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Neurocientista defende universidades geridas como empresas: 'É preciso demitir quem não produz'

Fonte G1

 

Após deixar o Brasil por condições melhores de pesquisa, Suzana Herculano-Houzel critica falta de meritocracia em universidades federais.

“O Ministério que cuidava da Ciência agora tem que cuidar de Comunicação também, e eu francamente não vejo o que é que uma coisa tem a ver com a outra”, diz pesquisadora

Pouco mais de uma semana após trocar o Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ Brasil por uma universidade nos Estados Unidos, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel diz não estar tendo problemas para adaptar-se à nova realidade.

“Aqui, mesmo quando as coisas não funcionam, elas acabam sendo resolvidas rapidamente”, disse à BBC Brasil, por telefone, da Universidade Vanderbilt, em Nashville, no Estado do Tennessee.

“O que não funciona aqui no momento, para você ter ideia, é que o meu sobrenome é grande demais para caber nos formulários (risos). É muito legal trabalhar numa universidade que tenha a estrutura ágil que qualquer empresa tem. As universidades brasileiras, as públicas, pelo menos, não tem.”

No início de maio, em artigo da revista Piauí, a pesquisadora carioca – que estuda o funcionamento do cérebro humano e de outras espécies de mamíferos – descreve as dificuldades para produzir ciência de nível internacional no Brasil, como a burocracia para comprar equipamentos e as dificuldades de financiamento.

Apesar de ter publicado trabalhos de repercussão mundial, como o que defende a hipótese de que cozinhar alimentos permitiu aos ancestrais do homem sustentarem um cérebro maior, e um estudo, publicado na revista Science, sobre como o córtex cerebral se dobra, Herculano-Houzel, chegou a usar o próprio dinheiro para cobrir despesas de seu laboratório. Em 2015, fez uma “vaquinha”, uma campanha de financiamento coletivo na internet, para conseguir manter a produção por alguns meses.

Ela critica o que diz ser falta de meritocracia nas universidades federais, onde professores têm salários fixos independentemente do que produzem, e afirma que “não dá para ser otimista no Brasil nesse momento”.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Em seus artigos sobre a dificuldade de fazer ciência no Brasil, você menciona não só problemas de financiamento via governo federal e estadual, mas uma certa resistência da universidade onde trabalhava de aumentar seu laboratório por achar que você “não precisaria de mais espaço”, mesmo após o reconhecimento internacional. A mentalidade nas universidades brasileiras também dificulta a pesquisa?

Suzana Herculano-Houzel – O sistema do funcionalismo brasileiro, que se estende às universidades, encoraja o engessamento e diz a alguns professores: “agora que você chegou até aqui, não precisa se preocupar em fazer mais nada. Agora que você conquistou esse laboratório grande, vai tê-lo até o fim dos seus dias, não importa que outros pesquisadores mais jovens, recém-contratados ou que produzam mais precisem desse espaço”.

Tudo isso porque mérito não importa. Não importa o que você produz, os seus direitos e o seu salário já são garantidos pelas regras do funcionalismo. E isso é mortal. Isso garante os direitos de quem já está por cima, mas é extremamente frustrante para quem está em começo de carreira e interessado em produzir.

É preciso ter um ambiente que estimule a meritocracia e recompense o esforço. Mas para esse ambiente meritocrático funcionar, é preciso que quem não produz seja afastado. Exatamente como em qualquer empresa. É preciso pensar na possibilidade de demitir professores, coisa que as pessoas que hoje têm estabilidade na academia não vão querer nunca.

BBC Brasil – Você já disse que falar em meritocracia era mal recebido no ambiente das universidades públicas por ser entendido como defesa da privatização. O que pensa da ideia de privatizar as universidades?

Herculano-Houzel – Me dei conta de que muitas dessas críticas são falácias dos opositores à ideia de meritocracia. Introduzir meritocracia e acabar com a estabilidade (na universidade) não é, de maneira alguma, sinônimo de privatização, mas os críticos fazem parecer que sim. Qualquer proposta de mudar a estrutura atual da academia do Brasil vai para o balde do “querem privatizar as universidades”.

Não estou falando de privatizar a pesquisa nem de privatizar a universidade, de modo nenhum. Eu não entendo, francamente, por que universidades não podem continuar sendo empresas federais, mas gerenciadas como empresas – com flexibilidade não só de compras e aquisições (de equipamento), mas também de contratação e afastamento (de pessoal).

BBC Brasil – Você também afirmou que a distribuição de recursos para regiões menos desenvolvidas do Brasil dificultava a criação de centros de excelência, mas muitos pesquisadores fora do Sudeste e do Sul reclamam de uma concentração de investimentos nestas regiões. Como garantir uma distribuição justa de recursos e, ao mesmo tempo, incentivar a pesquisa de ponta?

Herculano-Houzel – Não adianta, a solução é ter mais dinheiro. O que acontece no momento é que o pouco dinheiro que os centros de excelência nas regiões Sul e Sudeste poderiam receber, que já é insuficiente, se torna ainda menor porque uma parcela desses recursos precisa ser transferida para Norte-Nordeste. O que é uma política perfeitamente válida. O problema é que os recursos são insuficientes.

Então acaba que nem bem você consegue formar centros de pesquisa nas regiões Norte e Nordeste – que também precisariam de muito mais dinheiro -, nem bem consegue manter o funcionamento dos centros de excelência já existentes no Sul e no Sudeste. A única maneira de resolver o problema é aumentar o investimento.

O problema é para que esse investimento direcionado de recursos na região Norte-Nordeste seja realmente efetivo é preciso que o volume de recursos seja grande o suficiente para permitir levar pessoas para lá, mas não é.

