Arquivos da categoria: Política

O Podemos de Alvaro Dias

Hoje li a entrevista no Jornal Zero Hora, do senador Álvaro Dias (Podemos). Vamos pelo início: o Podemos surgiu na Espanha oriundo de um movimento de intelectuais também como uma reação à crise vivida pelo país. Uma de suas figuras mais conhecidas é Pablo Iglesias, professor de Ciência Política e Juan Carlos Monedero.

Aqui já encontramos a primeira diferença: o Podemos brasileiro surge das elites. O Podemos espanhol fez crowdfunding para financiar a sua campanha eleitoral de 2014. Tem como norte definido a luta pela hegemonia, de Gramsci; a razão e a mística do populismo, de Laclau e Carl Schmitt. Obviamente NADA A VER com nosso Podemos. Não que o senador se refira ao Podemos espanhol nessa entrevista, mas vamos esclarecer algumas coisas antes de irmos adiante, não?

Mas então a jornalista faz a pergunta: “Como diferenciar o Podemos frente a outras legendas que também têm o discurso de renovação?”.  O mais do mesmo. O senador diz que surgiu inspirado em partidos-movimento franceses, especialmente. Bom, na França a situação não é tanto de um partido-movimento, mas sim um partido. Macron venceu a eleição francesa, me desculpe senador, à frente de um partido político, o Em marcha. E, eu espero que quando o senador se refere a sua inspiração aos modelos de partido-movimento da França, não se refira ao Em marcha. O Em Macha é um PARTIDO POLÍTICO social-liberal fundado em 2016. Em nota: partido-movimento é uma junção entre movimento social e partido político, algo que não existe no Podemos brasileiro. O “partido-movimento” tem como “raízes” a ética Ubuntu, conceito africano de “rompimento com o individualismo”.  Sem mais.

 

Aconselho, para um maior aprofundamento, procurar os trabalhos da professora doutora Rose Segurado, especialista no Podemos.

Meu artigo e do Vander no site Congresso em Foco.

 

“A tendência do espetáculo de tudo absorver, potencializada pela mídia, esbarra, desse modo, em limites de realização. Como foi no caso da jornalista Vera Magalhães, no episódio do vazamento do áudio do presidente Michel Temer, que, percebendo o “efeito manada” nos comentários, logo fez um mea culpa. Digno. Nesse processo de mídia, política e espetáculo, entendemos que, com todo o jogo de poder e imagens, ainda cabe à imprensa brasileira um papel de destaque, de protagonismo no cenário político. Como diria Millôr Fernandes: “A imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

A nossa imprensa ainda produz, sim, jornalismo investigativo de qualidade

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Golpe de 64 e a crise de 2015: o que pensam os intelectuais brasileiros?

Está disponível na Amazon o meu trabalho e da Vivian Paixão sobre o Golpe de 1964 e a crise que culminou com o impeachment da presidente Dilma.

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Selecionamos os principais nomes de 64, os pensadores de 2015, e percebemos que a maioria ainda estava na ativa. Foi então que resolvemos tentar contato com esses pensadores. E, foi aí que contamos com uma rede de amigos que não podemos deixar de mencionar: Moacyr Lopes Junior, fotógrafo da Folha de S. Paulo, Rosane de Oliveira, editora de política do jornal Zero Hora, Maristela Unfer, editora da Sulina, Luciano Martins, jornalista e Carina Fernandes, professora da prefeitura de São Paulo. Sem essas pessoas, esse trabalho não teria passado de meros devaneios.

Fomos duas vezes ao Rio de Janeiro. Uma para entrevistar Carlos Heitor Cony, outra para entrevistar Ferreira Gullar. Fomos a Porto Alegre para conversar com Juremir Machado da Silva, autor do Golpe Civil Midiático Militar. Conversamos pelo Skype com Alberto Dines e fomos ao encontro do Frei Betto em São Paulo.

Foi um período de intensa pesquisa, de descobertas e muita empolgação. Mergulhamos nesse trabalho. O livro está no formato das entrevistas. Achamos que seria melhor preservarmos cada palavra. Não temos nenhuma pretensão fantástica com esse trabalho. Queremos, sim, contribuir para as pesquisas sobre o golpe de 64 e sobre a crise de 2015, que desencadeou no impeachment de uma presidente. Acreditamos que nossas conversas podem ajudar interessados e pesquisadores a entender quem são os intelectuais que pensam as crises brasileiras.

