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Tragédia e política

Nada como voltar das férias e dar de cara com esse texto do professor Miguel Chaia, na Revista Cult

prof Miguel Chaia. / Fonte: pucps.br

prof Miguel Chaia. / Fonte: pucps.br

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Em suas peças, William Shakespeare produziu formas de saber e de conhecimento, brotadas da arte, e que permitem estruturar um pensamento político sofisticado e muito bem sistematizado. Esse pensamento político em Shakespeare, com forte acento teórico, articula-se em torno dos seguintes conceitos: relações instáveis de poder; movimento autônomo do núcleo central do poder; insistência dos homens em tomar o governo; mútuas referências entre ações dos políticos e a presença de cidadãos/povo nas ruas; defesa da legitimidade; e os impactos negativos que o poder exorbitante exerce sobre os diferentes sujeitos – levando a sofrimentos ou até mesmo à morte tanto os indivíduos que circulam em torno do poder (Macbeth, por exemplo) quanto as pessoas que vivem nos locais externos ao poder (a fome da população de Roma em Coriolano ou mesmo o impedimento do amor entre jovens em Romeu e Julieta). Assim, Shakespeare filia-se a uma tendência analítica dada pela “política como tragédia”, por supor a permanência dos conflitos na vida no âmbito do poder e nas relações entre governo e dominados. Portanto, Shakespeare entende a política como esfera de crises e estabilidades que se sucedem indefinidamente, jogando os homens em períodos de legitimidade e usurpação, em épocas de harmonia e de violência e em períodos de guerra e paz.

Para o dramaturgo, a política é prática de seres humanos no embate com o poder e com outros homens, ações estas que acontecem sem que se tenha controle ou previsibilidade dos seus resultados. Os desejos humanos de se direcionarem ao poder deverão encontrar regras próprias da política que colocam em risco a sanidade, o corpo e o destino do governante ou do ser político.

A dimensão teórica decantada pelas peças do dramaturgo resulta do seu singular processo de trabalho, uma vez que cada peça nasce não apenas de seu talento, sensibilidade e genialidade, mas também de um processo árduo de trabalho intelectual que envolve pesquisas das publicações filosóficas do seu tempo (Shakespeare leu e citou várias vezes Maquiavel, La Boétie, Montaigne e outros), estudo da história (vejam-se as ricas peças históricas, como as séries “Henrique” e “Ricardo”), competições intelectuais entre os autores da sua geração e da anterior, contatos com as universidades inglesas, as contribuições dos seus atores nas diversas edições de cada peça (as colaborações de parceiros aprimoravam as peças) e, inclusive, o aprendizado com a maçonaria e com mitologias que circulavam em seu tempo. Shakespeare foi um estudioso e pesquisador atento do seu tempo, da história e dos desatinos do ser humano. O teatro de Shakespeare, pode-se dizer, é uma encenação de uma perspectiva de homem e de mundo, baseada numa teoria filosófica.

Neste sentido, uma vez destacada não apenas a potência da arte como forma de conhecimento, mas também o pensamento político sistematizado engendrado por Shakespeare, o que foi problematizado e escrito para a Roma de Júlio César pode ser desdobrado para situações da contemporaneidade. Enfatizando o fato de que os escritos de Shakespeare permitem várias entradas analíticas, uma vez que a força de seu legado encontra-se nas metáforas criadas por esse dramaturgo.

Júlio César (1599) faz parte da trilogia romana juntamente com Antônio e Cleópatra (1606) e Coriolano (1607), na qual o autor analisa as movimentações em torno do poder, focando tanto a disputa, as tentativas de tomada e manutenção do poder quanto a relação dos homens políticos com formas de resistência e pressão advindas do povo, dos cidadãos. Na primeira e na terceira peças citadas, o povo é personagem nuclear e constitui-se em uma força política com potencial de rebelar-se ou ser manipulado. Em Coriolano, o povo faminto desequilibra relações de poder, possui direitos consagrados e chega a derrubar e enviar para o exílio o seu governante. Em Júlio César, Marco Antônio, representante das ideias jovens de Roma da época, astuto, sedutor e convincente, incita e manipula a multidão com a força das palavras e das ideias. No discurso diante do cadáver de César, o futuro participante do triunvirato imperial, juntamente com Otávio e Lépido, Marco Antônio, com a eloquência de um grande orador, leva a multidão ao arrebatamento, colocando-a contra os jovens insurgentes republicanos Brutus, Cássio e Casca. (Vale destacar que, em Antônio e Cleópatra, a resistência ou oposição a Roma vem de reino periférico ao Império, o Egito, e sua rainha).