Como é que você vai atrair expoentes para formar um novo centro de pesquisas em Fortaleza, por exemplo, se você não pode oferecer um salário atraente para atrair um pesquisador da Alemanha, da França, da Holanda?

Não precisa nem ser pesquisador estrangeiro, só repatriar um pesquisador brasileiro, por exemplo, que está trabalhando em Bruxelas com um laboratório maravilhoso e o financiamento da União Europeia. Temos que aumentar o financiamento como um todo e mudar as políticas de contratação. Atualmente não é atraente fazer ciência no Brasil.

Apesar de reconhecimento internacional de seu trabalho com cérebros, Herculano-Houzel teve que fazer “vaquinha” para laboratório

BBC Brasil – Buscar o financiamento de empresas para laboratórios e pesquisadores seria uma opção?

Herculano-Houzel – O que eu acho fundamental que exista é investimento privado, sim, mas de instituições criadas especificamente para financiar pesquisa. Aqui nos EUA há inúmeras possibilidades de conseguir apoio financeiro para pesquisa dessas instituições privadas de fomento que são filantrópicas.

O financiamento privado de empresas é outra coisa que também existe em alguns países. No Brasil, Campinas é um pólo de bom relacionamento entre a universidade e a indústria local. O risco disso é algumas pessoas usarem o argumento de que a ciência no Brasil está falida porque a indústria não investe.

Não, senhor. A ciência no Brasil está falida porque o governo não investe e investimento em ciência é papel dos governos federal e estadual. Uma vez que exista ciência viável porque governos fizeram os investimentos devidos, aí sim existe a possibilidade de você criar parcerias com empresas e com indústria, o que é muito interessante, mas não deve ser considerado nem a tábua de salvação da ciência brasileira, nem a maneira como a ciência deveria ser financiada.

BBC Brasil – O orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação teve cortes de quase R$ 2 bilhões durante o governo Dilma, e você chegou a criticar o principal programa do governo na área, o Ciência sem Fronteiras. Como vê o futuro da pesquisa científica e do incentivo à pesquisa no Brasil?

Herculano-Houzel – As perspectivas para o setor de ciência no Brasil são ainda mais sombrias. O Ministério que cuidava da Ciência agora tem que cuidar de Comunicação também, e eu francamente não vejo o que é que uma coisa tem a ver com a outra.

Não vejo perspectiva de o orçamento da Ciência e Tecnologia aumentar, o governo só fala de cortes, e ao mesmo tempo a gente vê a aprovação de aumento de salários para o Judiciário e outros.

Não vejo como ser otimista no Brasil neste momento, não em relação à Ciência. O que a gente vê a décadas é uma desvalorização da Ciência por profunda falta de conhecimento dos políticos.

BBC Brasil – A estudante da rede pública carioca Lorrayne Isidoro, de 17 anos, virou notícia ao vencer a Olimpíada Nacional de Neurociência e fazer uma vaquinha, como a que você fez, para participar da competição internacional. O que sentiu ao saber da história dela?

Suzana Herculano-Houzel – Senti tristeza, de certo modo. Lorrayne teve a sorte de estudar num excelente colégio público federal, onde a professora dela certamente é muito mais bem paga do que professores de outras escolas públicas estaduais e municipais. O (colégio) Pedro 2º é uma escola bem equipada. Isso tudo certamente ajudou muito, sem desmerecer a motivação e a força de vontade dela, que são extraordinárias.

Mas o triste é que vejo pessoas como ela chegarem na iniciação científica na universidade e rapidamente desistirem porque as condições de trabalho são péssimas.

A perspectiva é que depois de 4 anos na universidade eles assinarão um papel que os limita a receber uma bolsa de não mais de R$ 1.200 por dois anos (no mestrado), para depois passarem outros 4 anos com uma bolsa de R$ 2.200 por mês (no doutorado).

Essa vai ser a renda máxima deles nos próximos seis anos depois de formados, enquanto um engenheiro químico sai da universidade já com um piso salarial estipulado em oito salários mínimos. É extremamente desestimulante.

A ciência é muito dependente desses jovens que trabalham nos laboratórios, que fazem os experimentos acontecerem. Aqui nos EUA já se segue a onda que veio da Europa de dar a eles contratos de trabalho e pagar salários dignos desde a pós-graduação. E o Brasil está na lanterna.

Eu acho perfeitamente compreensível que os jovens que começam a fazer iniciação científica estejam debandando. É o que eu vi acontecer no meu laboratório e o que eu ouço de vários colegas.

BBC Brasil – Nas redes sociais brasileiras têm crescido as piadas – e a rivalidade – entre pessoas “de humanas”, percebidas como mais à esquerda, menos pragmáticas e mais preguiçosas e pessoas “de exatas”, percebidas como mais à direita, superficiais e elitistas. Como vê essa divisão? As áreas estudadas realmente influenciam na orientação política e outras características?

Suzana Herculano-Houzel – “Pessoas disso” ou “Pessoas daquilo” não existem. Existem pessoas, ponto. Estes são estereótipos, que geralmente são nocivos.

Isso tem muito a ver com as expectativas que a gente tem com relação a esses profissionais na sociedade. Se você espera que alunos da área de Humanidades sejam esquerdistas, toda vez que conhecer um vai dizer: “Ahá, tá vendo?”. E quando aparecerem os alunos de Humanas conservadores, você os ignora como “exceção”.

É esse o problema dos estereótipos, eles criam o que a gente chama de profecias autorrealizadas. Você cria uma expectativa com base na percepção daquele estereótipo e você passa a distorcer sua visão de mundo para que ela se encaixe nele.

No Facebook ficou fácil demais falar qualquer besteira em público, e o Facebook é uma máquina de propagação de estereótipos. Você dá “like” no que se encaixa com o que você pensa e ignora o resto.

