas à esfera do poder e, também, saber manobrar as relações com o povo. Melhor ter sucesso em ambas as esferas, mas, quando se tem sucesso em uma das pontas, o mando pode continuar. Entretanto, é impossível a continuidade de governo sem o mínimo controle dos conflitos internos e sem o gozo da boa imagem junto à multidão.

O ator Caco Cioler

A figura do governante – o corpo do rei – e a presença da pessoa, mesmo que virtual, do político ainda são o fundamento das relações políticas. Daí que se acompanha a política seja pela agressão física a César, seja pela apresentação de Brutus/Cássio na cena, isto é, pelo apelo sedutor de Marco Antônio – o mesmo que dizer que a política brasileira só pode ser compreendida ou acompanhada pelas trajetórias e ideias, pelo sucesso ou decadência, de líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva, Eduardo Campos e outros. 

Assim, para Shakespeare, está sempre aberta a possibilidade da boa política voltada ao bem comum, expressa por um nobre homem. Porém, a própria vitória de Marco Antônio é um sinal da dificuldade dessa expectativa, uma vez que, ao final da peça, Antônio manifesta sua opinião sobre o ético Brutus, perdedor na luta pelo poder: “Dentre todos os nobres romanos, este era o mais nobre. Todos os conspiradores se revoltaram contra o grande César por inveja, exceto Brutus. Só ele, ao juntar-se com os outros, obedeceu a um honesto pensamento e ao bem comum… Aqui está um homem”.

Em Shakespeare, a política, ainda que tenha uma faceta ligada às regras autônomas do poder, também envolve vida e morte, jogando os governantes e as populações numa esfera trágica que se caracteriza por constantes crises e tensões que não permitem saber o ponto de chegada. As peças de Shakespeare, e Júlio César é um excelente exemplo, levam a entender a política como tragédia, pois mesmo que necessária, mesmo que conduzida muitas vezes por bons homens, trata-se de uma esfera da sociedade que pode sacrificar corpos, levar as ideias a sucumbir e trair as boas intenções – sempre de forma inesperada e surpreendente.

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“A fábrica de papers”, por Pablo Ortellado

*Recebi do Rafael Balseiro Zin o link para o blog do Professor Medina com esse texto que reproduzi. Obrigada, Rafael!

 

A organização do trabalho na universidade está passando por uma profunda modificação: ela não é mais voltada para a realização de pesquisas exemplares que disputem o reconhecimento dos pares, mas para a conquista de metas de produtividade que gerem reconhecimento credencial das instituições de avaliação. A universidade se parece cada vez menos com um colegiado aristocrático de cientistas desinteressados e cada vez mais com uma fábrica de papers: uma fábrica povoada de operários obedientes. O resultado desta mudança de perfil organizacional não é apenas burocratização e aceleração do trabalho – ela também gera uma profunda corrupção do sistema de comunicação científica.

Um mercado concorrencial de papers

A pesquisa universitária se constituiu modernamente segundo o modelo do colegiado aristocrático de cientistas desinteressados – pesquisadores que, emancipados da lógica econômica, podiam ociosamente investigar o mundo. Para isso foram criados os sistemas de estabilidade (as cátedras e ostenures) e independência acadêmicas (autonomia de pesquisa) que simulavam as condições sociais da pesquisa aristocrática do século XVIII. Embora houvesse algo de anacrônico neste modelo, ele parece ter se ajustado bem às estruturas capitalistas modernas até o fim do boom científico posterior à segunda guerra mundial. No entanto, junto com a crise do estado de bem-estar, a “excepcionalidade” organizacional da ciência foi posta em xeque. Não há ainda consenso sobre o que causou essa mudança. Dardot e Laval, num artigo célebre, atribuem essa mudança ao neoliberalismo – que não consistiria na simples desregulamentação econômica, mas na ampliação da lógica da competição de mercado para todas as esferas da vida. Uma outra explicação para o fenômeno seria a emergência da economia do conhecimento que teria aproximado as formas de organização da empresa capitalista e da universidade num processo que Steven Vallas e Daniel Kleinman chamaram de “convergência assimétrica”.

Seja qual for a explicação, o princípio orientador da mudança em curso faz a universidade operar como se fosse uma fábrica produzindo para um mercado concorrencial. Apesar de não ser uma organização econômica e não vender papers, a universidade passa a ser pensada no modelo input(trabalho humano)/ output (papers e patentes) e se orientar por metas objetivas e crescentes de produtividade. Quando os propositores do modelo são chamados a se explicar, geralmente expressam dois tipos de preocupação: por um lado, diminuir a ociosidade e aumentar a “intensidade” da atividade científica (chamada, sem meias palavras, de “produtividade”) e, por outro, aperfeiçoar os processos de avaliação administrativa fornecendo parâmetros objetivos de mensuração do sucesso.

