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A Guerra Santa nas eleições municipais de 2012

Esse artigo foi muito legal de escrever. Foi ele que eu apresentei no IBERCOM, ano passado, em Santiago de Compostela. E, ele foi publicado na e-Com, revista de Belo Horizonte. Espero que gostem.

Resumo:

O presente artigo busca analisar como a religião tornou-se o centro do debate político nas eleições municipais para prefeitura de São Paulo em 2012. Antes restrita à peregrinação de candidatos, nessa disputa formou-se uma verdadeira “Guerra Santa” atrás do apoio de líderes religiosos. Buscamos entender como o tema antes restrito à esfera privada tornou-se um dos principais assuntos da mídia. Para tanto, seguiremos a partir do conceito de esfera pública proposto por Jürgen Habermas na tentativa de entender o reflexo entre o sagrado e o político na busca pelo poder. Como análise, utilizamos o caderno Eleições da Folha de São Paulo no período de 1° de setembro a 1° de novembro de 2012.

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Guerra Santa nas eleições de SP 2012

Nas eleições municipais para prefeitura de São Paulo, no ano de 2012, a religião roubou a cena do debate político. Se antes o tema era restrito à peregrinação de candidatos em busca de apoio dos fieis, de qualquer que fosse a religião, nessa disputa verificou-se uma espetacularização do assunto. Mais do que apoio, os candidatos buscaram negociações diretas e declarações formais às suas candidaturas. Também não faltaram ânimos acirrados. A ascenção do candidato do PRB Celso Russomanno, cujo partido é diretamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), apimentou ainda mais a disputa.

Some-se a isso a liderança nas intenções de voto de Russomanno durante todo o primeiro turno da disputa em São Paulo. Em pesquisa Datafolha divulgada no final de agosto, Russomanno já apareceu com 31% das intenções de voto, contra 22% de José Serra (PSDB) e 14% de Fernando Haddad (PT). Esses números transformaram a polarização paulistana PT vs. PSDB em Russomanno vs. Serra/Haddad. Russomanno passou a ser apresentado como “o” candidato da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), com compromissos com esse grupo. Unido ao apoio de uma grande corrente evangélica o crescimento do candidato do PRB foi diretamente associado à sua escalada nas pesquisas.

Sua ligação com a Universal proporcionou uma espetacularização do tema religioso. O candidato foi constantemente questionado sobre o assunto, em algumas ocasiões mostrando irritação. Por diversas ocasiões o candidato do PRB tentou desvincular sua figura e de seu partido da Igreja Universal.

Há de se ressaltar um cenário complexo em torno do debate da religião no cenário político de São Paulo. A força política da IURD, que estabeleceu metas políticas claras no cenário brasileiro, fazendo até mesmo com que a Igreja Católica entrasse na “guerra,” demonstra uma midiatização do cenário que até então era relegada à segundo plano.  Nesse contexto, parece que um dos fundamentos da democracia moderna, a separação entre a Igreja e o Estado e a garantia de que o exercício da cidadania política independe das crenças religiosas de cada um, foi esquecido. Em contrapartida, o Estado deveria garantir a imparcialidade no trato com as diferentes Igrejas e a liberdade religiosa. Porém, como bem explicam Gianpetro Mazzoleni e Winfried Schulz (1999) vivemos na era do remix, onde todas as áreas da vida em sociedade se misturam. A política deixou de ser feita somente por políticos e passou a ser uma atividade que se faz em espaços institucionais. A religião passou a fazer parte do sistema político ajustando-se às demandas dos meios de comunicação.

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