Mas isso tudo é besteira, conhecimento é conhecimento. Se hoje a gente pode olhar ao redor e ver um mundo organizado em que boa parte das pessoas não é apedrejada por seus ideais ou crenças, é tudo graças ao conhecimento. Todo conhecimento é importante.

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Educador apresentou sua tese de doutorado em forma de história em quadrinhos

GENIAL!!!! Mas já pensaram se fosse aqui no Brasil???

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Fonte: B9

Por: Flavio Serpa

No final do ano passado, o educador Nick Sousanis recebeu seu doutorado em educação pela Universidade de Columbia com uma tese inusitada: uma história em quadrinhos. Intitulada “Unflattening”, a tese trata da importância do pensamento visual no ensino, fazendo uma relação entre palavras e imagens na cultura ocidental.

Abaixo, você pode ver algumas páginas do trabalho de Sousanis. É interessante ver que a academia não é tão quadrada quanto as pessoas imaginam e, quem sabe, aqui também seja possível conseguir um doutorado sem ficar preso às regras da ABNT.

 

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Todos como “ Homo Lattes ”? O Jurista, o Acadêmico e o “Homo Latteável”?

Por Alexandre Morais da Rosa*¹ e Alexandre Barbosa da Silva*²

Existem três personagens muito “na moda” no sistema jurídico e educacional do Brasil contemporâneo. Tratam-se do jurista, do acadêmico e do “ homo lattes ”, no plano meramente aparente, sem contar as agruras ideológicas apontadas por Roberto Lyra Filho[i], por exemplo.

O jurista, figura notável do direito ao longo dos séculos, é aquele que contribui para a construção de uma “ciência jurídica” prospectiva, reflexiva e que resulte na simbiótica ligação da teoria com a prática do direito, sempre com vista à edificação de um sistema jurídico democrático, coerente e eficaz.

O acadêmico, famoso por edificar teses que orientam os pensamentos dos também doutos e práticos jurídicos, envida sempre seus esforços para ensinar e auxiliar na melhoria da condição de aprendizado de alunos e demais atores do direito, muito embora as vezes seja difícil reconhecer-se tese em teses.

O mais novo elemento nessa cadeia de nomenclaturas subjetivas dos participantes da docência jurídica é o “ homo lattes ”. Trata-se de pessoa que dedica sua vida a preencher formulários públicos, enchendo-os de anotações que reduzam seu pensamento científico a números que, para os burocratas de plantão, significam conhecimento e produção acadêmica.

Pensa na lógica do rendimento, dos artigos publicados, enfim, da quantidade, reproduzindo-se com metâmeros no contexto atual. Operam na lógica do rendimento e da Imperatriz Leopoldinense, Escola de Samba Carioca, campeã em diversos carnavais, mas que simplesmente não empolgava a arquibancada, já que jogava com o regulamento no colo, como lembra Lenio Streck[ii].

Sergio Bruno Martins ao tratar dos critérios de seleção para professores de Universidades públicas, tece comentários sobre o “ homo lattes ”: “O Homo lattes tirando uma pilha de fotocópias comprobatórias e o professor convidado a contar pontos em currículos inchados nada mais são do que duas imagens extremas — mas tristemente normalizadas, porque corriqueiras — do que a academia está se tornando sob os auspícios do produtivismo e do objetivismo. Que formação intelectual pode advir desse contexto? Que ética do conhecimento está implícita aí? Que espécie de saber se pode esperar desse acadêmico burocratizado? Queremos acadêmicos conformados ao que já se conhece, ou capazes de abrir perspectivas críticas e científicas?”[iii]

As respostas a essas indagações parecem estar no cotidiano de todas as instituições de ensino superior, ou seja, ao invés de estimular o estudo aprofundado, crítico e substancial dos acadêmicos e juristas, o que se tem fomentado é a qualidade pela quantidade, de maneira que os números de publicações e participações em eventos – na maioria das vezes até mesmo de qualidade questionável – significará o quão “bom profissional” será o professor. Acrescente-se que o ensino do Direito passou, em Universidades ditas Eficientes, a ser “o estudo do que cairá na prova da OAB” (Se não está na prova da OAB não está no mundo)

Nicoleta Cavalcanti Pereira Rebel, em texto publicado no site da Associação Brasileira de Educação, deixa clara a preocupação com o modelo que se inseriu no país, fundado no produtivismo e no objetivismo: “Atualmente, enaltece-se o produtivismo pela exigência ao professor de uma produção excessiva, ressaltando-se o objetivismo, isto é, reduzindo-se o qualitativo a termos quantitativos. Vale mais o pesquisador que obtenha mais pontos referentes ao quantitativo de sua produção.”[iv]

A preocupação é que muitos dos bons professores, preocupados com a qualidade de seus textos, que precisam, exatamente para ser bons, ser gestados em ambiente adequado de coerência técnica e redacional, acabam por ser considerados como “de baixa produtividade”. De nada importa o quanto já tenham estudado, pesquisado, desenvolvido ideias, orientado trabalhos, se estas atividades não estiverem rigorosa e metodicamente inseridas nos “padrões” determinados. É a fúria do rendimento.

Não se olvida que o subjetivismo para a escolha de professores ou para a consideração sobre o que seja qualidade, não é algo bom. Mas objetivar em demasia, certamente, não torna, necessariamente, o processo melhor.

