Arquivos da Tag: Christopher Lasch

O paulistano acolheu a ressignificação

Fernando Haddad então é o prefeito de São Paulo. Bancado pelo ex-presidente Lula,  durante a campanha eleitoral soube ser coadjuvante quando esse era o seu papel. Mostrou ao eleitor o jovem letrado de 49 anos, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Economia e doutorado em Filosofia, pai de família. Apesar de sua inexperiência nas urnas e frente ao Ministério da Educação, ponto que não foi explorado por seus opositores, mais ocupados com a polarização Russomanno Vs Serra no primeiro turno, a campanha se esforçou para mostrá-lo como “o candidato de Dilma e Lula”, o “candidato da mudança” que se opõe aos “prefeitos de meio mandato”, expressão usada para se referir à saída de José Serra da Prefeitura em 2006 para concorrer ao governo estadual e ao envolvimento de Kassab na criação do PSD, o qual o acusou de ter “abandonado” a cidade.

O político-produto apresentado ao eleitorado busca encontrar os anseios das massas ou o segmento alvo que muitas vezes têm base nas relações de insegurança e narcisismo (LASCH, 1986). “O candidato do Lula”, “o candidato da Dilma” colocaram Fernando Haddad numa sensação de intimidade com seus eleitores (SCHWARTZENBERG,1977). A proximidade com o patriarca Lula em um misto de intimidade e servidão garantiram um perfil mais experiente do que o petista Haddad realmente tinha. E, a população aceitou esse “novo” Haddad. Acolheu a ressignificação. “O discurso espetacular faz calar, além do que é propriamente secreto, tudo o que não lhe convém. O que ele mostra vem sempre isolado do ambiente, do passado, das intenções, das consequências. É, portanto, totalmente ilógico”. (DEBORD,1997:182)

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O 'novo' Iphone

Filas que duram dias para a compra de um novo aparelho celular.  Dois milhões de encomendas na atualização de um aparelho. Observação: não é uma novidade completa, como a primeira venda de um tablet, algo que até então o mercado não conhecia. Mas uma atualização de um sistema que já existe. O consumo é tão exagerado (e impressionante) que o novo Iphone pode acrescentar entre 0,25 e 0,50 ponto percentual no crescimento do PIB dos Estados Unidos. Calculado utilizando o chamado método de controle de varejo, as vendas do iPhone podem impulsionar o crescimento anualizado do PIB em 3,2 bilhões de dólares, ou 12,8 bilhões de dólares a uma taxa anual.

Christopher Lasch lembra bem que as mercadorias são produzidas para o consumo imediato. O seu valor não assenta em sua utilidade ou permanência,mas em sua negociabilidadade. Jean Baudrillard fala de uma crença exacerbada na publicidade e não no produto. Publicidade com discurso ideológico e conotativo. Ideológico porque não se assume como tal, conotativo porque é a publicidade do espetáculo, da sedução e da sugestão. Que só fortalece o eu narcisista de Lasch.  Gilles Lipovetsky menciona a sociedade do hiperconsumo. Nessa linha, Juremir Machado da Silva fala do hiperespetáculo: “O hiperespetáculo é um imaginário sem representação. Imagem nua. Deliciosamente obscena.”

Lasch chama a atenção para uma crescente dependência frente à tecnologia, que deu origem à impotência e vitimzação. O eu mínimo ou narcisista é, antes de tudo, um eu inseguro de seus próprios limites, que ora almeja reconstruir o mundo à sua própria imagem, ora anseia fundir-se em seu ambiente numa extasiada união. Por que precisaríamos de um novo Iphone? O “antigo” não funciona mais? Não. O objeto perdeu sua função primeira. O espaço de relações em que os objetos ultrapassam sua função, ou seja, deixam de ser objetos-função e alcançam uma nova ordem prática de organização.  Não é mais o aparelho por si só. É seu status, o que ele representa e o que eles diz que representa. Mas, ficar na fila por dias em função desse desejo ‘vazio’ é algo que nem Baudrillard esperava ver.

Obs.: sou muito mais o Galaxy SIII.

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O animal político

Ontem, pesquisando em livros para um seminário (que em breve darei detalhes) que vou participar com o grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo*, em outubro, achei muita coisa interessante. Um deles é o trabalho do Gabriel Augusto Costa Santos Nascimento, sobre o animal midiático. Também comecei a ler O mínimo eu, de Christopher Lasch. O que pretendo entender é como o homem político se comporta em tempos de exposição excessiva de imagem e como ele age nessa sociedade narcisista, que como nos diz Lasch, é fruto de insegurança e esvaziamento de valores e sentidos.

Roger-Gerard Schwartzenberg afirma que o mundo do espetáculo e da política se entrosam cada vez mais. Nesse mundo do espetáculo, Sergio Buarque de Hollanda informa que a nossa política traz a marca da matriz lusitana de valorizar o político em detrimento do partido. O personalismo brasileiro foi construído aos moldes portugueses.

Nascimento fala que a a globalização levou o crescimento das campanhas publicitárias de marcas para diversos pontos do mundo além dos países desenvolvidos tendo como principal agente os Estados Unidos da América. Esse fenômeno midiático, com apoio nas técnicas desenvolvidas por Goebbels, chegou aos políticos contemporâneos.Um exemplo claro desse animal político midiatizado é o próprio Arnold Schwarzenegger. Schwarzenegger nasceu e vive nessa sociedade espetacularizada e a utilizou em seu detrimento nas campanhas.

O contexto faz com que o eleitorado se identifique com seu candidato. (HAUG, 1996)

É de Nascimento a exemplificação do que acontece com o “animal político midiático” no Brasil. Na sociedade do espetáculo, o capitalismo aliado ao imagético derrotou as ideologias, e governos considerados bem sucedidos figuram nas regiões centrais do espectro político, o que pode denotar as diversas semelhanças entre PT e PSDB, que são partidos de centro-esquerda em sua formação.

As campanhas publicitárias de Lula mostram um Brasil desigual o apontando como praticamente um dos pais fundadores da nação brasileira. A campanha serrista de 2010 o mostrou como candidato do rompimento, mas com propostas semelhantes ao lulismo e negando a herança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos principais intelectuais de centro que em meio ao tempo de crises fundou a base da atual política econômica do país, promoveu avanços para eliminar a inflação e trouxe a questão de cotas raciais para a deliberação. Serra fugiu de aliar sua imagem à de FHC por conta de privatizações de estatais estratégicas à União, entretanto há aquelas que são apontadas como mal sucedidas. A tática mal  empreendida do tucano ajudou na vitória eleitoral da presidente e pupila de Lula, Dilma Rousseff (PT), mesmo sem ela ter experiência em pleitos eleitorais. Foi mais um demérito de Serra e uma conquista de Lula em formar uma sucessora do que um mérito da ex-ministra da Casa Civil que em seu discurso parecia uma reprise de Lula.

Mas vale lembrar Guy Debord, mais uma vez. “O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” (1997: p.17)Mas isso é assunto para outro texto…

*O grupo Comunicação e Sociedade do Espetáculo é coordenado pelo prof. Dr Cláudio Coelho.

BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo, Editora Perspectiva, 1989.
BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997
LASCH, Christopher. O Mínimo Eu. São Paulo Editora Brasiliense, 1986.
NASCIMENTO,Gabriel Augusto Costa Santos. O animal político midiático (artigo)

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