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"A história vai fazer justiça com Itamar Franco", diz ex-senador Pedro Simon

Meu colega Rodrigo Estramanho e eu conversamos hoje com o ex-senador pelo Rio Grande do Sul, Pedro Simon. A conversa faz parte das pesquisas do  Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP), da PUC-SP, que realiza uma pesquisa científica intitulada Lideranças Políticas, com financiamento da FAPESP.

Um resumo da conversa de duas horas.

Em duas horas de conversa, Simon afirmou que a Operação Lava-Jato “é uma das melhores coisas que aconteceram na história do país”. Disse que “com tantos ‘nunca antes na história desse país’, nunca vimos tantos figurões sendo presos”. O ex-senador comentou o péssimo momento que o Rio Grande do Sul vive na sua política: “O Sartori (governador) não pode nem sair na rua que será apedrejado. Mas o Estado está um horror. É lamentável ver o Rio Grande assim”.

Aposentado da política (ele só concorreu ao Senado em 2015 por pressão do partido), agora percorre o país palestrando e “chamando os jovens para as ruas”, como ele mesmo disse. Para Simon, a história deve justiça ao ex-presidente Itamar Franco, “o melhor presidente que o Brasil já teve”.

Disse que a primeira vez que conversou com Collor percebeu que ali não haveria um presidente de fato. “Essas coisas tu percebes. Era só ele. Não tinha apoio. Eu só ouvia sobre ele que havia feito um casamento com ostentação”.

Entre as brincadeiras, Simon afirmou: “O Tancredo morreu e ficou em dívida conosco. Poderia ter feito muito. E, poderia ter levado o Sarney”.

Agradecemos ao assessor do ex-senador, Renato, que foi muito gentil conosco e nos ajudou na pesquisa para a PUC.

Financiadora da pesquisa: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Coordenadora– Profª Drª Vera Lúcia Michalany Chaia – PUC-SP

 

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Frei Betto dialoga com Deus e prevê a volta de Lula

Em artigo que ironiza os votos dos deputados a favor do impeachment, Frei Betto dialoga com Deus: “quem atrapalha a República são aqueles que catam mosquitos no olho alheio e vivem engolindo camelos”. Quanto à corrida pela Presidência, prevê a volta do ex-presidente Lula: “o maior eleitor dele se chama Michel Temer”, diz.

Deus e o Brasil

― Deus, o que o Senhor achou de tantos deputados acusados de corrupção invocarem seu santo nome em vão durante a votação do impeachment na Câmara?

― Pelo amor de Mim, um horror! Meu Filho se lembrou dos fariseus hipócritas, aquela raça de víboras.

― O Senhor não está sendo muito rigoroso? São todos cristãos!

― Cristãos eram também Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e Pinochet. Posso não me intrometer muito nas mazelas humanas, mas uma coisa é certa: ninguém me engana. Não vejo cara nem coração. Fico de olho é na intenção.

― Mas, pelo menos neste mundo tão descrente, foi um sinal de que ainda há quem creia no Senhor.

― Creem da boca para fora e de olho no dinheiro para dentro do bolso, ou de algum paraíso fiscal. Muitos ali adoram o bezerro de ouro, o Deus do poder, da soberba e da demagogia. Falam em paz e apoiam a bancada da bala. Pregam o amor ao próximo e estimulam a homofobia.

Carregam a Bíblia debaixo do braço e escorraçam de suas terras, para espalhar o gado, índios e quilombolas, pescadores e lavradores.

― Homossexualidade então não é pecado?

― Pecado é a falta de amor. Onde há amor, aí Me faço presente.

― Mas há textos bíblicos que condenam a homossexualidade.

― Sim, como há outros que mandam passar ao fio da espada adeptos de outras religiões, como hoje faz o Estado Islâmico. Cada texto precisa ser lido dentro de seu contexto. É no mínimo desonestidade intelectual tirar pretextos preconceituosos de versículos bíblicos escolhidos segundo motivações que negam a qualquer ser humano a ontológica sacralidade de ter sido criado à Minha imagem e semelhança.

― Mas o Senhor não se sente lisonjeado com a bancada da Bíblia?