Uma vez mais, por necessário, mencione-se Nicoleta Cavalcanti Pereira Rabel: “A época em que o título de doutor agregava ao professor prestígio por si só, está passando, porque hoje se exige dele mais alguma coisa: produção em alta escala. É o “publish ou perish”, traduzido entre nós como “publicou ou pereceu”. O Homo Lattes é, pois, o ser humano do Currículo Lattes, onde os docentes expõem toda a sua produção, detalhadamente, numa luta para atender ao desenvolvimento a qualquer custo, luta esta imposta pelo Estado Brasileiro.”[v]

Lamentavelmente tem-se assistido a professores competentes, educadores de escol, sendo excluídos das lides acadêmicas sob o argumento da “baixa produtividade”. Não se pondera mais a titulação acadêmica ou a prática profissional que antes elevava o docente perante seus alunos, instituição de ensino e sociedade. Hoje, o acadêmico e o jurista estão em segundo plano. Importante mesmo é ser “ homo lattes ”, ainda que reproduzindo textos idênticos em diferentes revistas – muitas vezes estrangeiras – ou modificando trechos ao talante da conveniência dos “pontos” alcançáveis em seu currículo, muitas vezes para sobreviver à academia do rendimento. Há ranking, metas semestrais, pontos a se obter. Os Professores da lógica Imperatriz Leopoldinense triunfam.

Alexandre Morais da Rosa e Salah Khaled Jr. discorrem sobre o jurista cansado, que bem poderia ser o professor cansado: “Sobre o tema vale, então, pensar com Byung-Chul Han, coreano de nascimento e atualmente Professor de Filosofia da Faculdade de Artes de Berlin. O argumento de Han é o de que vivemos a “sociedade do cansaço” (La sociedad del cansancio. Barcelona: Herder, 2012) em que o sujeito se violenta a si mesmo, em constante guerra consigo mesmo, pois se trata do “sujeito de rendimento”, cuja crença pressuposta é a de que é livre, mas se queda, utilizando-se da metáfora de Prometeu, como sujeito da auto-exploração, em cansaço infinito.”[vi]

É preciso reconhecer e valorizar a história do professor, assim como sua preocupação com a qualificação constante e a frequente reinvenção de sua capacidade e técnicas pedagógicas, naquilo que Luis Alberto Warat chamava da possibilidade de efeito mágico da academia.

Indispensável que se fomente a qualidade do pensamento, ao contrário da repetição indiscriminada de “achismos” que infelizmente tem nutrido o direito de lições mal formuladas. A quantidade deve sucumbir diante da qualidade na produção jurídico-científica.

Faz-se necessário refletir sobre a educação jurídica que se quer no Brasil: se a dos “homo lattes” ou a dos juristas e acadêmicos que, na docência, orientem a construção e o livre desenvolvimento de personalidades aptas ao conhecimento jurídico mais sofisticado e de qualidade.

A escolha de hoje fará o resultado de amanhã, ainda que pela lógica do rendimento, professores medíocres teoricamente, com baixa capacidade de inovação, pela reprodução do mesmo em novas versões, na lógica leopoldinense do ensino, possam ouvir e se regozijar com um “NOTA DEZ”. Será que acreditam, mesmo, que são isso tudo? E você?


Notas e Referências:

[i] LYRA FILHO, Roberto. Por que estudar Direito, hoje? Brasília: Nair, 1984, p. 14 e 18: “Aprender o que é Direito nas “obras” da ideologia dominante só poderia, evidentemente, servir para um de dois fins: ou beijar o chicote com que apanhamos ou vibrá-lo no lombo dos mais pobres, como nos mande qualquer ditadura”. (…) “Por isto mesmo, eu os chamo, quando professores, de catedráulicos. Nas cátedras, são o tipo do àulico, isto é, de puxa-saco do Poder, sem o menor tezão espiritual”.

[ii] STRECK, Lenio. Em tempos de carnavalização, vale lembrar o maior folião epistêmico: Warat. “Warat, ao falar da carnavalização, rejeitava o carnaval do tipo-praticado-em-Pindorama, mormente o dos desfiles do Sambódromo. Não é disso que ele tratava. Por isso, inclusive, construí o conceito aplicado a alguns programas de Pós-Graduação em Direito: Imperatriz Leopoldinense. O Curso não é grande coisa; mas as alas isoladamente estão up to date. Joga segundo o regulamento. Mas isso não é carnaval. Como não é crítico o discurso institucionalizado. Warat tinha ojeriza a isso. Brincávamos: há cursos em que das 9 às 10 o professor se esfalfela falando em crítica jurídica; entra o professor de direito penal com um manual resumido (ou mastigado) debaixo do braço e esculhamba com tudo. Mas o Curso diz: “- nosso curso é crítico; tem até fulano que dá aula das 9 às 10”. Crítica institucionalizada. Daí a necessidade da crítica à crítica do direito. Só carnavalizando é que se poderia inverter tudo isso.”

[iii] Veja o texto do professor Sergio Bruno Martins, doutor em história da arte pela University College London, em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/08/02/homo-lattes-505601.asp Acesso em 23/06/2015.

[iv] http://www.abe1924.org.br/lermo-nos/309-homo-lattes Acesso em 23/06/2015.

[v] Idem.

[vi] http://emporiododireito.com.br/voce-e-um-jurista-cansado-alexandre-morais-da-rosa-e-salah-khaled-jr/Acesso em 25/06/2015.


*¹ – Alexandre Morais da Rosa é Professor de Processo Penal da UFSC e do Curso de Direito da UNIVALI-SC (mestrado e doutorado). Doutor em Direito (UFPR). Membro do Núcleo de Direito e Psicanálise da UFPR. Juiz de Direito (TJSC). Email: alexandremoraisdarosa@gmail.com  Facebook aqui 

*² – Alexandre Barbosa da Silva é doutor em Direito Civil pela UFPR. Professor na Univel e na Escola da Magistratura do Paraná. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Direito Civil-Constitucional “Virada de Copérnico” da UFPR. Procurador do Estado do Paraná.

