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'Doutores mal treinados formam novos doutores'

Um dos mais renomados bioquímicos do Brasil, Lewis Joel Greene, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, chamou a atenção para a necessidade de avaliar a influência dos rumos da pós-graduação do país no quadro de estagnação da qualidade da produção científica brasileira, apesar do seu crescimento quantitativo. Segundo o pesquisador,

“O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.”

Professor aposentado da USP, ainda atuante como colaborador, bolsista de produtividade do nível 1A do CNPq (o mais elevado) e membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências), o pesquisador norte-americano que adotou o Brasil em 1974, aos 40 anos, manifestou essa preocupação em no artigo “É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro”, publicado ontem (segunda, 26.jan) no blog “SciELO em Perspectiva”.

Números

Greene não apresentou indicadores, certamente por estar tratando de um assunto que dispensa detalhes numéricos no meio especializado em que se manifestou. Antes de prosseguir com sua advertência, mostro para os leitores números relacionados ao quadro por ele comentado.

Para termos uma ideia do que aconteceu quantitativamente na pesquisa e na pós-graduação no Brasil nas décadas mais recentes, aproveitei dados de uma apresentação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), segundo a qual em 1987 havia 37.195 matrículas em mestrados e doutorados em todo o país, segundo dados da Capes. Desse ano a 2013, esse total cresceu 5,5 vezes, aumentando para 203.717.

Nesse mesmo período de 26 anos, o número de artigos brasileiros publicados em periódicos de padrão internacional cresceu de 2.662 para 38.523. Apesar desse aumento de 14,5 vezes em sua produção científica, o país não teve crescimento significativo nos indicadores de qualidade (impacto) de sua produção científica, que na verdade chegaram a estagnar de 2003 a 2013, como destaquei no ano passado em minha reportagem “Produção científica no Brasil fica menos concentrada em SP” (13.out).

Formação

Esses números mostram que a abordagem de Greene tem lastro na realidade. Ele destaca que, apesar de nosso grande investimento nos últimos anos em ciência e tecnologia, “a ênfase continua a ser no número de diplomas e documentos produzidos, mais que na formação do aluno”.

“Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.”

Finalizando, Greene ressalta que a Capes, as agências de fomento estaduais e as universidades tiveram responsabilidade no processo que levou a esse quadro. O pesquisador sugere que a ABC e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) organizem um painel para analisar o desempenho da pós-graduação desde os anos 1970 e propor “novas abordagens que podem ser mais eficazes do que a atual em relação à qualidade dos nossos alunos e do empreendimento científico no Brasil”.

Esse não foi o primeiro alerta de que há algo muito errado no crescimento quantitativo da pós-graduação e da pesquisa brasileira. Bem que poderia ser o último.

POR MAURICIO TUFFANI, PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO DE HOJE, 28 DE JANEIRO.

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Prof. Miguel Chaia e a época da reprodutibilidade acadêmica

Vocês já devem ter ouvido falar do livro “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin. O texto mexe com o status da obra de arte, retirando-lhe o que Benjamin chamou de “aura”, ou seja, aquela característica que a torna única, a experiência da contemplação “aqui e agora”. Para além do artístico, o autor revela as consequências dessa revolução para os campos social e político.O que Benjamin chama em seu texto de “reprodutibilidade técnica” é, na verdade, a entrada do processo industrial na produção artística. A reprodutibilidade tira da obra de arte sua aura e com isso, eu diria, seu próprio status de obra de arte.

Em 2013 fiz vários posts falando sobre a exigência que nós, pesquisadores, temos de produzir, produzir e produzir. No IBERCOM, o prof. Miguel Vicente questionou se estávamos em condições de importar talentos, visto que o debate era que a academia americana seria preconceituosa com os trabalhos latinos. Já comentei que, aqui no Brasil, a exigência pela produção QUANTITATIVA é  mil vezes maior do que pela produção QUALITATIVA e isso explica muita coisa. Não estamos em pé de igualdade com os americanos porque temos que produzir qualquer coisa para ser publicada. Estamos apenas Reproduzindo. Não temos mais a aura.

