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Se existisse uma representação exata, eu não fotografaria. Claude Maillard, Sur l’imphotographiable

‘Onde a escrita é impotente para captar, na verdade e na variedade de seus aspectos, os monumentos e as paisagens; onde o lápis é fantasia e divagador, alterando a pureza dos textos, a fotografia é inflexível”.(ROUILLÉ, 2009, p. 49-50)

(Foto: REUTERS/Jalal Al-Mamo)

(Foto: REUTERS/Jalal Al-Mamo)

Essa imagem fotográfica está na matéria do G1 “Ataque aéreo do regime sírio sobre Aleppo deixa ao menos 33 mortos”. A matéria por si só é terrível, mas essa fotografia choca. Não choca pela desgraça latente na imagem ou por algum outro tipo de apelação. Ela machuca porque, como afirma Rouillé, a verdade está  em segundo plano, indireta, enredada como um segredo. Não é colhida à superfície dos fenômenos. Ela apenas se estabelece.  Fosse qualquer outra situação poderíamos pensar que as crianças se machucaram brincando. Mas a simples inserção da Síria na matéria dá um outro significado.  A fotografia não está sozinha, e nem frente a frente com a coisa que ela representa.  Sozinha, não significa nada. Nua, não tem referente ou, o que é a mesma coisa, tem mil, como testemunham esses clichês da imprensa que volta e meia situam legendas abusivas em contextos opostos, alheios ao seu próprio contexto. (ROUILLÈ, 2009,p. 94-95)

Como questionaria Susie Linfield, em The cruel radiance,  as fotografias podem iluminar a escuridão? Podem tornar o mundo mais habitável e dar voz ao silêncio expondo situações de crueldade? Eu acredito que sim. Linfield afirma que uma das vantagens da fotografia é justamente essa, a de trazer para perto qualquer coisa que se possa pensar. Linfield diz que as pessoas muitas vezes falam sobre o horror da guerra, e sobre a necessidade de construção de uma política de direitos humanos, em termos extremamente abstratos, mas esquecem que há a necessidade do engajamento e questionamento sobre o que a guerra realmente fazer com as pessoas, o que é que a opressão política, o sofrimento e a derrota fazem.

As fotografias não podem explicar as complexidades das histórias ou suas causas. As fotografias são vislumbres poderosos, sugestões poderosas. A autora pede para os telespectadores tornarem-se mais pró-ativos em vez de se lamentarem eternamente sobre todas as coisas que as fotografias não podem fazer e não nos dizem, e todos os caminhos que não podem percorrer. Cabe a nós começar uma investigação sobre essas histórias e sobre o que as imagens estão dizendo. Toda imagem de sofrimento não diz somente “isso é”, mas também implica em “isto não deve ser”, ou “isto está acontecendo”com “isto deve parar”.

A Síria deve parar.

 

A fotografia – entre documento e arte contemporânea- André Rouillè

The Cruel Radiance – photography and political violence. Susie Linfield

 

A Síria deve parar.

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