FONTE: EMPÓRIO DO DIREITO

 

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“ É um crime o currículo Lattes ”, diz Marilena Chauí

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'Doutores mal treinados formam novos doutores'

Um dos mais renomados bioquímicos do Brasil, Lewis Joel Greene, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, chamou a atenção para a necessidade de avaliar a influência dos rumos da pós-graduação do país no quadro de estagnação da qualidade da produção científica brasileira, apesar do seu crescimento quantitativo. Segundo o pesquisador,

“O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.”

Professor aposentado da USP, ainda atuante como colaborador, bolsista de produtividade do nível 1A do CNPq (o mais elevado) e membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências), o pesquisador norte-americano que adotou o Brasil em 1974, aos 40 anos, manifestou essa preocupação em no artigo “É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro”, publicado ontem (segunda, 26.jan) no blog “SciELO em Perspectiva”.

Números

Greene não apresentou indicadores, certamente por estar tratando de um assunto que dispensa detalhes numéricos no meio especializado em que se manifestou. Antes de prosseguir com sua advertência, mostro para os leitores números relacionados ao quadro por ele comentado.

Para termos uma ideia do que aconteceu quantitativamente na pesquisa e na pós-graduação no Brasil nas décadas mais recentes, aproveitei dados de uma apresentação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), segundo a qual em 1987 havia 37.195 matrículas em mestrados e doutorados em todo o país, segundo dados da Capes. Desse ano a 2013, esse total cresceu 5,5 vezes, aumentando para 203.717.

Nesse mesmo período de 26 anos, o número de artigos brasileiros publicados em periódicos de padrão internacional cresceu de 2.662 para 38.523. Apesar desse aumento de 14,5 vezes em sua produção científica, o país não teve crescimento significativo nos indicadores de qualidade (impacto) de sua produção científica, que na verdade chegaram a estagnar de 2003 a 2013, como destaquei no ano passado em minha reportagem “Produção científica no Brasil fica menos concentrada em SP” (13.out).

Formação

Esses números mostram que a abordagem de Greene tem lastro na realidade. Ele destaca que, apesar de nosso grande investimento nos últimos anos em ciência e tecnologia, “a ênfase continua a ser no número de diplomas e documentos produzidos, mais que na formação do aluno”.

“Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.”

Finalizando, Greene ressalta que a Capes, as agências de fomento estaduais e as universidades tiveram responsabilidade no processo que levou a esse quadro. O pesquisador sugere que a ABC e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) organizem um painel para analisar o desempenho da pós-graduação desde os anos 1970 e propor “novas abordagens que podem ser mais eficazes do que a atual em relação à qualidade dos nossos alunos e do empreendimento científico no Brasil”.

Esse não foi o primeiro alerta de que há algo muito errado no crescimento quantitativo da pós-graduação e da pesquisa brasileira. Bem que poderia ser o último.

POR MAURICIO TUFFANI, PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO DE HOJE, 28 DE JANEIRO.

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“A fábrica de papers”, por Pablo Ortellado

*Recebi do Rafael Balseiro Zin o link para o blog do Professor Medina com esse texto que reproduzi. Obrigada, Rafael!

 

A organização do trabalho na universidade está passando por uma profunda modificação: ela não é mais voltada para a realização de pesquisas exemplares que disputem o reconhecimento dos pares, mas para a conquista de metas de produtividade que gerem reconhecimento credencial das instituições de avaliação. A universidade se parece cada vez menos com um colegiado aristocrático de cientistas desinteressados e cada vez mais com uma fábrica de papers: uma fábrica povoada de operários obedientes. O resultado desta mudança de perfil organizacional não é apenas burocratização e aceleração do trabalho – ela também gera uma profunda corrupção do sistema de comunicação científica.

Um mercado concorrencial de papers

A pesquisa universitária se constituiu modernamente segundo o modelo do colegiado aristocrático de cientistas desinteressados – pesquisadores que, emancipados da lógica econômica, podiam ociosamente investigar o mundo. Para isso foram criados os sistemas de estabilidade (as cátedras e ostenures) e independência acadêmicas (autonomia de pesquisa) que simulavam as condições sociais da pesquisa aristocrática do século XVIII. Embora houvesse algo de anacrônico neste modelo, ele parece ter se ajustado bem às estruturas capitalistas modernas até o fim do boom científico posterior à segunda guerra mundial. No entanto, junto com a crise do estado de bem-estar, a “excepcionalidade” organizacional da ciência foi posta em xeque. Não há ainda consenso sobre o que causou essa mudança. Dardot e Laval, num artigo célebre, atribuem essa mudança ao neoliberalismo – que não consistiria na simples desregulamentação econômica, mas na ampliação da lógica da competição de mercado para todas as esferas da vida. Uma outra explicação para o fenômeno seria a emergência da economia do conhecimento que teria aproximado as formas de organização da empresa capitalista e da universidade num processo que Steven Vallas e Daniel Kleinman chamaram de “convergência assimétrica”.

Seja qual for a explicação, o princípio orientador da mudança em curso faz a universidade operar como se fosse uma fábrica produzindo para um mercado concorrencial. Apesar de não ser uma organização econômica e não vender papers, a universidade passa a ser pensada no modelo input(trabalho humano)/ output (papers e patentes) e se orientar por metas objetivas e crescentes de produtividade. Quando os propositores do modelo são chamados a se explicar, geralmente expressam dois tipos de preocupação: por um lado, diminuir a ociosidade e aumentar a “intensidade” da atividade científica (chamada, sem meias palavras, de “produtividade”) e, por outro, aperfeiçoar os processos de avaliação administrativa fornecendo parâmetros objetivos de mensuração do sucesso.

O objetivo da revolução gerencial na universidade parece ser o de laborizar a atividade científica, submetendo-a a padrões de gestão empresarial. Mas por que o modelo econômico-gerencial deveria ser adequado para gerir a ciência? Em outras palavras, precisamos, os cientistas, ser menos “ociosos” e ter padrões “quantitativos” de administração e controle?