 

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4º Seminário Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo

A Faculdade Cásper Líbero convida a todos para a 4ª edição do Seminário Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo. Organizada pelo Grupo de Pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo, nesta edição o seminário apresentará pesquisas a respeito da política na sociedade do espetáculo e seus vínculos com a comunicação.

O foco principal do seminário, em 2016, é uma tentativa de compreensão do processo de espetacularização do ódio e de judicialização da política, que caracteriza a sociedade brasileira contemporânea, e de como a atuação das diferentes mídias contribui para este processo. Visando esta compreensão, serão analisados produtos midiáticos específicos, movimentos políticos, campanhas eleitorais, entre outros.

O evento contará com a presença, além de participantes vinculados à Cásper Líbero, de docentes e pesquisadores vinculados ao NEAMP – Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC de São Paulo.

Mais informações AQUI

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Texto na Alterjor

Meu trabalho A queda: os últimos meses de Dilma Rousseff pelas páginas do jornal Folha de S. Paulo foi publicado na Revista Alterjor. Também tem texto da Mara Rovida, doutora e colega do grupo Comunicação e Política na Sociedade do Espetáculo.

 

Resumo: Este trabalho analisa a cobertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff de acordo com o jornal Folha de S. Paulo. Nossa análise teve início em 15 de abril de 2016, dia em que os deputados abriram uma sessão para verificar a admissibilidade do processo, até 31 de agosto de 2016, quando os senadores votaram pelo afastamento definitivo da então presidente. Analisamos a editoria Poder do jornal e nos apoiamos nas teorias de agendamento e enquadramento.

 

PALAVRAS-CHAVE: Comunicação. Dilma Rousseff. Impeachment. Mídia. Política.

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"A história vai fazer justiça com Itamar Franco", diz ex-senador Pedro Simon

Meu colega Rodrigo Estramanho e eu conversamos hoje com o ex-senador pelo Rio Grande do Sul, Pedro Simon. A conversa faz parte das pesquisas do  Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP), da PUC-SP, que realiza uma pesquisa científica intitulada Lideranças Políticas, com financiamento da FAPESP.

Um resumo da conversa de duas horas.

Em duas horas de conversa, Simon afirmou que a Operação Lava-Jato “é uma das melhores coisas que aconteceram na história do país”. Disse que “com tantos ‘nunca antes na história desse país’, nunca vimos tantos figurões sendo presos”. O ex-senador comentou o péssimo momento que o Rio Grande do Sul vive na sua política: “O Sartori (governador) não pode nem sair na rua que será apedrejado. Mas o Estado está um horror. É lamentável ver o Rio Grande assim”.

Aposentado da política (ele só concorreu ao Senado em 2015 por pressão do partido), agora percorre o país palestrando e “chamando os jovens para as ruas”, como ele mesmo disse. Para Simon, a história deve justiça ao ex-presidente Itamar Franco, “o melhor presidente que o Brasil já teve”.

Disse que a primeira vez que conversou com Collor percebeu que ali não haveria um presidente de fato. “Essas coisas tu percebes. Era só ele. Não tinha apoio. Eu só ouvia sobre ele que havia feito um casamento com ostentação”.

Entre as brincadeiras, Simon afirmou: “O Tancredo morreu e ficou em dívida conosco. Poderia ter feito muito. E, poderia ter levado o Sarney”.

Agradecemos ao assessor do ex-senador, Renato, que foi muito gentil conosco e nos ajudou na pesquisa para a PUC.

Financiadora da pesquisa: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Coordenadora– Profª Drª Vera Lúcia Michalany Chaia – PUC-SP

 

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Em nome de Deus, da família e do espetáculo

 Aliás – Estadão 01/05/16 12:32

GABRIEL ZACARIAS – O ESTADO DE S.PAULO

O excesso de exposição pode ser uma arma perigosa aos políticos

Desde que se iniciou a crise política brasileira, diversas metáforas foram empregadas para descrevê-la, sempre ligadas ao âmbito dos espetáculos. Manifestantes foram comparados a torcedores de futebol, políticos a personagens de novelas e seriados. Antes de acontecer, a transmissão ao vivo da votação do processo de impeachment na Câmara foi antecipada como uma final de campeonato. Após sua realização, porém, a metáfora que se impôs foi a do circo. Pouco justa com os artistas circenses, cujas peripécias são muito menos trucadas do que a dos políticos nacionais, pareceu todavia transmitir bem a imagem de espetáculo barato, rumoroso e deselegante que caracterizou a votação no plenário. Cabe, então, perguntar: porque essas metáforas parecem se adequar tão bem à política? Qual a verdade de fundo por trás da simples piada?