Por que estou falando tudo isso? Porque ontem fui surpreendida com a notícia de que o professor Miguel Chaia ( não vou me ater em apresentações, um simples “google” fala por si) havia sido “descredenciado” da pós da PUC.  Na verdade, ele “pediu para sair” conforme vocês verão abaixo. Existem os critérios de avaliação de “produtividade” da CAPES, os quais expressam cada vez mais um processo de delinquência acadêmica. O processo, puramente quantitativista, produz resultados desastrosos. Acabou refletindo num dos maiores intelectuais brasileiros: o professor Miguel Chaia. 

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Abaixo, reproduzo a carta do professor ao Programa de Pós-graduação da PUC. O professor nem imagina que estou publicando. A carta, como vocês imaginam, rodou. E é emocionante. SEM MAIS.

São Paulo, 27 de outubro de 2014.

À Coordenação do PEPG em Ciências Sociais

O soco acadêmico me pegou de jeito, bem no fígado: rebaixamento a professor colaborador, eufemismo para descredenciamento. Experimentei o constrangimento de perder as credenciais num bom momento da carreira, sentir-se um convidado em sua própria casa.

Considero injusta a sentença lançada sobre as minhas atividades acadêmicas, emitida pela comissão de avaliação e pela coordenação do programa. Discordo do resultado e do processo que levou a esta sentença, mesmo que ele tenha se dado no interior de uma tendência atual nas universidades.

Além do mais acho omissa, burocrática e insensível a coordenação do programa, tão apegada ao exercício do pequeno poder que nem suspeita que dois mais dois são cinco. É preciso ter sabedoria e boa vontade para defender sim, simultaneamente, os interesses da instituição e de seus pares.

Acho injusta a sentença, pois no período da avaliação, produzi um dos melhores textos da minha trajetória – longo, denso e criativo – fruto de mais um ano de pesquisa meticulosa sobre arte e micropolítica. Ele foi publicado pela Editora Cosac Naify, que tem Prêmio Nobel em seu catálogo.

Acho injusta a condenação, porque no período em questão organizei um substancioso livro sobre cinema e política, do qual produzi um capítulo. Selecionei os textos, li, reli, tive dúvidas e após um bom tempo já está no prelo pela Editorial Azougue (RJ).

Acho injusta a sentença, pois nesta época toda, fui diretor da EDUC, fantástica editora universitária da PUC-SP. Nesta fábrica magnífica de pontuações para a CAPES, incentivei a publicação de dezenas de livros e revistas. Professores da casa e de outras universidades receberam, pela EDUC, inúmeras pontuações.

Acho injusta a condenação, pois no período em questão participei da diretoria da Bienal Internacional de São Paulo e de seu comitê curatorial que elegeu em suas edições o tema “Arte e Política”, sem remuneração, levando o nome da PUC-SP e do NEAMP para além dos muros da universidade.

Acho injusta a sentença porque participo como um dos pesquisadores principais do Projeto Temático/FAPESP “Lideranças Políticas no Brasil: características e questão institucional”.

Acho injusta a condenação, pois há três anos estou aperfeiçoando um longuíssimo texto sobre o Poder Político em William Shakespeare, a partir do seu aprendizado com Maquiavel. Só agora é que ele está quase pronto para ser encaminhado para eventual publicação. Para mim o processo intelectual é lento, gostosamente penoso, que exige reflexão demorada e uma íntima contemplação.

Critico a coordenação por não defender seus pares, por não dificultar a aplicação da pena, por deixar que professores sérios e históricos recebessem penas imerecidas.

A coordenação foi ineficiente ao aplicar a penalidade quando já estavam planejadas as atividades acadêmicas para o primeiro semestre de 2015.

A coordenação foi deselegante na forma como conduziu a comunicação da sentença aos professores.