― Nunca deu certo a religião pretender monitorar a política. Por isso meu filho entrou em choque com Pilatos e o Sinédrio judaico. Há quem julgue que o cristianismo converteu o Império Romano no século 4º. Foi contrário: Constantino logrou tornar a igreja uma instituição imperial.

E isso resultou na Inquisição, que pretendeu impor a fé a ferro e fogo, e em rupturas que hoje o papa Francisco tenta costurar. Política, Estado e partidos devem ser laicos. Todo fundamentalismo é nocivo. Lembre-se que meu filho acolheu a mulher samaritana, considerada herege pelos judeus; a mulher fenícia, tida como idólatra; o centurião romano, adepto do paganismo. Sempre ressaltando a importância da tolerância religiosa.

― Deus, o Brasil tem jeito?

― Não enquanto houver estruturas injustas. Não importa quem venha a governá-lo. Podem até colocar remendos novos em pano velho, como esses programas sociais compensatórios. Aliviam, mas não emancipam. Coço minha longa barba e pergunto: como, após 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, ainda há tantos sem-terra e sem-teto?

― E das pedaladas da Dilma, o que acha o Senhor?

― Ela faz muito bem de dar suas pedaladas matinais. Bicicleta não polui nem congestiona o trânsito. Quem atrapalha a República são aqueles que catam mosquitos no olho alheio e vivem engolindo camelos.

― Uma curiosidade, Senhor, já que És um ser onisciente: o Lula voltará à Presidência?

― O maior eleitor dele se chama Michel Temer.

― O que vai dar no Senado?

― Esse futuro, felizmente, a Mim não pertence! Respeito a liberdade de voto dos senadores. E que tenham presente que estarão votando também na moldura que haverá de enquadrar suas biografias nas páginas da história do Brasil.

― Deus é brasileiro?

― Também, e vota na justiça como fonte de paz.

 

Fonte: Brasil 247

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Em nome de Deus, da família e do espetáculo

 Aliás – Estadão 01/05/16 12:32

GABRIEL ZACARIAS – O ESTADO DE S.PAULO

O excesso de exposição pode ser uma arma perigosa aos políticos

Desde que se iniciou a crise política brasileira, diversas metáforas foram empregadas para descrevê-la, sempre ligadas ao âmbito dos espetáculos. Manifestantes foram comparados a torcedores de futebol, políticos a personagens de novelas e seriados. Antes de acontecer, a transmissão ao vivo da votação do processo de impeachment na Câmara foi antecipada como uma final de campeonato. Após sua realização, porém, a metáfora que se impôs foi a do circo. Pouco justa com os artistas circenses, cujas peripécias são muito menos trucadas do que a dos políticos nacionais, pareceu todavia transmitir bem a imagem de espetáculo barato, rumoroso e deselegante que caracterizou a votação no plenário. Cabe, então, perguntar: porque essas metáforas parecem se adequar tão bem à política? Qual a verdade de fundo por trás da simples piada?

Se retomarmos a caracterização da sociedade contemporânea como uma “sociedade do espetáculo”, talvez possamos responder tais perguntas. Quando propôs essa expressão pela primeira vez, na década de 1960, o pensador francês Guy Debord não se referia simplesmente à mídia – que considerava apenas a manifestação “superficial” e “mais esmagadora” do espetáculo. Com o conceito de espetáculo abarcava um fenômeno social total, ou seja, um “conjunto de relações sociais mediadas por imagens”. Se na sociedade capitalista é o mercado que serve de instância unificadora das atividades sociais, as relações sociais se estabelecendo em torno à produção e ao consumo de mercadorias, na sociedade do espetáculo essas relações se estabelecem também em torno à produção e ao consumo de imagens. Debord vê a sociedade do espetáculo como um desdobramento da sociedade capitalista. Assim, é a hiperespecialização do trabalho no capitalismo que, restringindo a experiência quotidiana à realização de uma tarefa muito específica e repetitiva, torna necessário o consumo imaginário de outras experiências – o que fazemos, por exemplo, quando nos identificamos aos protagonistas de enredos declaradamente fictícios (como telenovelas) ou supostamente reais (como a vida de celebridades).

Sucesso midiático e eleitoral. Como parte da sociedade do espetáculo, a democracia representativa é orientada pela mesma lógica espetacular, o sucesso eleitoral de políticos sendo proporcional ao grau de identificação que conseguem arrebatar através de sua exposição midiática. Não é à toa que cada vez mais as fronteiras entre políticos profissionais e celebridades pareçam se confundir.