O objetivo da revolução gerencial na universidade parece ser o de laborizar a atividade científica, submetendo-a a padrões de gestão empresarial. Mas por que o modelo econômico-gerencial deveria ser adequado para gerir a ciência? Em outras palavras, precisamos, os cientistas, ser menos “ociosos” e ter padrões “quantitativos” de administração e controle?

O quantitativo e o qualitativo

Ao introduzir indicadores quantitativos para controlar o trabalho científico, o modelo econômico-gerencial enfrenta uma dificuldade: os resultados da pesquisa científica não têm uma dimensão quantitativa inerente cuja relevância seja suficiente para a avaliação. O único critério quantitativo imediato é o número de artigos produzidos. No entanto, esse indicador isolado é muito impreciso, já que os papers variam em qualidade. O que faz então é incorporar e quantificar a avaliação qualitativa do sistema de publicação por pares das revistas científicas: presumindo que a avaliação da qualidade foi feita pelas revistas científicas, passa-se a quantificar o número de artigos publicados em revistas com revisão por pares. Mas esse novo indicador ainda é impreciso já que os periódicos diferem em rigor de avaliação. Por isso, são utilizados critérios adicionais como os de fator de impacto (a quantidade média de vezes que um artigo de uma determinada revista é citado) para ponderar o valor da publicação em cada revista. Ainda para evitar imprecisões, o sistema restringe a comparação da avaliação apenas para um mesmo campo científico. O resultado é um sistema de pontos onde cada artigo é ponderado por um fator relativo à importância da revista. Gera-se assim uma pontuação que permite hierarquizar todos os cientistas de um campo científico de acordo com a sua “produtividade”: quanto mais artigos se publica em revistas importantes, mais produtivo se é. Essa pontuação fornece parâmetros objetivos para todas as necessidades de seleção do sistema de administração da ciência: a contratação, a promoção na carreira e a distribuição das verbas de pesquisa.

Embora evidentemente facilite a administração científica, ao baseá-la em indicadores, o sistema de avaliação científica econômico-gerencial tem pressupostos de duvidosa razoabilidade. Poucos cientistas considerariam razoável comparar e hierarquizar quantitativamente dois artigos sérios de pares de duas sub-áreas distintas – por exemplo, um artigo de sociologia da religião e um artigo de sociologia do trabalho. Que tipo de critério não arbitrário permitiria definir qual artigo é “melhor” e ainda por cima quantificar esse grau de superioridade qualitativa? Ao hierarquizar as revistas e conceder a elas pontos distintos, a avaliação faz justamente isso: diz que um artigo publicado na revista A é “1,7 vezes melhor” que um artigo publicado na revista B, independente do seu conteúdo. Diz também que uma pesquisa que gera quatro artigos é “duas vezes melhor” que uma pesquisa que gera apenas dois.

Uma vez explicitados os fundamentos lógicos do sistema de avaliação, eles parecem simplesmente absurdos.

Corrupção da comunicação científica

Ao publicizar as regras, o sistema de avaliação estimula os cientistas a competirem entre si para maximizar as chances de publicação nas melhores revistas, criando um mercado concorrencial. Em tese, esta competição levaria os melhores cientistas a terem seus papers mais frequentemente aceitos pelas melhores publicações. No entanto, o resultado é uma disputa por produção de indicadores e não pela qualidade dos artigos. Se forem atores racionais orientados para maximizar os seus interesses de serem contratados, subirem na carreira e aumentarem suas verbas de pesquisa, os cientistas não priorizarão fazer pesquisas de qualidade, mas gerar o maior número de papers com potencial de serem aceitos em revistas bem avaliadas.

É justamente o desacordo entre os dois objetivos que leva à corrupção do sistema de comunicação científica. Quando a ciência se orientava para a disputa por reputação, os cientistas se empenhavam em realizar pesquisas exemplares que impressionassem o julgamento qualitativo dos pares. Com o sistema de avaliação econômico-gerencial esse objetivo é subordinado ao de atender os indicadores de produtividade de pesquisa. Isso não apenas faz com um tempo excessivo seja dedicado às estratégias de publicação, como estimula e legitima práticas de comunicação corrompidas: publicar o mesmo argumento em artigos diferentes; apresentar uma mesma ideia em partes, publicadas em diferentes artigos; publicar ideias imaturas; co-assinar artigos nos quais a colaboração foi apenas pontual; etc.