O ator Caco Cioler

Como nas ruas do Brasil após as jornadas de junho de 2013, a multidão de Roma após a morte de César está em busca de um “nome”, como fala Cássio: “… Há ocasiões em que os homens são senhores dos seus destinos; se nós somos subalternos, o erro, caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós próprios. Brutus e César! Que há neste César? Por que é que este nome há de soar melhor do que o teu?… Em nome de todos os deuses, de que substância se alimenta o nosso César, para se tornar tão grande!”. Shakespeare permite não apenas pensar na possibilidade de revolução (veja-se, ainda, sobre essa possibilidade a peça A tempestade), mas, também, na inconstância ou permanente procura das massas por um “nome” a ser seguido. A situação política brasileira, com dificuldades de acomodar as exigências do povo, torna-se mais grave ainda com a polarização entre os dois partidos políticos expressivos resultante da divisão do eleitorado na votação presidencial. As diferentes posições contra e a favor da presidente Dilma Rousseff vêm criando divisões radicais no país, sem que haja a previsibilidade de uma acomodação entre as forças em jogo na atual conjuntura política do Brasil. Ou estaria o povo, tragicamente, servindo de massa de manobra à disposição de habilidosos retóricos?  Ou estariam surgindo várias e novas lideranças políticas com potencial de rearranjar as relações políticas do país?

As relações entre governantes e cidadãos são sempre tensas e sujeitas às interferências de crises ou de políticos com capacidade de desestabilização. Mesmo o governante eleito pelo voto popular, aquele com legitimidade política, pode gradativamente se desgastar, exigindo a reposição de um nome. A queda nas pesquisas de popularidade confirmando a rejeição do governo Dilma Rousseff, considerando ruim ou péssimo o seu governo, abre o flanco para a imprensa propagar a proposta de impeachment – pode-se pensar o discurso convincente de Marco Antônio, sendo feito, nos dias de hoje, pela mídia, com forte poder de sedução e convencimento próprios da imprensa escrita e da televisão. 

Convém não esquecer que a Roma de César assassinado, aquele que deve morrer, é um cenário de crise, de perspectiva de mudanças de regime e de desejos de mudanças sociais, econômicas e políticas. Assim como o pedido de impeachment da atual presidenta pode ser visto na metáfora de “César deve morrer”. Os confrontos entre duas forças de Roma – dos jovens republicanos conspiradores e da aspiração ou possibilidade de retorno ao regime tirânico – são também expressões de outros confrontos polarizados que se colocam constantemente nas políticas de Estados e nações. Pode-se pensar que as exacerbações das posições de direita no Brasil e o enfraquecimento da esquerda sejam dinâmicas de um povo em movimentação. E, mais ainda, essas exacerbações podem ter origem nos erros dos políticos dirigentes do atual governo em suas diferentes gestões. Afinal, como diz Cássio, o erro não está nas estrelas, mas advém dos próprios governantes que conduziram a essa situação da procura de um novo nome para ser seguido pela multidão. A política como prática é tarefa de pessoas, de seres humanos e não de deuses, como diz Cássio sobre César: “Em Espanha teve febre; quando estava com o acesso notei como ele tremia; é a verdade, este deus tremia! Os lábios covardes descoraram-se, e os olhos que fazem tremer o mundo, perderam o brilho”. Os grandes governantes podem cair do céu ao inferno, no intenso e inesperado processo político. Basta se perguntar hoje sobre o significado de homens públicos brasileiros que contavam com grande aprovação da população. Na política vai-se rapidamente de herói a vilão. A anunciada morte, enquanto desgaste, do lulismo marca dois períodos distintos na história do Brasil – aquele da aglutinação nacional e do sentimento de avanço social econômico e, agora, recentemente, a dispersão e a emergência radical da direita no país. Ou seja, não se trata da morte física de César, mas da morte política, sempre possível nas circunstancias da luta pelo poder. E, principalmente, sempre uma possibilidade quando o povo se torna um protagonista com o potencial de influir nessas relações.

Na peça Júlio César, os movimentos dos cidadãos – de apoio ou de oposição – acontecem primeiro em direção a César, depois a favor de Brutus, contra Brutus e Cássio, a favor de Marco Antônio – personagem este que incita a multidão com o seu discurso potente politicamente. Pela voz de um cidadão pedem-se explicações sobre a morte de César (“Queremos que nos deem explicações”). Sobre Brutus, após seu discurso, dizem os cidadãos: “Viva Brutus!, Levemo-lo em triunfo até sua casa. Que seja César”; Brutus leva os cidadãos a crerem que César era um tirano. A seguir, o discurso de Marco Antônio conduz os cidadãos a acreditarem que César não era ambicioso e que em Roma “não há outro homem mais nobre do que Antônio”.

Os atores Caco Cioler e Carlo Dalla Vecchia em cena de Caesar - Como construir um império (Foto: Bob Sousa)

A multidão tanto pode mudar de rumo, deixando-se guiar de um líder a outro, quanto ocupar as ruas clamando contra os “Traidores! Ó celerados!”, gritando pela revolta ou se propondo a queimar as casas dos políticos (“Queimaremos a casa de Brutus!”) e, ainda, buscando estratégias radicais – como em algumas recentes manifestações de rua no Brasil: “Vamos buscar o lume! Despedacemos os bancos!… Quebremos as cadeiras, as janelas, tudo!”. Devido a esse potencial da presença do povo, alguns políticos brasileiros conclamam para que as suas militâncias saiam às ruas (ou, ainda, os trabalhadores ou a classe média), como forma de pressão política e expressão da força de um partido. Enfim, as ruas de Roma, como as ruas do Brasil, constituem um cenário relevante de lutas e de manifestações políticas.

