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Lance Armstrong: as imagens de um heroi (até o final) no jornal Folha de São Paulo

Há algum tempo eu queria escrever um texto maior (e, me desculpem por isso) sobre os casos Lance Armstrong e Oscar Pistorius. Acompanhei todo o processo do Lance pela Folha de São Paulo, desde junho do ano passado. O que ficou claro foi que, mesmo quando o caso de doping já estava nos tribunais, as imagens utilizadas no jornal eram sempre de vitórias do ciclista ou outros momentos de glória.

Folha de SP/14 de junho

Folha de SP/20 de agosto 12

Numa das  matérias sobre a suspeita de doping, a imagem que aparece na matéria de 20 de agosto é de arquivo, de 12 de fevereiro. Uma outra matéria de 24 de agosto informa que Armstrong desiste de lutar na justiça e perderá os títulos. A mesma imagem: Armstrong em um Ironman 70.3. A notícia diz que ele sofre processo de doping; a imagem mostra um super atleta. Em 25 de agosto, o ciclista é banido do esporte. O atleta aparece em seus melhores momentos.

Galeria de fotos- Folha de São Paulo/ 25 de agosto

Galeria de fotos- Folha de São Paulo/ 25 de agosto 12

Quando a matéria é que Armstrong “utilizou os métodos de dopagem mais sofisticados da história”, a mesma imagem publicada primeiramente aqui no blog, é a que aparece como ilustração do texto. Avançando um pouco, para o dia 14 de janeiro (pouco antes do caso Oscar Pistorius ter seu início), a imprensa mundial informa que Armstrong confessou o doping para a apresentadora americana Oprah Winfrey. Sem imagens de tribunais, de seringas, de choro. Apenas um heroi sendo questionado.

Folha de São Paulo / 14 de janeiro

Folha de São Paulo / 14 de janeiro

Martine Joly (2005) diz que uma das funções da análise da imagem pode ser a busca ou a verificação das causas do bom ou do mau funcionamento de uma mensagem visual. Jean- Luc Godard dizia: “palavra e imagem são como cadeira e mesa: se você quiser se sentar à mesa, precisa de ambas”. Mesmo que ambas possam ser tão distoantes como nesse caso, onde um dos maiores julgamentos do esporte ocorre sendo ilustrado com imagens de vitória. O que ocorreu no caso de Armstrong, que não ocorreu com Pistorius, foi que, desde o início, prevaleceu a imagem do heroi, do ciclista sete vezes campeão do Tour de France. Talvez por isso, e somente por isso, a imagem do atleta possa ser reconstruída.

 

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Lance Armstrong X Oscar Pistorius

Toda foto é recebida não só pelos olhos, pela razão e pela consciência, mas também pela imaginação e pelo inconsciente. É por isso que a foto informativa (de jornal, por exemplo) é sempre interpretada; é por isso que a foto doméstica tem várias recepções; é por isso que a publicidade usa a fotografia; é por isso que a arte encontra obrigatoriamente a fotografia. (SOULAGES, 2010: 259-260)

Isso não é normal.

Photo/ Chris Collindridge

Photo/ Chris Collindridge

Isto é Pistorius:

Fonte: BBC

Fonte: BBC

Boris Kossoy afirma que os receptores já trazem em si suas próprias imagens mentais preconcebidas acerca de determinados assuntos. Estas imagens mentais funcionam como filtros: ideológicos, culturais, morais e éticos . Esses filtros, todos nós os temos, sendo que para cada receptor, individualmente, os mencionados componentes interagem entre si, atuando com maior ou menor intensidade. Para quem gosta de esporte, e mais ainda, para quem era um admirador do corredor Oscar Pistorius, essas imagens do atleta entrando no tribunal não fazem sentido. Não estão no código cultural e ético. A segunda imagem, de um Pistorius heroi, é a estabelecida.

No caso do ciclista Lance Armstrong, a imagem mais oposta ao seu passado de sete vezes campeão do Tour de France foram as imagens de sua entrevista para a apresentadora americana Oprah Winfrey. Não houve imagem de tribunais, prisões ou policiais. Já Pistorius, nessa imagem de Chris Collindridge, não tem nada de Pistorius. É um homem, normal, com as duas pernas, um capuz escondendo o rosto, SE escondendo. Não há o campeão paraolímpico ali. Não há nada de super-humano. A foto faz pensar. Pistorius acabou? Susie Linfield afirma que toda imagem de sofrimento não diz somente “isso é”, mas também implica em “isto não deve ser”, ou “isto está acontecendo” e que, irremediavelmente deve fazer pensar.

Soulages esclarece que uma foto pode ter efeitos que as palavras não terão e que poderão, frequentemente, de abalar o receptor. Lewis Hine, repórter crítico da miséria social, declarava: “Se eu pudesse contar a história com palavras, não teria por que carregar uma máquina fotográfica”. Talvez, por isso, e numa breve análise, e seguindo a linha de Linfield, obrigatoriamente nos levando a pensar e repensar o passado, a imagem de Pistorius, infelizmente, corre o risco de ficar arranhada para sempre. Há ainda uma sobrevida à Lance Armstrong.

Referências

KOSSOY, Boris. Os Tempos da Fotografia. 2. ed. Cotia, SP : Ateliê Editorial, 2007.

…………………….. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. 4.ed. Cotia, SP: Ateliê.

LINFIELD, Susie. The Cruel Radiance.  University of Chicago Press , Chicago, USA,2010.

SOULAGES, François. Estética da Fotografia. São Paulo, Editora Senac, 2010.

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