Tomemos o exemplo de alguns dos membros mais célebres do Congresso. Durante seu mandato anterior, o deputado federal Jair Bolsonaro – aquele que em seu voto pró-impeachment homenageou um torturador – conseguiu aumentar sua exposição nas mídias por conta de declarações ofensivas, sexistas e homofóbicas, o que lhe garantiu o terceiro maior eleitorado para a Câmara nas últimas eleições.

No polo oposto, Jean Wyllys, internacionalmente reconhecido pela defesa da comunidade LGBT, antes de ser deputado havia sido vencedor de um reality show de televisão. Tiririca, único palhaço profissional no circo em questão, também chegou ali por conta de seu sucesso televisivo. E sequer precisou aderir a uma causa política. Foi eleito em 2010 com slogans de campanha cínicos, como “Tiririca, pior do que está não fica”, e “Você sabe o que faz um deputado? Vote em mim que eu te conto”.

Se Tiririca tivesse contado, talvez não tivesse sido reeleito. Ao menos a julgar pelo impacto negativo que a exposição da Câmara produziu nas redes sociais. Segundo pesquisa de Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, as postagens em língua portuguesa no Twitter, particularmente intensas no dia 17, durante a votação, extrapolaram a polarização em torno do impeachment, em favor de um repúdio generalizado ao ritual transmitido pela televisão.

A lógica da exposição espetacular parece ter se chocado à opacidade habitual da política brasileira. Para uma política feita de conchavos e ditada de cima para baixo, a exposição excessiva pode ser uma arma perigosa. Do ponto de vista da legitimação do sistema político, o impeachment pode ter sido um tiro pela culatra que, expondo despudoradamente o jogo de negociatas da Câmara, trouxe à tona uma parte da política que apenas subsiste por estar à sombra.

Contradições da sociedade do espetáculo. Debord havia notado na década de 1980 que uma regra original do espetáculo – de ser uma “imensa positividade” na qual “tudo que aparece é bom, tudo que é bom aparece” – dava agora lugar a uma valorização absoluta de tudo mostrar, bom ou ruim. Mas o valor supremo da exibição tem um preço, e a exposição demasiada pode minar o próprio espetáculo. Para quem assistiu ao circo do dia 17 de abril, o cinismo de deputados corruptos que falam contra a corrupção, a carência de argumentos políticos, a insistência monotemática em dedicar seu voto a Deus e à família podem ter funcionado como um efeito de distanciamento brechtiniano – rompendo o mecanismo de identificação e expondo os limites da representação.

 

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Alckmin critica Fapesp por pesquisas 'sem utilidade prática'

Mesmo sempre tendo trabalhado com política e partidos políticos tentei deixar qualquer pensamento partidário longe deste blog. A finalidade não é essa. Não é discutir ideologias. Minhas pesquisas nunca foram direcionadas. Graças aos meus professores, acredito ter conseguido manter um distanciamento ideológico na hora das análises que me fez muito bem. Mas uma informação que tem circulado o meio acadêmico me deixou bastante intrigada.

Primeiro, a notícia da Folha de S. Paulo, que originalmente foi dada pela Veja:

 

“Durante a última reunião com seu secretariado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), criticou a Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), principal órgão de financiamento à ciência no Estado, por priorizar estudos sem utilidade prática.

A informação foi revelada pela coluna Radar On-line, da “Veja”. Segundo a revista, Alckmin fez críticas à falta de apoio a estudos para o desenvolvimento da vacina da dengue e também ao incentivo a pesquisas de sociologia.

Folha confirmou a fala do governador, que disse que a Fapesp vive numa bolha acadêmica desconectada da realidade, financia estudos que muitas vezes não têm nenhuma serventia prática e gasta sem orientação maior. Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não quis comentar.”

Eu realmente não consigo acreditar nisso. É inviável um governador pensar desta maneira. Lembro muito das discussões com a Simonetta (minha  orientadora de mestrado) quando ela dizia que a academia valorizava mais as pesquisas da física, química e biologia, em detrimento das humanas. Mas aí a dizer que sociologia não tem relevância..me deixou sem reação. Mostra uma total falta de conhecimento dos estudos no país. Essa é nossa “pátria educadora”. Lamentável.