O quantitativo e o qualitativo

Ao introduzir indicadores quantitativos para controlar o trabalho científico, o modelo econômico-gerencial enfrenta uma dificuldade: os resultados da pesquisa científica não têm uma dimensão quantitativa inerente cuja relevância seja suficiente para a avaliação. O único critério quantitativo imediato é o número de artigos produzidos. No entanto, esse indicador isolado é muito impreciso, já que os papers variam em qualidade. O que faz então é incorporar e quantificar a avaliação qualitativa do sistema de publicação por pares das revistas científicas: presumindo que a avaliação da qualidade foi feita pelas revistas científicas, passa-se a quantificar o número de artigos publicados em revistas com revisão por pares. Mas esse novo indicador ainda é impreciso já que os periódicos diferem em rigor de avaliação. Por isso, são utilizados critérios adicionais como os de fator de impacto (a quantidade média de vezes que um artigo de uma determinada revista é citado) para ponderar o valor da publicação em cada revista. Ainda para evitar imprecisões, o sistema restringe a comparação da avaliação apenas para um mesmo campo científico. O resultado é um sistema de pontos onde cada artigo é ponderado por um fator relativo à importância da revista. Gera-se assim uma pontuação que permite hierarquizar todos os cientistas de um campo científico de acordo com a sua “produtividade”: quanto mais artigos se publica em revistas importantes, mais produtivo se é. Essa pontuação fornece parâmetros objetivos para todas as necessidades de seleção do sistema de administração da ciência: a contratação, a promoção na carreira e a distribuição das verbas de pesquisa.

Embora evidentemente facilite a administração científica, ao baseá-la em indicadores, o sistema de avaliação científica econômico-gerencial tem pressupostos de duvidosa razoabilidade. Poucos cientistas considerariam razoável comparar e hierarquizar quantitativamente dois artigos sérios de pares de duas sub-áreas distintas – por exemplo, um artigo de sociologia da religião e um artigo de sociologia do trabalho. Que tipo de critério não arbitrário permitiria definir qual artigo é “melhor” e ainda por cima quantificar esse grau de superioridade qualitativa? Ao hierarquizar as revistas e conceder a elas pontos distintos, a avaliação faz justamente isso: diz que um artigo publicado na revista A é “1,7 vezes melhor” que um artigo publicado na revista B, independente do seu conteúdo. Diz também que uma pesquisa que gera quatro artigos é “duas vezes melhor” que uma pesquisa que gera apenas dois.

Uma vez explicitados os fundamentos lógicos do sistema de avaliação, eles parecem simplesmente absurdos.

Corrupção da comunicação científica

Ao publicizar as regras, o sistema de avaliação estimula os cientistas a competirem entre si para maximizar as chances de publicação nas melhores revistas, criando um mercado concorrencial. Em tese, esta competição levaria os melhores cientistas a terem seus papers mais frequentemente aceitos pelas melhores publicações. No entanto, o resultado é uma disputa por produção de indicadores e não pela qualidade dos artigos. Se forem atores racionais orientados para maximizar os seus interesses de serem contratados, subirem na carreira e aumentarem suas verbas de pesquisa, os cientistas não priorizarão fazer pesquisas de qualidade, mas gerar o maior número de papers com potencial de serem aceitos em revistas bem avaliadas.

É justamente o desacordo entre os dois objetivos que leva à corrupção do sistema de comunicação científica. Quando a ciência se orientava para a disputa por reputação, os cientistas se empenhavam em realizar pesquisas exemplares que impressionassem o julgamento qualitativo dos pares. Com o sistema de avaliação econômico-gerencial esse objetivo é subordinado ao de atender os indicadores de produtividade de pesquisa. Isso não apenas faz com um tempo excessivo seja dedicado às estratégias de publicação, como estimula e legitima práticas de comunicação corrompidas: publicar o mesmo argumento em artigos diferentes; apresentar uma mesma ideia em partes, publicadas em diferentes artigos; publicar ideias imaturas; co-assinar artigos nos quais a colaboração foi apenas pontual; etc.

Num sistema concorrencial com avaliação puramente quantitativa e regras publicizadas, o purismo de se abster destas práticas corrompidas é apenas moralismo antieconômico. Do ponto de vista sistêmico, o recurso às práticas corrompidas está disponível a todos – bons e maus cientistas – e cabe apenas aos bons se aproveitar mais das oportunidades do que os maus.

Mas esse ainda não é o problema principal. O conjunto do sistema de comunicação científica se desarticula com a disseminação destas práticas. Como o sistema premia o número de artigos publicados, o resultado é um inchaço do número de artigos que faz multiplicar a irrelevância, a repetição e a fragmentação. Torna-se assim cada vez mais difícil encontrar o artigo importante no meio do oceano de papers irrelevantes, redundantes e parciais que nunca deveriam ter sido publicados. Em muitas áreas consolidadas, a quantidade de artigos é tamanha que já não é mais possível fazer uma revisão bibliográfica completa. A situação chegou a um ponto tão crítico que um recente estudo encomendado por gestores de importantes universidades americanas comparou o processo a uma “corrida armamentista” e recomendou com urgência a adoção de políticas de “publicação responsável”.

Além da crítica negativa

A avaliação econômico-gerencial não consegue de maneira apropriada separar a boa da má pesquisa, é incapaz de hierarquizar os cientistas de um mesmo campo e submete os pesquisadores a um regime de produção acelerado e orientado para a publicação de artigos supérfluos. Ela coloca os cientistas na condição de operários e os gestores na condição de patrões impiedosos.

