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Debord e o hiperespetáculo

Apesar dos autores de minha tese morarem muito distante do condado maravilhoso onde habita Debord (acredito que minha tese reside em Mordor), de umas semanas para cá, tenho me deparado com frequência com escritas debordianas. E, some-se a isso as aulas do professor Juremir Machado da Silva, resolvi reler Guy Debord: antes e depois do espetáculo, organizado pelo próprio Juremir e pela professora Cristiane Freitas Gutfreind.

Tinha esquecido da frase impactante (como não poderia deixar de ser) do professor:  “Guy Debord é o homem do século. Passado”. (p. 37). Numa primeira impressão, para uma apaixonada por Debord como eu, essa frase quase mata. Mas aí o texto desenrola com, me desculpem a empolgação, a maestria que só o professor Juremir tem:  não  vivemos mais na era do espetáculo, mas do hiperespetáculo. O espetáculo era marcado por uma contemplação passiva por parte do indivíduo, do espectador, com relação às imagens midiáticas. Essa contemplação teria como objeto um outro distante, idealizado, “superior” – inalcançável. Seria, portanto, um estágio de manipulação, de “servidão voluntária”. Já no hiperespetáculo, segundo o autor, a contemplação continua. Mas é, agora, uma contemplação de si mesmo em um outro, em princípio, plenamente alcançável, semelhante ou igual ao contemplador.

Entendo que, para os autores do livro, o espetáculo é o mundo transformado em economia. Dessa premissa, Tonin (2007), também compartilha.

 

Na sociedade do espetáculo, o sujeito trabalha para ser merecedor de férias, de poder, de consumo. São instâncias apresentadas como subprodutos, finalidades do próprio trabalho, instâncias consumíveis, amplamente vendidas como de possível acesso por todos. E, o que é mais radical, como se o indivíduo fosse capaz de encontrar a felicidade nelas. Para Debord, nada escapa à lógica espetacular do consumo. O espetáculo é o supermercado onde se compram rotinas, valores, lugares, prazeres que perambulam entre produtos multifacetados. (TONIN, 2007, p.51).

Juremir afirma que “[…] em que todos devem ter direito ao sucesso, os famosos simulam uma superioridade fictícia. São tanto mais adorados quanto menos se diferenciam realmente de seus fãs” (SILVA, 2007, p.31).

Ainda segundo este autor (2007, p.31), se o hiperespetáculo não é a eliminação do espetáculo, mas sua aceleração “[…] plasmada no bandido que sorri para a câmera antes de atirar, ou no aumento dos rendimentos da Ciccareli depois de ser filmada, puxando o biquíni para receber, em uma praia espanhola, ‘o doce veneno do escorpião’”, o que dizer da recente aparição de Lady Gaga na cerimônia do Video Music Awards (VMA) usando um vestido feito de carne, cuja estética já virou tendência em Nova York? Trata-se de uma imagem que procura satisfazer quais necessidades humanas?

Em tempos de pós-modernidade ou sociedade “medíocre”, em que o espetáculo, segundo Chaui, converte-se em simulacro e o simulacro se põe como entretenimento; os velhos e novos “trajes”, o sofrimento dos humanos e dos animais, as catástrofes naturais, a política, as festas, guerras, cerimônias religiosas, tudo se converte, por intermédio das velhas e novas mídias em (hiper)espetáculo, em entretenimento e “deserção do real”.

Referências

SILVA, Andréa Tubero.Resenha da obra: GUTFREIND, Cristiane Freitas; SILVA, Juremir Machado da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. 172 p.

TONIN, J. A imagem em Guy Debord. In: GUTFREIND, C. F.; SILVA, J. M. da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p.46-60.

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O 'novo' Iphone

Filas que duram dias para a compra de um novo aparelho celular.  Dois milhões de encomendas na atualização de um aparelho. Observação: não é uma novidade completa, como a primeira venda de um tablet, algo que até então o mercado não conhecia. Mas uma atualização de um sistema que já existe. O consumo é tão exagerado (e impressionante) que o novo Iphone pode acrescentar entre 0,25 e 0,50 ponto percentual no crescimento do PIB dos Estados Unidos. Calculado utilizando o chamado método de controle de varejo, as vendas do iPhone podem impulsionar o crescimento anualizado do PIB em 3,2 bilhões de dólares, ou 12,8 bilhões de dólares a uma taxa anual.

Christopher Lasch lembra bem que as mercadorias são produzidas para o consumo imediato. O seu valor não assenta em sua utilidade ou permanência,mas em sua negociabilidadade. Jean Baudrillard fala de uma crença exacerbada na publicidade e não no produto. Publicidade com discurso ideológico e conotativo. Ideológico porque não se assume como tal, conotativo porque é a publicidade do espetáculo, da sedução e da sugestão. Que só fortalece o eu narcisista de Lasch.  Gilles Lipovetsky menciona a sociedade do hiperconsumo. Nessa linha, Juremir Machado da Silva fala do hiperespetáculo: “O hiperespetáculo é um imaginário sem representação. Imagem nua. Deliciosamente obscena.”

Lasch chama a atenção para uma crescente dependência frente à tecnologia, que deu origem à impotência e vitimzação. O eu mínimo ou narcisista é, antes de tudo, um eu inseguro de seus próprios limites, que ora almeja reconstruir o mundo à sua própria imagem, ora anseia fundir-se em seu ambiente numa extasiada união. Por que precisaríamos de um novo Iphone? O “antigo” não funciona mais? Não. O objeto perdeu sua função primeira. O espaço de relações em que os objetos ultrapassam sua função, ou seja, deixam de ser objetos-função e alcançam uma nova ordem prática de organização.  Não é mais o aparelho por si só. É seu status, o que ele representa e o que eles diz que representa. Mas, ficar na fila por dias em função desse desejo ‘vazio’ é algo que nem Baudrillard esperava ver.

Obs.: sou muito mais o Galaxy SIII.

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