Abaixo, a nota de repúdio da ANPOCS.

“A diretoria da ANPOCS vem a público expressar sua estupefação diante das palavras do governador paulista, Geraldo Alckmin, em reunião com seu secretariado, noticiadas pela Folha de S. Paulo em 27/04/2016, referentes ao que reputa serem “projetos acadêmicos sem nenhuma relevância”, no bojo dos quais inclui as pesquisas da área de sociologia. Tal entendimento do campo científico e acadêmico revela um governante que desconhece não apenas a natureza da pesquisa básica de um modo geral, como das humanidades, e m particular. O governador se mostra também desinformado sobre os gastos de uma agência de fomento sob a sua jurisdição, pois o investimento em pesquisas nas áreas de humanas correspondem a apenas um décimo do orçamento da FAPESP e sua contemplação de forma alguma se constitui num impeditivo ao fomento à pesquisa em outras áreas. O Relatório FAPESP 2014, último publicado, traz a seguinte informação:
“A Fundação apoia pesquisas em todas as áreas de conhecimento. Em 2014, como historicamente tem ocorrido, a área de Saúde foi a que recebeu a maior parte dos recursos (28,56%) (…) Em segundo lugar, com 15,87% do total, veio a Biologia, seguida das Ciências humanas e sociais (10,44%), Engenharia (10,27%) e Agronomia e veterinária (8,21%) e as demais. Somadas, Saúde, Biologia, Agronomia e veterinária, as chamadas Ciências da Vida, receberam, portanto, em 2014, pouco mais da metade (52,64%) do desembolso da FAPESP.” 
(FAPESP, Relatório de Atividades 2014, p. 7.)
O desenvolvimento de uma sociedade requer o avanço do conhecimento nos mais diversos campos científicos e tecnológicos, dos quais evidentemente não se pode excluir o imprescindível conhecimento sobre a própria sociedade. É surpreendente que na atual quadra histórica seja ainda preciso relembrar isto, mormente, quando a necessidade de tal lembrança decorre da manifestação de preconceitos por parte de um governante.”

 

Update: Aí a gente recebe esse e-mail:

 

“Prezado(a) Senhor(a),

Comunicamos que a análise e julgamento de sua solicitação, ao Calendário 2016 de Bolsas no exterior do CNPq, estão, temporariamente, suspensos.

Atenciosamente,

Diretoria Executiva do CNPq”

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Debord e o hiperespetáculo

Apesar dos autores de minha tese morarem muito distante do condado maravilhoso onde habita Debord (acredito que minha tese reside em Mordor), de umas semanas para cá, tenho me deparado com frequência com escritas debordianas. E, some-se a isso as aulas do professor Juremir Machado da Silva, resolvi reler Guy Debord: antes e depois do espetáculo, organizado pelo próprio Juremir e pela professora Cristiane Freitas Gutfreind.

Tinha esquecido da frase impactante (como não poderia deixar de ser) do professor:  “Guy Debord é o homem do século. Passado”. (p. 37). Numa primeira impressão, para uma apaixonada por Debord como eu, essa frase quase mata. Mas aí o texto desenrola com, me desculpem a empolgação, a maestria que só o professor Juremir tem:  não  vivemos mais na era do espetáculo, mas do hiperespetáculo. O espetáculo era marcado por uma contemplação passiva por parte do indivíduo, do espectador, com relação às imagens midiáticas. Essa contemplação teria como objeto um outro distante, idealizado, “superior” – inalcançável. Seria, portanto, um estágio de manipulação, de “servidão voluntária”. Já no hiperespetáculo, segundo o autor, a contemplação continua. Mas é, agora, uma contemplação de si mesmo em um outro, em princípio, plenamente alcançável, semelhante ou igual ao contemplador.

Entendo que, para os autores do livro, o espetáculo é o mundo transformado em economia. Dessa premissa, Tonin (2007), também compartilha.

