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Lance Armstrong X Oscar Pistorius

Toda foto é recebida não só pelos olhos, pela razão e pela consciência, mas também pela imaginação e pelo inconsciente. É por isso que a foto informativa (de jornal, por exemplo) é sempre interpretada; é por isso que a foto doméstica tem várias recepções; é por isso que a publicidade usa a fotografia; é por isso que a arte encontra obrigatoriamente a fotografia. (SOULAGES, 2010: 259-260)

Isso não é normal.

Photo/ Chris Collindridge

Photo/ Chris Collindridge

Isto é Pistorius:

Fonte: BBC

Fonte: BBC

Boris Kossoy afirma que os receptores já trazem em si suas próprias imagens mentais preconcebidas acerca de determinados assuntos. Estas imagens mentais funcionam como filtros: ideológicos, culturais, morais e éticos . Esses filtros, todos nós os temos, sendo que para cada receptor, individualmente, os mencionados componentes interagem entre si, atuando com maior ou menor intensidade. Para quem gosta de esporte, e mais ainda, para quem era um admirador do corredor Oscar Pistorius, essas imagens do atleta entrando no tribunal não fazem sentido. Não estão no código cultural e ético. A segunda imagem, de um Pistorius heroi, é a estabelecida.

No caso do ciclista Lance Armstrong, a imagem mais oposta ao seu passado de sete vezes campeão do Tour de France foram as imagens de sua entrevista para a apresentadora americana Oprah Winfrey. Não houve imagem de tribunais, prisões ou policiais. Já Pistorius, nessa imagem de Chris Collindridge, não tem nada de Pistorius. É um homem, normal, com as duas pernas, um capuz escondendo o rosto, SE escondendo. Não há o campeão paraolímpico ali. Não há nada de super-humano. A foto faz pensar. Pistorius acabou? Susie Linfield afirma que toda imagem de sofrimento não diz somente “isso é”, mas também implica em “isto não deve ser”, ou “isto está acontecendo” e que, irremediavelmente deve fazer pensar.

Soulages esclarece que uma foto pode ter efeitos que as palavras não terão e que poderão, frequentemente, de abalar o receptor. Lewis Hine, repórter crítico da miséria social, declarava: “Se eu pudesse contar a história com palavras, não teria por que carregar uma máquina fotográfica”. Talvez, por isso, e numa breve análise, e seguindo a linha de Linfield, obrigatoriamente nos levando a pensar e repensar o passado, a imagem de Pistorius, infelizmente, corre o risco de ficar arranhada para sempre. Há ainda uma sobrevida à Lance Armstrong.

Referências

KOSSOY, Boris. Os Tempos da Fotografia. 2. ed. Cotia, SP : Ateliê Editorial, 2007.

…………………….. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. 4.ed. Cotia, SP: Ateliê.

LINFIELD, Susie. The Cruel Radiance.  University of Chicago Press , Chicago, USA,2010.

SOULAGES, François. Estética da Fotografia. São Paulo, Editora Senac, 2010.

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Por quê?

Queria escrever aqui com mais calma, mas essa semana está impossível. Tenho que terminar alguns livros, dentre eles, Estética da Fotografia- perda e permanência, de François Soulages. Vou transcrever apenas um trecho da página 26, que desconstroi uma das afirmações mais clássicas de Barthes:

A doutrina do ‘isto existiu’ de Barthes  parece mitológica. Talvez fosse necessário substituí-la por um ‘isto foi encenado’ que nos permitisse esclarecer melhor a natureza da fotografia. Diante de uma foto, só podemos dizer: ‘ isto foi encenado’, afirmando, dessa maneira, que a cena foi encenada e representada diante da máquina e do fotógrafo; que não é o reflexo nem a prova do real; o sito se deixou enganar: nós fomos enganados. Ao termos uma necessidade tão grande de acreditar, caímos na ilusão: a ilusão de que havia uma prova graças à fotografia…

A minha pergunta é: Por que eu tive que ler Le chaimbre claire se todo o mundo resolveu agora desconstruir Barthes na fotografia??? Gah!

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