A comunidade científica, no entanto, tem muitas vezes resistido a essas investidas contra os seus valores e práticas tradicionais de uma maneira negativa. Isso permite que os gestores assumam a cômoda posição de dizer que o modelo econômico-gerencial é o único modelo de avaliação disponível e que os opositores a ele não dispõem de um paradigma que seja operacional. Com o crescimento do sistema universitário e o aumento da pressão social pelo controle dos gastos com a ciência há uma urgente necessidade de um modelo de avaliação que permita a supervisão pública e critérios de distribuição dos recursos.

Por isso, precisamos desenvolver um sistema de avaliação que esteja de acordo com os nossos valores: que seja democraticamente construído e acordado; que seja fundamentalmente qualitativo e realizado por pares; que avalie os ciclos de pesquisa, respeitando a sazonalidade da divulgação dos resultados; que compreenda o valor das diferentes modalidades de publicação (relatórios técnicos, livros, apresentações em congressos etc.); que tenha parâmetros internos às diferentes áreas; que compreenda as particularidades das novas áreas (que não têm departamentos e programas, nem revistas e congressos) e das áreas interdisciplinares (cujos resultados são apresentados e publicados em campos de pesquisa diferentes).

Reunir essas preocupações num sistema de avaliação viável não parece um objetivo inexequível. Se queremos sair da posição de operários obedientes precisamos abandonar a fábrica e construir uma alternativa a ela. Não é suficente reclamar do patrão ao final da jornada.

Fonte: gpopai

Referências:

Dardot, P.; Laval, C. Néolibéralisme et subjectivation capitaliste. Cités. v. 1, n. 41, 2010. p. 35-50.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Science, capitalism, and the rise of the ‘knowledge worker’: The changing structure of knowledge production in the United States. Theory and Society. v. 30, n. 4, 2001. p. 451-492.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Contradiction, Convergence, and the Knowledge Economy: The Co-Evolution of Academic and Commercial Biotechnology. Socio-Economic Review. v. 6, n. 2, 2008. p. 283-311.

Hartley, D.; Acord, S. K. Peer Review in Academic Promotion and Publishing: Its Meaning, Locus, and Future. Berkeley: Center for Studies in Higher Education, 2011.

 

 

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Prof. Miguel Chaia e a época da reprodutibilidade acadêmica

Vocês já devem ter ouvido falar do livro “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin. O texto mexe com o status da obra de arte, retirando-lhe o que Benjamin chamou de “aura”, ou seja, aquela característica que a torna única, a experiência da contemplação “aqui e agora”. Para além do artístico, o autor revela as consequências dessa revolução para os campos social e político.O que Benjamin chama em seu texto de “reprodutibilidade técnica” é, na verdade, a entrada do processo industrial na produção artística. A reprodutibilidade tira da obra de arte sua aura e com isso, eu diria, seu próprio status de obra de arte.

Em 2013 fiz vários posts falando sobre a exigência que nós, pesquisadores, temos de produzir, produzir e produzir. No IBERCOM, o prof. Miguel Vicente questionou se estávamos em condições de importar talentos, visto que o debate era que a academia americana seria preconceituosa com os trabalhos latinos. Já comentei que, aqui no Brasil, a exigência pela produção QUANTITATIVA é  mil vezes maior do que pela produção QUALITATIVA e isso explica muita coisa. Não estamos em pé de igualdade com os americanos porque temos que produzir qualquer coisa para ser publicada. Estamos apenas Reproduzindo. Não temos mais a aura.

Por que estou falando tudo isso? Porque ontem fui surpreendida com a notícia de que o professor Miguel Chaia ( não vou me ater em apresentações, um simples “google” fala por si) havia sido “descredenciado” da pós da PUC.  Na verdade, ele “pediu para sair” conforme vocês verão abaixo. Existem os critérios de avaliação de “produtividade” da CAPES, os quais expressam cada vez mais um processo de delinquência acadêmica. O processo, puramente quantitativista, produz resultados desastrosos. Acabou refletindo num dos maiores intelectuais brasileiros: o professor Miguel Chaia. 

Captura de Tela 2014-11-01 às 11.16.39

 

Abaixo, reproduzo a carta do professor ao Programa de Pós-graduação da PUC. O professor nem imagina que estou publicando. A carta, como vocês imaginam, rodou. E é emocionante. SEM MAIS.

São Paulo, 27 de outubro de 2014.

À Coordenação do PEPG em Ciências Sociais

O soco acadêmico me pegou de jeito, bem no fígado: rebaixamento a professor colaborador, eufemismo para descredenciamento. Experimentei o constrangimento de perder as credenciais num bom momento da carreira, sentir-se um convidado em sua própria casa.

Considero injusta a sentença lançada sobre as minhas atividades acadêmicas, emitida pela comissão de avaliação e pela coordenação do programa. Discordo do resultado e do processo que levou a esta sentença, mesmo que ele tenha se dado no interior de uma tendência atual nas universidades.

Além do mais acho omissa, burocrática e insensível a coordenação do programa, tão apegada ao exercício do pequeno poder que nem suspeita que dois mais dois são cinco. É preciso ter sabedoria e boa vontade para defender sim, simultaneamente, os interesses da instituição e de seus pares.

Acho injusta a sentença, pois no período da avaliação, produzi um dos melhores textos da minha trajetória – longo, denso e criativo – fruto de mais um ano de pesquisa meticulosa sobre arte e micropolítica. Ele foi publicado pela Editora Cosac Naify, que tem Prêmio Nobel em seu catálogo.

Acho injusta a condenação, porque no período em questão organizei um substancioso livro sobre cinema e política, do qual produzi um capítulo. Selecionei os textos, li, reli, tive dúvidas e após um bom tempo já está no prelo pela Editorial Azougue (RJ).

Acho injusta a sentença, pois nesta época toda, fui diretor da EDUC, fantástica editora universitária da PUC-SP. Nesta fábrica magnífica de pontuações para a CAPES, incentivei a publicação de dezenas de livros e revistas. Professores da casa e de outras universidades receberam, pela EDUC, inúmeras pontuações.