 

Na sociedade do espetáculo, o sujeito trabalha para ser merecedor de férias, de poder, de consumo. São instâncias apresentadas como subprodutos, finalidades do próprio trabalho, instâncias consumíveis, amplamente vendidas como de possível acesso por todos. E, o que é mais radical, como se o indivíduo fosse capaz de encontrar a felicidade nelas. Para Debord, nada escapa à lógica espetacular do consumo. O espetáculo é o supermercado onde se compram rotinas, valores, lugares, prazeres que perambulam entre produtos multifacetados. (TONIN, 2007, p.51).

Juremir afirma que “[…] em que todos devem ter direito ao sucesso, os famosos simulam uma superioridade fictícia. São tanto mais adorados quanto menos se diferenciam realmente de seus fãs” (SILVA, 2007, p.31).

Ainda segundo este autor (2007, p.31), se o hiperespetáculo não é a eliminação do espetáculo, mas sua aceleração “[…] plasmada no bandido que sorri para a câmera antes de atirar, ou no aumento dos rendimentos da Ciccareli depois de ser filmada, puxando o biquíni para receber, em uma praia espanhola, ‘o doce veneno do escorpião’”, o que dizer da recente aparição de Lady Gaga na cerimônia do Video Music Awards (VMA) usando um vestido feito de carne, cuja estética já virou tendência em Nova York? Trata-se de uma imagem que procura satisfazer quais necessidades humanas?

Em tempos de pós-modernidade ou sociedade “medíocre”, em que o espetáculo, segundo Chaui, converte-se em simulacro e o simulacro se põe como entretenimento; os velhos e novos “trajes”, o sofrimento dos humanos e dos animais, as catástrofes naturais, a política, as festas, guerras, cerimônias religiosas, tudo se converte, por intermédio das velhas e novas mídias em (hiper)espetáculo, em entretenimento e “deserção do real”.

Referências

SILVA, Andréa Tubero.Resenha da obra: GUTFREIND, Cristiane Freitas; SILVA, Juremir Machado da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. 172 p.

TONIN, J. A imagem em Guy Debord. In: GUTFREIND, C. F.; SILVA, J. M. da. Guy Debord: antes e depois do espetáculo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p.46-60.

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O triste espetáculo da “democracia sem demos”

05/04/2016 –www.outraspalavras.net

Apoiando-se em Marx, Lacan e Ernesto Laclau, pesquisador grego examina movimento do capitalismo para reduzir política a teatro comandado por medo, consumismo fútil, endividamento e controle social

Yannis Stavrakakis, entrevistado por Julia Goldenberg, em Pagina12 | Tradução: Inês Castilho

A cubana Dazra Novak escreve em seu último romance que “a democracia é um bálsamo vencido”; por outro lado Frank Underwood [personagem do seriado House of Cards], quando assume a presidência dos Estados Unidos, sentencia olhando para a câmara que a democracia está supervalorizada. Em extremos opostos, e por leituras contrárias, ambos suspeitam das falsas pretensões desta forma de governo. No mesmo sentido, a partir de uma perspectiva teórica, Yannis Stavrakakis retoma o conceito de “pós-democracia” – que surge na última década na sociologia e na teoria política – para referir-se a um funcionamento superficial dos mecanismos democráticos, acompanhado por uma queda da participação popular e uma forte centralidade do mercado e da mídia. Como indica Stravakakis, no processo pelo qual a política se apropria do Estado e toma a forma de um “estatismo a favor da mercantilização”, isto é, no qual todo o aparato estatal é colocado a serviço do mercado.

Stavrakakis estudou ciência política em Atenas e análise do discurso na Universidade de Essex, na Inglaterra, onde concluiu seu doutorado sob a supervisão de Ernesto Laclau. Trabalhou nas universidades de Essex e Nottingham. Atualmente é professor de análise do discurso política na Universidade Aristóteles, de Tessalônica na Grécia. Entre suas publicações figuram Lara e o político (Prometeu, 2007) e A esquerda lacaniana (Fundo de Cultura Econômica, 2010). É o principal investigador do projeto de investigação Populismus.

Para o cientista grego, a dívida pública e o predomínio das forças do mercado na política transformam as instituições e os laços sociais e substituem a soberania popular pela soberania do mercado.

Você retoma o conceito de “pós-democracia” como categoria de análise vigente. De acordo com essa perspectiva, como é possível reativar os mecanismos democráticos?