Conclusão: por isso tudo inicio um processo para me desligar do PEPG em Ciências Sociais. Não tenho mais a mínima vontade de atuar junto ao programa. Ficarei apenas o tempo necessário para orientar os excelentes mestrandos, doutorandos e um pós-doutorando sob a minha responsabilidade.

Sou produtivo e escrevo muito, para o meu aprendizado e formação intelectual, para os meus interlocutores e, principalmente, para o meu prazer. Não gosto de ser medido por números rasos. Mesmo que eu já tenha construído um significativo espaço para contribuir com o desenvolvimento do programa, desde o início dos anos 90, agora não quero mais trabalhar nele. Simples assim, com certa leveza: bye, bye pós-graduação.

Miguel Chaia

 

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CAPES afirma: método dialético-materialista não é científico

A Mara Rovida, minha colega de grupo de pesquisa e doutoranda da USP em Comunicação Social, enviou-nos esse texto hoje pela manhã, IMPORTANTÍSSIMO.

“Entrevista  exclusiva com Ivanete Boschetti

 

O parecer negativo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) ao projeto “Crise do capital e fundo público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais” faz vir à tona uma questão crucial para as ciências humanas no Brasil. Não pela recusa em si, mas principalmente pela justificativa utilizada pelo parecerista responsável. Nele está escrito que o projeto não tem mérito técnico-científico porque é fundamentado no método dialético-materialista histórico, e este, segundo tal parecerista, não é científico. E, partindo dessa premissa, todos os demais quesitos foram desqualificados. Leia o parecer do CAPES http://cressrj.org.br/site/wp-content/uploads/2014/06/Parecer-1.pdf

Pluralidade, liberdade ideológica e respeito à história do pensamento ocidental dos dois últimos séculos foram desprezados. E, coincidentemente ou não, nenhum projeto do Serviço Social foi aprovado no referido edital. Cerca de 90% dos aprovados são das áreas exatas e biomédicas.

Apresentado por um grupo que reúne três instituições de ensino superior públicas (UnB, UERJ e UFRN), 19 docentes pesquisadores (sendo quatro pesquisadores bolsistas do CNPq), nove doutorandos/as, 15 mestrandos/as e 27 discentes da graduação, também sua não recomendação porque as equipes proponentes e associadas haviam acabado de participar de um projeto com duração de quatro anos. Porém, o Edital 071/2013, no qual o grupo se baseou, não apresenta como critério de recomendação ou não a participação anterior em outros editais.

No dia 30 de maio o grupo de pesquisadores impetrou recurso conforme prevê o edital. Como o espaço para tal ação é de apenas 5 mil caracteres, um documento de recurso mais detalhado foi enviado ao presidente do CAPES.

Leia o recurso apresentado http://cressrj.org.br/site/wp-content/uploads/2014/06/Recurso-Procad-UnB-UFRN-UERJ-1.pdf

O que há no recurso

No item Formação e aperfeiçoamento de recursos humanos, o parecer diz: “Sim, entretanto, a formação proposta estaria no âmbito do método marxista histórico-dialético, cuja contribuição `a ciência brasileira parece duvidosa” (erro de digitação está no texto do parecer).

Tomando por base esta afirmativa, o recurso apresentado pelo grupo de pesquisadores questiona, textualmente, “O que seria das ciências sociais e do estudo da Formação Social, Econômica e Política Brasileira se não dispusessem de obras de autores como Florestan Fernandes, Caio Prado, Octávio Ianni, Paulo Freire, Carlos Nelson Coutinho, Francisco de Oliveira, Leandro Konder, Roberto Schwarz, Antonio Cândido, Jacob Gorender, Nelson Werneck Sodré, Marilena Chauí, Emir Sader e José Paulo Netto, para citar alguns autores que fizeram e fazem ciência social baseados no Método do Materialismo Histórico Dialético? São autores reconhecidos mundialmente como essenciais na formação de gerações que pensam criticamente a realidade social e contribuíram e contribuem enormemente para desvendar o Brasil e as reais e múltiplas determinações da desigualdade econômica e social, para explicar os processos de estratificação social e concentração de propriedade, renda e poder, além do amplo universo de reivindicações de direitos presentes em praticamente todas as cidades brasileiras, bem como em nível mundial”.

