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Golpe de 64 e a crise de 2015: o que pensam os intelectuais brasileiros?

Está disponível na Amazon o meu trabalho e da Vivian Paixão sobre o Golpe de 1964 e a crise que culminou com o impeachment da presidente Dilma.

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Selecionamos os principais nomes de 64, os pensadores de 2015, e percebemos que a maioria ainda estava na ativa. Foi então que resolvemos tentar contato com esses pensadores. E, foi aí que contamos com uma rede de amigos que não podemos deixar de mencionar: Moacyr Lopes Junior, fotógrafo da Folha de S. Paulo, Rosane de Oliveira, editora de política do jornal Zero Hora, Maristela Unfer, editora da Sulina, Luciano Martins, jornalista e Carina Fernandes, professora da prefeitura de São Paulo. Sem essas pessoas, esse trabalho não teria passado de meros devaneios.

Fomos duas vezes ao Rio de Janeiro. Uma para entrevistar Carlos Heitor Cony, outra para entrevistar Ferreira Gullar. Fomos a Porto Alegre para conversar com Juremir Machado da Silva, autor do Golpe Civil Midiático Militar. Conversamos pelo Skype com Alberto Dines e fomos ao encontro do Frei Betto em São Paulo.

Foi um período de intensa pesquisa, de descobertas e muita empolgação. Mergulhamos nesse trabalho. O livro está no formato das entrevistas. Achamos que seria melhor preservarmos cada palavra. Não temos nenhuma pretensão fantástica com esse trabalho. Queremos, sim, contribuir para as pesquisas sobre o golpe de 64 e sobre a crise de 2015, que desencadeou no impeachment de uma presidente. Acreditamos que nossas conversas podem ajudar interessados e pesquisadores a entender quem são os intelectuais que pensam as crises brasileiras.

 

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Partidos brasileiros fingem não estar entendendo

Professor Juremir Machado da Silva*

A política brasileira tornou-se um esgoto a céu aberto. A credibilidade dos partidos esconde-se em camadas mais profundas que o petróleo do Pré-Sal. A população não crê nos partidos, tende a vê-los como associações de amigos em defesa de interesses próprios ou, nos casos mais extremados, como quadrilhas destinadas a saquear os cofres públicos.

Diante dessa situação assustadora, os partidos não estão entendendo nada do que ocorre ou, o que é bem deles, fingem que não estão entendendo para tirar proveito da crise. Malandro que é malandro tenta ganhar até quando toma goleada.

Na televisão, partidos confessam que o atual modelo de financiamento de campanha os torna corruptos. Admitem que empresas exigem retribuição para dar-lhes dinheiro. Por que não resistem? Por que não as denunciam? Por que entram no jogo?

Porque são eles que propõem o jogo do toma-lá-dá-cá.

Candidamente os partidos posam de vítimas do sistema que inventaram.

Por que não aplicam o mesmo esquema interpretativo à questão da maioridade penal, que muito deles desejam diminuir para 16 anos? Se um partido se corrompe por força do sistema vigente, um jovem não vai ao crime forçado pelas condições atuais?

Os partidos estão sofismando. Contra o mal que encarnam, propõem um remédio venenoso: mais poder.

Em vez de votar em pessoas, votaríamos em partidos.

O dinheiro não seria doado a candidatos, mas aos partidos.

Vários caciques defendem voto em lista fechada para fortalecer os partidos.

Dado que eles fazem tudo errado, o remédio seria dar-lhes os votos e o dinheiro para cuidar.

Democracia de partidos é coisa do século XIX.

Os caciques partem do pressuposto de que fortalecer partidos é um valor em si. Por quê?

Voto em lista fechada favorece o caciquismo, a cartolagem política. É uma fórmula que permite a um político, especialmente um dono de partido, se eleger sem votos e sem dinheiro. Pode ir na carona se outros. Se o eleitor quer votar em Fulano, presente na lista, precisa comprar o pacote inteiro. É o paraíso dos caciques. A renovação desaparece.

No atual sistema proporcional, a fórmula permite que o menos votado seja eleito no lugar do mais votado. É o voto na cesta partidária. Os candidatos de uma sigla buscam votos para a cesta comum. Quem faz muito acaba repassando para quem fez menos. Um candidato que faça muito, mas cujo partido não atinja o quociente eleitoral, não entra, perdendo, muitas vezes, para adversários que fizeram menos, mas concorreram por uma cesta mais competitiva e com alguém campeão de voto.

O vice-presidente Michel Temer propõe o distritão. Cada Estado é um distrito. Os mais votados se elegem. Acabou.