O termo “pós-democracia” surge na última década na sociologia e na teoria política para compreender conceitualmente e marcar criticamente as patologias contemporâneas da democracia liberal, sobretudo em relação às condições que o capitalismo tardio estabelece. Nesse tipo de regime, o aspecto formal das instituições democráticas permanece intacto: por exemplo, as eleições se desenvolvem normalmente para as transições de um governo a outro.

Ainda assim, o debate eleitoral transforma-se num espetáculo controlado, manipulado por especialistas e regulado pelos meios de comunicação dominantes, que selecionam os temas a tratar. A cidadania fica reduzida a um papel passivo. E quando se tenta realizar uma verdadeira mudança, (como na Grécia em 2015), os governos se dão conta de que o alcance dos seus movimentos está muito restringidao por instituições supranacionais supostamente independentes (o FMI, o Banco Mundial ou o Banco Central Europeu, por exemplo).

Nesse sentido, a política em tempos pós-democráticos é conduzida pela interação entre os governos eleitos e as instituições de elite, assim como pelos organismos que representam, majoritariamente, interesses mercantis. Esse predomínio das forças do mercado na política não é considerado escandaloso, como foi no passado. Algo que antes devia ser camuflado de alguma forma, agora de nenhuma maneira de esconde. Isso é assumido abertamente e, na verdade, as instituições públicas estão sobordinadas a esta dinâmica.

A nova gestão pública, nesse sentido, buscou reformar as instituições – hospitais, universidades etc. — de acordo com as tendências do setor privado. Por isso, pós-democracia significa “democracia sem demos”, como indicou Jacques Rancière, onde o o povo desaparece da cena política e seu papel na tomada de decisões é substituído por uma aristocracia tecnocrática, e a soberania popular é substituída pela soberania do mercado.

Em outras palavras, o “povo” é registrado na esfera política como a “população”, como um conjunto numérico de individualidades a ser administrado e disciplinado biopoliticamente. Quando as resistências emergem, quando as novas subjetividades democráticas e populares se formulam, suas demandas são denunciadas e desacreditadas sob a etiqueta de um “populismo” perigoso e irresponsável. Se a defesa das instituições democráticas e dos interesses populares leva hoje o nome de populismo, então talvez o populismo precise ser assumido e canalizado em direções progressistas.

Pode-se traçar uma delimitação geopolítica de acordo com esses conceitos?

O termo “pós-democracia” foi formulado por Collin Crouch e outros pesquisadores, a partir da experiência europeia. Não há dúvida, contudo, que captura uma dinâmica glogal, visível numa variedade de países e regiões. É por isso que se verifica tal amplitude do uso de “pós-democracia” e “pós-política”. Sendo suficientemente flexíveis desde seu início, os termos são empregados cada vez mais para descrever os fenômenos políticos em diversas regiões do mundo, fora do contexto da Europa Ocidental, essa terminologia surgiu originalmente.

Ao mesmo tempo, a crise global que começou em 2008 e teve como foco especialmente a Europa, revelou — por meio da implementação de certas medidas de “austeridade” draconianas — um novo aprofundamento da orientação pós-democática. Hoje a Europa parece estar diante de um novo desafio. Como se pode avaliar o estabelecimento e consolidação – por meio da crueldade – de uma sociedade de dívida neoliberal? Isso é sinal de um aprofundamento da pós-democria, ou antes significa uma passagem para além da pós-democriacia? Se for assim, em que ela se converteu, exatamente?

Ainda que não existam respostas conclusivas, as questões estão postas. Para compreender completamente nossa situação, é necessário levar em conta que o neoliberalismo alemão não deve ser confundido com o laissez-faire, com o resultado de uma ordem natural espontânea (a mão invisível do mercado), mas antes, como Foucault destacou, com uma vigilância permanente, atividade e intervenção. Esta intervenção é de uma natureza particular, muito diferente de, por exemplo, o Estado de Bem-Estar Social. Seu objetivo – frequentemente com imensa brutalidade – é estabelecer o marco para uma possível economia de mercado que intervém na população e reforma o próprio laço social.

Como alguns comentaristas não assinalaram, este é o estatismo sem Estado, estatismo a favor da mercantilização, acompanhado pela liquidação de toda a regulação do mercado e as relações trabalhistas etc. Também aqui, não é um movimento particular da Europa. Por exemplo, a América Latina está se aproximando agora deste modelo. O Chile é o exemplo que viveu uma imposição brutal de um sistema semelhante desde 1970. Estas são dinâmicas globais e só podem ser abordadas em plano global.