Ter um projeto não aprovado faz parte das regras democráticas, destaca a equipe. Mas os critérios utilizados demostram para que caminhos a universidade brasileira pode estar se dirigindo. Conheça, pelos links abaixo, os documentos referentes ao parecer e o recurso.

Não apenas o Serviço Social, mas as ciências sociais como um todo precisam estar atentas aos critérios apresentados pela CAPES. Afinal, o parecerista acaba sendo “parte” da instituição, manifestando-se em seu nome.

Há na Internet um abaixo-assinado direcionado ao presidente da CAPES, Jorge Guimarães: Em defesa da liberdade acadêmica e das ciências humanas e sociais. para participar é só clicar aqui https://secure.avaaz.org/po/petition/Presidente_da_CAPES_Jorge_Guimaraes_Assegurar_a_liberdade_de_escolhas_teoricas_teoricometodologicas/?launch

Leia, abaixo, entrevista com a coordenadora do projeto, professora da UnB, Ivanete Boschetti.

As Perguntas

1) O que pode significar para as ciências sociais no país a posição do parecerista do CAPES ao afirmar que o método dialético-materialista histórico não é científico?

Ivanete Boschetti – . Por um lado significa um total desrespeito à liberdade de escolha teórico-metodológica, que expressa cerceamento e filtro ideológico na seleção de projetos para recebimento de recursos públicos. Isso fere totalmente princípios constitucionais de isenção, impessoalidade e objetividade no trato da coisa pública. Por outro lado, significa uma desqualificação e desrespeito ao Método Dialético-Materialista, que fundamenta, historicamente, uma das mais profícuas e importantes fontes de produção de conhecimento e explicação sobre as relações sociais e a sociedade, no Brasil e em todo o mundo.

2) Que impacto o argumento desqualificador do método materialista-histórico como método científico teria para as estratégias de implementação do Projeto ético-político da profissão tanto no âmbito da formação quanto no âmbito do trabalho profissional?

Ivanete Boschetti – Esse tipo de argumento tenta instaurar o “pensamento único” e autoritário, que só tem um propósito: manter e reiterar a sociabilidade capitalista. Pareceres dessa natureza querem drenar o apoio à pesquisa e investimento em processos formativos conservadores, que não se colocam como preocupação o questionamento desta sociabilidade. O Projeto Ético Político Profissional tem, nos Projetos Pedagógicos fundados na teoria crítica, um importante pilar de sustentação teórico-metodológica. Assim, pareceres que ceifam a possibilidade de apoio público a projetos baseados na abordagem teórico-metodológica marxista, não estão somente realizando o cerceamento ideológico; estão também disputando o fundo público e drenando o orçamento para projetos que não criticam a ordem do capital. Defender a cientificidade do Método Dialético Materialista é, também, defender os fundamentos do nosso Projeto Ético Político Profissional.

3) Cerca de 90% dos projetos aprovados não pertencem às ciências sociais. Nem, educação, nem antropologia, comunicação… O que isso sinaliza, na sua opinião?

Ivanete Boschetti – Sinaliza uma clara priorização das áreas consideradas como “técnicas” ou que estariam, em algumas interpretações, na ponta das pesquisas científicas – exatas e biomédicas -. Significa desvalorizar e desconsiderar a contribuição das ciências humanas e sociais para o estudo e compreensão crítica da formação social brasileira, de seus processo de criação e reprodução da desigualdade social. Significa colocar estas áras no limbo da pesquisa, pois é muito difícil fazer pesquisa sem recurso publico.

4) A senhora já teve a informação de algum parecer semelhante no Brasil ou no mundo?

Ivanete Boschetti – Não. Jamais tinha ouvido falar de um parecer ideológico tão explícito e declaradamente antimarxista nas sociedades democráticas. Só vivemos a explícita perseguição ao marxismo em regimes autoritários e fascistas.”

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