Num sistema concorrencial com avaliação puramente quantitativa e regras publicizadas, o purismo de se abster destas práticas corrompidas é apenas moralismo antieconômico. Do ponto de vista sistêmico, o recurso às práticas corrompidas está disponível a todos – bons e maus cientistas – e cabe apenas aos bons se aproveitar mais das oportunidades do que os maus.

Mas esse ainda não é o problema principal. O conjunto do sistema de comunicação científica se desarticula com a disseminação destas práticas. Como o sistema premia o número de artigos publicados, o resultado é um inchaço do número de artigos que faz multiplicar a irrelevância, a repetição e a fragmentação. Torna-se assim cada vez mais difícil encontrar o artigo importante no meio do oceano de papers irrelevantes, redundantes e parciais que nunca deveriam ter sido publicados. Em muitas áreas consolidadas, a quantidade de artigos é tamanha que já não é mais possível fazer uma revisão bibliográfica completa. A situação chegou a um ponto tão crítico que um recente estudo encomendado por gestores de importantes universidades americanas comparou o processo a uma “corrida armamentista” e recomendou com urgência a adoção de políticas de “publicação responsável”.

Além da crítica negativa

A avaliação econômico-gerencial não consegue de maneira apropriada separar a boa da má pesquisa, é incapaz de hierarquizar os cientistas de um mesmo campo e submete os pesquisadores a um regime de produção acelerado e orientado para a publicação de artigos supérfluos. Ela coloca os cientistas na condição de operários e os gestores na condição de patrões impiedosos.

A comunidade científica, no entanto, tem muitas vezes resistido a essas investidas contra os seus valores e práticas tradicionais de uma maneira negativa. Isso permite que os gestores assumam a cômoda posição de dizer que o modelo econômico-gerencial é o único modelo de avaliação disponível e que os opositores a ele não dispõem de um paradigma que seja operacional. Com o crescimento do sistema universitário e o aumento da pressão social pelo controle dos gastos com a ciência há uma urgente necessidade de um modelo de avaliação que permita a supervisão pública e critérios de distribuição dos recursos.

Por isso, precisamos desenvolver um sistema de avaliação que esteja de acordo com os nossos valores: que seja democraticamente construído e acordado; que seja fundamentalmente qualitativo e realizado por pares; que avalie os ciclos de pesquisa, respeitando a sazonalidade da divulgação dos resultados; que compreenda o valor das diferentes modalidades de publicação (relatórios técnicos, livros, apresentações em congressos etc.); que tenha parâmetros internos às diferentes áreas; que compreenda as particularidades das novas áreas (que não têm departamentos e programas, nem revistas e congressos) e das áreas interdisciplinares (cujos resultados são apresentados e publicados em campos de pesquisa diferentes).

Reunir essas preocupações num sistema de avaliação viável não parece um objetivo inexequível. Se queremos sair da posição de operários obedientes precisamos abandonar a fábrica e construir uma alternativa a ela. Não é suficente reclamar do patrão ao final da jornada.

Fonte: gpopai

Referências:

Dardot, P.; Laval, C. Néolibéralisme et subjectivation capitaliste. Cités. v. 1, n. 41, 2010. p. 35-50.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Science, capitalism, and the rise of the ‘knowledge worker’: The changing structure of knowledge production in the United States. Theory and Society. v. 30, n. 4, 2001. p. 451-492.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Contradiction, Convergence, and the Knowledge Economy: The Co-Evolution of Academic and Commercial Biotechnology. Socio-Economic Review. v. 6, n. 2, 2008. p. 283-311.

Hartley, D.; Acord, S. K. Peer Review in Academic Promotion and Publishing: Its Meaning, Locus, and Future. Berkeley: Center for Studies in Higher Education, 2011.

 

 

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Prof. Miguel Chaia e a época da reprodutibilidade acadêmica

Vocês já devem ter ouvido falar do livro “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin. O texto mexe com o status da obra de arte, retirando-lhe o que Benjamin chamou de “aura”, ou seja, aquela característica que a torna única, a experiência da contemplação “aqui e agora”. Para além do artístico, o autor revela as consequências dessa revolução para os campos social e político.O que Benjamin chama em seu texto de “reprodutibilidade técnica” é, na verdade, a entrada do processo industrial na produção artística. A reprodutibilidade tira da obra de arte sua aura e com isso, eu diria, seu próprio status de obra de arte.

Em 2013 fiz vários posts falando sobre a exigência que nós, pesquisadores, temos de produzir, produzir e produzir. No IBERCOM, o prof. Miguel Vicente questionou se estávamos em condições de importar talentos, visto que o debate era que a academia americana seria preconceituosa com os trabalhos latinos. Já comentei que, aqui no Brasil, a exigência pela produção QUANTITATIVA é  mil vezes maior do que pela produção QUALITATIVA e isso explica muita coisa. Não estamos em pé de igualdade com os americanos porque temos que produzir qualquer coisa para ser publicada. Estamos apenas Reproduzindo. Não temos mais a aura.