Num primeiro momento, Roma (talvez o Brasil) está à beira de uma convulsão política ou próxima de um colapso com a morte de César, com o desaparecimento ou esvaziamento de uma liderança política legítima aceita temporariamente pelo povo – nessa Roma com a vacância do poder, Marco Antônio consegue redirecionar a mobilização da multidão iniciada por Brutus. No Brasil, agora, alguns políticos se apresentam tentando repetir a proeza de Marco Antônio: os presidentes das casas legislativas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros e o senador Aécio Neves – mesmo porque os políticos éticos como Brutus fracassaram (como Brutus fracassou), em tentar propor uma saída à morte do governo brasileiro, ou no caso de Roma, uma saída à morte de César.

Além de tratar das relações entre governo e povo, em Júlio César, Shakespeare aborda a movimentação política que ocorre no interior da esfera do poder indicando como nela trafegam mecanismos de traições – a política é um jogo de relações surpreendentes, no qual o elemento novo teima em emergir constante e inesperadamente. Nessa direção, a metáfora construída por Shakespeare aponta para a série de traições que ocorrem atualmente na base partidária da presidente Dilma Rousseff. Convém lembrar que a corrupção é um elemento a mais da desestabilização governamental. A coligação partidária vem se desfazendo, sem controle por parte do governo, levando políticos a assumirem a ruptura e a oposição como práticas corriqueiras. Quando duas forças se empenham na mútua negação, como é o caso do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), emerge um terceiro nome, como foi o de Marco Antônio, na figura do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Para Shakespeare, uma conjuntura política ou uma rebelião sempre propiciam um desdobramento inesperado, não permitindo o cálculo efetivo do seu desfecho. Brutus e Cássio não calcularam a emergência de Marco Antônio. Dilma Rousseff e sua equipe menosprezaram as possibilidades da vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados.

Outra grande pista que Júlio César faz reviver no presente é aquela referente à permanência das lideranças políticas – para Shakespeare, a política é uma atividade exercida por um sujeito, mesmo que se defronte com mecanismos alheios aos desejos humanos. Dessa forma, a política se apresenta enquanto vitalidade para a ação no lugar público a ser gasta por pessoas com capacidade para executar projetos legítimos, que desejem exercer o mando a qualquer custo ou queiram direcionar cidadãos. Tanto suas peças históricas quanto as tragédias indicam a prática política como visualizada ou sintetizada nas pessoas dos governantes ou de políticos das diferentes esferas do poder. Esse líder deve ter a capacidade de articular as forças internas à esfera do poder e, também, saber manobrar as relações com o povo. Melhor ter sucesso em ambas as esferas, mas, quando se tem sucesso em uma das pontas, o mando pode continuar. Entretanto, é impossível a continuidade de governo sem o mínimo controle dos conflitos internos e sem o gozo da boa imagem junto à multidão.

O ator Caco Cioler

A figura do governante – o corpo do rei – e a presença da pessoa, mesmo que virtual, do político ainda são o fundamento das relações políticas. Daí que se acompanha a política seja pela agressão física a César, seja pela apresentação de Brutus/Cássio na cena, isto é, pelo apelo sedutor de Marco Antônio – o mesmo que dizer que a política brasileira só pode ser compreendida ou acompanhada pelas trajetórias e ideias, pelo sucesso ou decadência, de líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva, Eduardo Campos e outros. 

Assim, para Shakespeare, está sempre aberta a possibilidade da boa política voltada ao bem comum, expressa por um nobre homem. Porém, a própria vitória de Marco Antônio é um sinal da dificuldade dessa expectativa, uma vez que, ao final da peça, Antônio manifesta sua opinião sobre o ético Brutus, perdedor na luta pelo poder: “Dentre todos os nobres romanos, este era o mais nobre. Todos os conspiradores se revoltaram contra o grande César por inveja, exceto Brutus. Só ele, ao juntar-se com os outros, obedeceu a um honesto pensamento e ao bem comum… Aqui está um homem”.

Em Shakespeare, a política, ainda que tenha uma faceta ligada às regras autônomas do poder, também envolve vida e morte, jogando os governantes e as populações numa esfera trágica que se caracteriza por constantes crises e tensões que não permitem saber o ponto de chegada. As peças de Shakespeare, e Júlio César é um excelente exemplo, levam a entender a política como tragédia, pois mesmo que necessária, mesmo que conduzida muitas vezes por bons homens, trata-se de uma esfera da sociedade que pode sacrificar corpos, levar as ideias a sucumbir e trair as boas intenções – sempre de forma inesperada e surpreendente.

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