Isso significa que esse Estado se reduz à administração da dívida?

Desde a Grécia antiga, a dívida foi um instrumento de dominação e exploração, sempre muito brutal. Não devemos esquecer que o estabelecimento da democracia de Atenas está relacionada com um cancelamento da servidão da dívida, com Solon de Seisachteia. Sabemos também que a dívida funciona para estabelecer e reproduzir relações de dependência colonial.

Em muitas conjunturas históricas, as relações de dívida estruturam o laço social, sobredeterminando os modos particulares de dominação econômica e política. Quando isso acontece – e acontece porque a dívida funciona simultaneamente como uma força econômica, política e moral – é porque produz e condiciona tipos particulares de subjetividades individuais e coletivas, manipulando a dinâmica psicossocial da culpa, da vergonha e do sadismo. É nesses casos que falamos de “sociedades de dívida”.

Em décadas recentes, por exemplo, o pêndulo entre os dois espíritos de capitalismo típicos da modernidade – o primeiro espírito weberiano do ascetismo associado a uma “sociedade da proibição” e o segundo espírito de consumo associado a uma “sociedade de desfrute ordenado” – tomou uma forma marcada por uma dialética entre o estímulo ao crédito e a estigmatização da dívida. No caso da Grécia contemporânea – que não é um caso isolado – vimos como as forças institucionais promovem por sua vez todas estas opções.

No princípio, antes da crise, a acumulação da dívida estava permitida e inclusive se propagou no marco do “espírito consumista” do capitalismo; logo, as mesmas instituições elevaram a dívida a níveis patológicos, para que seja castigada com formas de servidão pós-modernas. Essas lógicas foram aplicadas tanto em nível subjetivo como em nível estatal. Em qualquer caso, a acumulação da dívida, assim como o castigo ao endividamento, constituem momentos contraditórios do mesmo mecanismo, e só deixam a construção subjetiva a serviço da hierarquia social. Então, quando o laço entre os dois falha, inclusive o cancelamento da dívida e o perdão da dívida são chamados para sustentar a ordem social.

Para voltar à Grécia, muitos anos depois da crise, a troika também aceitou processos de reestruturação da dívida. Este cancelamento da dívida (parcial) falhou na hora de fazer alguma diferença real na viabilidade a longo prazo da dívida grega ou na situação atual do povo grego. As promessas de uma gestão mais sustentável da dívida, todavia, ainda são usadas como um chamariz para o futuro. Esta é a razão pela qual a experiência argentina continua sendo tão importante: porque a reestruturação da dívida não era um suporte publicitário ou uma concessão parcial oferecida em troca de uma continuidade das relações de dependência. Ao contrário, foi maciça, e foi imposta por um governo democrático-popular afirmando sua independência.

Por que você sustenta que é necessário estudar as políticas desenvolvidas na América do Sul?

Justamente porque essas políticas foram inicialmente introduzidas na América do Sul, as primeiras resistências também foram articuladas nesta região. Assim, o fim da ditadura de Pinochet no Chile, o colapso do pacto de Punto Fijo na Venezuela e o fracasso do neoliberalismo patrocinado pelo FMI na Argentina confluem numa série de projetos políticos que redirecionaram o equilíbrio do poder até a participação popular no processo de tomada de decisões, facilitando a incorporação socioeconômica dos setores empobrecidos e regulando os efeitos da globalização neoliberal.

Alguns comentaristas qualificaram esta tendência como “progressista”, de “esquerda” ou “populismo inclusivo”, com o objetivo de distinguir seu perfil e suas implicâncias políticas da extrema direita ou do “populismo excludente”, próprio da experiência europeia.