Por que estou falando tudo isso? Porque ontem fui surpreendida com a notícia de que o professor Miguel Chaia ( não vou me ater em apresentações, um simples “google” fala por si) havia sido “descredenciado” da pós da PUC.  Na verdade, ele “pediu para sair” conforme vocês verão abaixo. Existem os critérios de avaliação de “produtividade” da CAPES, os quais expressam cada vez mais um processo de delinquência acadêmica. O processo, puramente quantitativista, produz resultados desastrosos. Acabou refletindo num dos maiores intelectuais brasileiros: o professor Miguel Chaia. 

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Abaixo, reproduzo a carta do professor ao Programa de Pós-graduação da PUC. O professor nem imagina que estou publicando. A carta, como vocês imaginam, rodou. E é emocionante. SEM MAIS.

São Paulo, 27 de outubro de 2014.

À Coordenação do PEPG em Ciências Sociais

O soco acadêmico me pegou de jeito, bem no fígado: rebaixamento a professor colaborador, eufemismo para descredenciamento. Experimentei o constrangimento de perder as credenciais num bom momento da carreira, sentir-se um convidado em sua própria casa.

Considero injusta a sentença lançada sobre as minhas atividades acadêmicas, emitida pela comissão de avaliação e pela coordenação do programa. Discordo do resultado e do processo que levou a esta sentença, mesmo que ele tenha se dado no interior de uma tendência atual nas universidades.

Além do mais acho omissa, burocrática e insensível a coordenação do programa, tão apegada ao exercício do pequeno poder que nem suspeita que dois mais dois são cinco. É preciso ter sabedoria e boa vontade para defender sim, simultaneamente, os interesses da instituição e de seus pares.

Acho injusta a sentença, pois no período da avaliação, produzi um dos melhores textos da minha trajetória – longo, denso e criativo – fruto de mais um ano de pesquisa meticulosa sobre arte e micropolítica. Ele foi publicado pela Editora Cosac Naify, que tem Prêmio Nobel em seu catálogo.

Acho injusta a condenação, porque no período em questão organizei um substancioso livro sobre cinema e política, do qual produzi um capítulo. Selecionei os textos, li, reli, tive dúvidas e após um bom tempo já está no prelo pela Editorial Azougue (RJ).

Acho injusta a sentença, pois nesta época toda, fui diretor da EDUC, fantástica editora universitária da PUC-SP. Nesta fábrica magnífica de pontuações para a CAPES, incentivei a publicação de dezenas de livros e revistas. Professores da casa e de outras universidades receberam, pela EDUC, inúmeras pontuações.

Acho injusta a condenação, pois no período em questão participei da diretoria da Bienal Internacional de São Paulo e de seu comitê curatorial que elegeu em suas edições o tema “Arte e Política”, sem remuneração, levando o nome da PUC-SP e do NEAMP para além dos muros da universidade.

Acho injusta a sentença porque participo como um dos pesquisadores principais do Projeto Temático/FAPESP “Lideranças Políticas no Brasil: características e questão institucional”.

Acho injusta a condenação, pois há três anos estou aperfeiçoando um longuíssimo texto sobre o Poder Político em William Shakespeare, a partir do seu aprendizado com Maquiavel. Só agora é que ele está quase pronto para ser encaminhado para eventual publicação. Para mim o processo intelectual é lento, gostosamente penoso, que exige reflexão demorada e uma íntima contemplação.

Critico a coordenação por não defender seus pares, por não dificultar a aplicação da pena, por deixar que professores sérios e históricos recebessem penas imerecidas.

A coordenação foi ineficiente ao aplicar a penalidade quando já estavam planejadas as atividades acadêmicas para o primeiro semestre de 2015.

A coordenação foi deselegante na forma como conduziu a comunicação da sentença aos professores.

Conclusão: por isso tudo inicio um processo para me desligar do PEPG em Ciências Sociais. Não tenho mais a mínima vontade de atuar junto ao programa. Ficarei apenas o tempo necessário para orientar os excelentes mestrandos, doutorandos e um pós-doutorando sob a minha responsabilidade.

Sou produtivo e escrevo muito, para o meu aprendizado e formação intelectual, para os meus interlocutores e, principalmente, para o meu prazer. Não gosto de ser medido por números rasos. Mesmo que eu já tenha construído um significativo espaço para contribuir com o desenvolvimento do programa, desde o início dos anos 90, agora não quero mais trabalhar nele. Simples assim, com certa leveza: bye, bye pós-graduação.

Miguel Chaia

 

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