A ideia é simples e obedece a um critério incontestável: no voto, quem faz mais deve ganhar.

O resto é formulismo.

O PT diz que essa fórmula vai criar uma infinidade de partidos.

Parte do PMDB garante que isso vai favorecer o poder econômico.

Essas afirmações não convencem.

Atualmente o Estado já é um distritão onde todos buscam votos. Por racionalidade, quem é forte num reduto – por exemplo, o Vale dos Sinos – não perde tempo e dinheiro buscando  votos em Dom Pedrito. Manuela foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa pelo PCdoB, um partido pequeno. Luciana Genro, em 2010, pelo minúsculo e pobre PSOl, fez 130 votos. No distritão, teria entrado. Moral da história: candidatos competitivos e com bala na agulha podem se dar bem no distritão mesmo que não sejam os mais ricos ou que se concentrem numa determinada zona com bom potencial de votos.

O grande defeito do distritão é a possibilidade de desperdício de votos: um candidato fazer tantos votos a ponto de impedir a eleição dos seus companheiros de partido. Não há repasse do excedente. Se numa eleição alguém se elege com 300 mil votos, fazer três milhões é inútil. Um partido poderia com menos votos, mas mais bem distribuídos, nove candidatos com 300 mil votos cada, elegeria mais gente com menos votos no total. Esse defeito pode se tornar uma qualidade: desestimular as celebridades puxadoras de votos e favorecer bons candidatos bem implantados em seus redutos e sem os fogos falsos da visibilidade de ocasião.

Nas democracias atuais, o voto em pessoas é muito legítimo. A política articula pessoas e partidos. Os partidos devem ser molduras – estruturas mínimas de referência de ideias e projetos, não referências máximas. Nada há de errado em valorizar pessoas que sejam sérias, tenham boas ideias e se encontrem num partido associadas a outras pessoas com ideias semelhantes.

Uma contradição está na praça. Diante dos crimes, os partidos alegam que pessoas os cometeram. Nesse sentido, o partido nunca poderia ser responsabilizado. Se não pode ser responsabilizado negativamente, não pode ser positivamente.

Um partido é feito de pessoas. Mas elas não podem, num partido, professor ideias opostas às do conjunto. Mas podem defender as ideias do conjunto com tanto brilho quem atraiam mais votos para o partido. Mesmo nas listas fechadas, algumas pessoas são o carro-chefe da captação de votos, salvo para eleitores altamente ideologizados ou com uma concepção de política centrada na figura do partido. Numa democracia complexa atual, o eleito para a presidência da República deixa de representar as cores do partido para assumir as cores da Nação. Ao ser eleito, deixa a parte para assumir o todo.

O problema do Brasil está menos na forma de escolher os representantes e mais no financiamento de campanha: como não existe almoço grátis, empresa que paga a conta pede sobremesa ou muito mais. Só o Butão tem financiamento público total.

O mais equilibrado é financiamento público associado com financiamento de pessoas física com teto fixado.

O atual sistema com coligações nas eleições deputados e vereadores é mutreta que permite a eleição de quem fez menos votos do que outros e dribla o quociente eleitoral, o número mínimo de votos para um partido ter eleitos.

Enfim, é uma zona.

Entregar o galinheiro para a raposa não parece uma boa ideia.

Partidos só devem ter acesso ao fundo partidário público se alcançarem determinado número de votos.

* Publicado no site do jornal Correio do Povo

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A Sociedade Midíocre

A Sociedade Midíocre – ed. Sulina

Eu adoro Guy Debord.  Adoro as observações dele sobre A Sociedade do Espetáculo. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.” E, adoro as conversas do professor Juremir Machado da Silva sobre essa sociedade, sobre Guy Debord e: “O espetáculo era a representação do imaginário moderno. Algo designado para ser superado. O hiperespetáculo é um imaginário sem representação. Imagem nua. Deliciosamente obscena.”

Então, encomendei o livro A Sociedade Midíocre- passagem ao hiperespetacular (o fim do direito autoral do livro e da escrita). O professor se propõe a, de novo, faze rum diálogo com as ideias de Guy Debord. Juremir diz: “Não há nada complexo pra entender na internet sobre direito autoral, salvo que, podendo copiar sem controle, não se quer pagar.” É aguardar. O livro “comentários sobre a Sociedade do Espetáculo” foi um dos que mais gostei de ler. Espero que esse seja tão bom quanto. De sobra, ainda pedi Tecnologias do Imaginário (perdi o meu, que coisa!) e O que pesquisar quer dizer.

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso. Guy Debord.

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