Se retomarmos a caracterização da sociedade contemporânea como uma “sociedade do espetáculo”, talvez possamos responder tais perguntas. Quando propôs essa expressão pela primeira vez, na década de 1960, o pensador francês Guy Debord não se referia simplesmente à mídia – que considerava apenas a manifestação “superficial” e “mais esmagadora” do espetáculo. Com o conceito de espetáculo abarcava um fenômeno social total, ou seja, um “conjunto de relações sociais mediadas por imagens”. Se na sociedade capitalista é o mercado que serve de instância unificadora das atividades sociais, as relações sociais se estabelecendo em torno à produção e ao consumo de mercadorias, na sociedade do espetáculo essas relações se estabelecem também em torno à produção e ao consumo de imagens. Debord vê a sociedade do espetáculo como um desdobramento da sociedade capitalista. Assim, é a hiperespecialização do trabalho no capitalismo que, restringindo a experiência quotidiana à realização de uma tarefa muito específica e repetitiva, torna necessário o consumo imaginário de outras experiências – o que fazemos, por exemplo, quando nos identificamos aos protagonistas de enredos declaradamente fictícios (como telenovelas) ou supostamente reais (como a vida de celebridades).

Sucesso midiático e eleitoral. Como parte da sociedade do espetáculo, a democracia representativa é orientada pela mesma lógica espetacular, o sucesso eleitoral de políticos sendo proporcional ao grau de identificação que conseguem arrebatar através de sua exposição midiática. Não é à toa que cada vez mais as fronteiras entre políticos profissionais e celebridades pareçam se confundir.

Tomemos o exemplo de alguns dos membros mais célebres do Congresso. Durante seu mandato anterior, o deputado federal Jair Bolsonaro – aquele que em seu voto pró-impeachment homenageou um torturador – conseguiu aumentar sua exposição nas mídias por conta de declarações ofensivas, sexistas e homofóbicas, o que lhe garantiu o terceiro maior eleitorado para a Câmara nas últimas eleições.

No polo oposto, Jean Wyllys, internacionalmente reconhecido pela defesa da comunidade LGBT, antes de ser deputado havia sido vencedor de um reality show de televisão. Tiririca, único palhaço profissional no circo em questão, também chegou ali por conta de seu sucesso televisivo. E sequer precisou aderir a uma causa política. Foi eleito em 2010 com slogans de campanha cínicos, como “Tiririca, pior do que está não fica”, e “Você sabe o que faz um deputado? Vote em mim que eu te conto”.

Se Tiririca tivesse contado, talvez não tivesse sido reeleito. Ao menos a julgar pelo impacto negativo que a exposição da Câmara produziu nas redes sociais. Segundo pesquisa de Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, as postagens em língua portuguesa no Twitter, particularmente intensas no dia 17, durante a votação, extrapolaram a polarização em torno do impeachment, em favor de um repúdio generalizado ao ritual transmitido pela televisão.

A lógica da exposição espetacular parece ter se chocado à opacidade habitual da política brasileira. Para uma política feita de conchavos e ditada de cima para baixo, a exposição excessiva pode ser uma arma perigosa. Do ponto de vista da legitimação do sistema político, o impeachment pode ter sido um tiro pela culatra que, expondo despudoradamente o jogo de negociatas da Câmara, trouxe à tona uma parte da política que apenas subsiste por estar à sombra.

Contradições da sociedade do espetáculo. Debord havia notado na década de 1980 que uma regra original do espetáculo – de ser uma “imensa positividade” na qual “tudo que aparece é bom, tudo que é bom aparece” – dava agora lugar a uma valorização absoluta de tudo mostrar, bom ou ruim. Mas o valor supremo da exibição tem um preço, e a exposição demasiada pode minar o próprio espetáculo. Para quem assistiu ao circo do dia 17 de abril, o cinismo de deputados corruptos que falam contra a corrupção, a carência de argumentos políticos, a insistência monotemática em dedicar seu voto a Deus e à família podem ter funcionado como um efeito de distanciamento brechtiniano – rompendo o mecanismo de identificação e expondo os limites da representação.

 

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