Acho injusta a condenação, pois no período em questão participei da diretoria da Bienal Internacional de São Paulo e de seu comitê curatorial que elegeu em suas edições o tema “Arte e Política”, sem remuneração, levando o nome da PUC-SP e do NEAMP para além dos muros da universidade.

Acho injusta a sentença porque participo como um dos pesquisadores principais do Projeto Temático/FAPESP “Lideranças Políticas no Brasil: características e questão institucional”.

Acho injusta a condenação, pois há três anos estou aperfeiçoando um longuíssimo texto sobre o Poder Político em William Shakespeare, a partir do seu aprendizado com Maquiavel. Só agora é que ele está quase pronto para ser encaminhado para eventual publicação. Para mim o processo intelectual é lento, gostosamente penoso, que exige reflexão demorada e uma íntima contemplação.

Critico a coordenação por não defender seus pares, por não dificultar a aplicação da pena, por deixar que professores sérios e históricos recebessem penas imerecidas.

A coordenação foi ineficiente ao aplicar a penalidade quando já estavam planejadas as atividades acadêmicas para o primeiro semestre de 2015.

A coordenação foi deselegante na forma como conduziu a comunicação da sentença aos professores.

Conclusão: por isso tudo inicio um processo para me desligar do PEPG em Ciências Sociais. Não tenho mais a mínima vontade de atuar junto ao programa. Ficarei apenas o tempo necessário para orientar os excelentes mestrandos, doutorandos e um pós-doutorando sob a minha responsabilidade.

Sou produtivo e escrevo muito, para o meu aprendizado e formação intelectual, para os meus interlocutores e, principalmente, para o meu prazer. Não gosto de ser medido por números rasos. Mesmo que eu já tenha construído um significativo espaço para contribuir com o desenvolvimento do programa, desde o início dos anos 90, agora não quero mais trabalhar nele. Simples assim, com certa leveza: bye, bye pós-graduação.

Miguel Chaia

 

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O INCENTIVO

No final de novembro acontece em Cuba o ICOM 2013. Meu trabalho (na verdade, minha dissertação) foi aprovado. Esse é o quinto Congresso Internacional nesse ano que eu não vou apresentar trabalho por não ter um orçamento para isso.

Captura de Tela 2013-11-15 às 15.14.20

No IBERCOM desse ano discutimos muito a qualidade dos trabalhos iberoamericanos. Alguns professores me surpreenderam, como já disse aqui, afirmando que nossos papers não são aprovados em países de língua inglesa ou francesa por PRECONCEITO.

No entanto, fiquei muito feliz em ver alguns acadêmicos que distoaram desse discurso. Novamente: concordo em gênero, número e grau com o professor Miguel Vicente, da Universidade de Valladoid, quando ele diz que para sermos aprovados em Congressos de língua inglesa ou francesa precisamos é de qualidade. Como não mencionar Manuel Castells, Muniz Sodré e outros pesquisadores que são traduzidos?

Já falei sobre isso. O que quero dizer com esse post, é que a academia brasileira precisa ser incentivada. Estamos escrevendo, estamos estudando e publicando. Mas fica difícil quando você não tem o apoio necessário para ir lá para fora defender o seu ponto do vista.  Como disse Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Precisamos de incentivo para escrever esses livros.

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O idioma no IBERCOM 2013

IBERCOM 2013

No seminário de abertura do IBERCOM, “A definición dunha axenda Iberoamericana-científica e política de cooperación”, o tema discutido foi a predominância do idioma inglês na academia. A professora Aimeé Vega Montiel, vice presidente da IAMCR defendeu o idioma espanhol como dominante. Afirmou que os iberoamericanos deveriam trabalhar para o fortalecimento da língua no meio acadêmico.

O professor Francisco Sierra, vice presidente do CONFIBERCOM chegou a falar em racismo e preconceito com quem fala o espanhol e português na academia de língua inglesa. Sierra afirmou que quando espanhois e portugueses enviam seus trabalhos para congressos e revistas americanas, os revisores e organizadores bloqueiam os latinos assim que percebem a procedência do trabalho, sem ao menos lê-lo.

O professor Miguel Vicente fez a grande pergunta: “estamos em condições de importar talentos?”  Somos capazes de atrair investigadores? E, questionou se queremos mesmo estabelecer diálogo com a língua inglesa. Para o professor, é necessário que se fortaleça o inglês para competir.

A professora Maria Immacolatta, da USP, concordou com Miguel Vicente e afirmou que temos que entrar à força na academia americana e que isso certamente não ocorrerá com congressos em que os alunos expõem os seus trabalhos somente por dez minutos.

Eu não concordo em tratar a academia como se fosse um partido político. Acredito que exista um certo preconceito com os latinos ou com qualquer outro que não seja americano. Mas será que não é pela qualidade acadêmica??? Pensar a academia hoje sem ler Manuel Castells é impossível. Pensar a transdisciplinaridade que tanto defendemos sem Edgar Morin é inexistente. E, nenhum deles é americano. Nem vou falar em Maffesoli ou Lipovetsky.

Penso que, muito mais que um problema de idioma, é um problema de produção acadêmica. Concordo com a professora Immacolatta quando ela diz que não será expondo nossos trabalhos com pouco tempo que teremos respeito lá fora. Primeiro precisamos rever nosso método de estudo, deixar de tratar o meio acadêmico com metas numéricas (o aluno precisa de um número “x” de congressos para defender a tese) e olhar mais para a qualidade do que está sendo produzido, do que está sendo fomentado em Congressos  do que precisamente para o idioma. O idioma é secundário. Precisamos garantir produção com qualidade. Não com números.

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