Minha opinião sobre o assunto é que a maioria dos movimentos de extrema direita nunca foram, estritamente falando, populistas, e não deveriam ser descritos como tais: seu principal ponto de referência é a “nação” – não num sentido anticolonial, mas num sentido étnico, inclusive racista do termo. Seu principal adversário não é 1% dos ricos mundiais, mas sim o outro étnico: o refugiado, o imigrante etc. De todo modo, a distinção entre a direita, o populismo excludente (o modelo europeu) e a esquerda, o populismo inclusivo (o modelo sul-americano), foi um primeiro passo, importante, no registro do potencial democrático das demandas populares e dos movimentos e partidos que os representam. O que também é interessante é que a crise econômica europeia e os efeitos de sua gestão neoliberal deslocaram o tradicional sistema de partidos de países como a Grécia, Espanha e Portugal, tornando possível a emergência de outros partidos.

Apresentam-se duas situações: a primeira, em que os países europeus – especialmente os que integram a zona do euro – estão mais limitados em suas opções devido ao avanço da integração transnacional, algo que limita severamente o poder de suas negociações e suas chances de desafiar minimamente a hegemonia liberal paneuropeia (por exemplo, a transformação do rotundo NÃO do referendo grego de julho de 2015, num novo memorando de acordo com a troika).

Creio que só uma tendência igualitária que abarcasse uma grande variedade de países europeus poderia reverter essa situação. Dito de outro modo, unicamente se a Espanha e outros países seguirem a Grécia e Portugal haverá algum tipo de esperança. O segundo desafio é que estes projetos devem refletir sobre as limitações de projetos similares na América do Sul, os quais deviam encarar as recentes derrotas eleitorais como no caso da Argentina e da Venezuela.

É possível aprender com seus feitos e também com seus fracassos, mais evidentes no caso venezuelano? Com sua incapacidade para introduzir um modelo econômico sustentável? Com seu fracasso na hora de substituir lideranças carismáticas por uma crescente participação das instituições? Com suas dificuldades para cultivar um novo ethos democrático político e novos tipos de desejo e consumo capazes de reduzir nossa dependência da globalização neoliberal?

Então, seria possível pensar uma saída regional também para a América do Sul?

Este é um enorme desafio para todas as forças que se opõem ao neoliberalismo pos-democrático. Evidentemente, não devemos esquecer que o problema – a falta de coordenação transnacional – sempre esteve presente e é obviamente muito difícil de enfrentá-lo. Do mesmo modo, um “internacionalismo” baseado na ONU tem demonstrado frequentemente ser impotente e o problema da dívida é um bom exemplo disso. De alguma maneira, as forças pós-democráticas institucionais podem mover-se com eficiência entre a orquestração da ação transnacional e, ao mesmo tempo, a manipulação das sensibilidades nacionais, quando for necessário.

A velha estratégia colonialista de “dividir para reinar” é sempre útil. Em contraste, a longa história dos movimentos de resistência demonstrou que é extremamente difícil articular o pensamento e a ação simultânea em plano nacional e internacional. Sem dúvida, algumas medidas tais como a aprovação na ONU do marco legal para os processos de reestruturação da dívida soberana – impulsionada pela Argentina – têm impacto em qualquer parte do mundo.

Que consequências traz a neutralização do antagonismo político próprio da pós-democracia?

A orientação pós-democrática marginaliza o antagonismo político, priorizando uma perspectiva tecnocrática das questões em jogo e fingindo uma falta de alternativa. O mais importante não é seguir as prescrições universais das políticas neoliberais, mas sim desfrutar delas! Sem dúvida, os efeitos secundários deste tipo de políticas – geralmente impostas a  pretexto de reduzir uma dívida artificialmente inflada – incluem desemprego maciço; queda dos salários, das aposentadorias e dos programas sociais; perda de direitos sociais e trabalhistas; uma espiral descendente da mobilidade social; a expulsão dos cidadãos dos processos tomada de decisão. Em seguida, surgem necessariamente a indignação e o protesto. A necessidade de questionar e criticar, junto com a necessidade de limitar a concentração do poder em mãos das elites irresponsáveis.

John Keane falou sobre o que chama de “democracias monitoradas”, que é um uso pragmático dos procedimentos democráticos, baseados numa pressão pública para combater a concentração de um poder inexplicável. Aqui, os mecanismos de representação da sociedade civil combinam-se com formas inovadoras de monitoramento público do exercício do poder e do controle da corrupção.

Sem dúvida, isso não deve confundir nossas práticas democráticas e convertê-las num marco meramente defensivo. Se a democracia está reduzida a uma variedade de monitoramentos e mecanismos de controle, que lidam com um poder visto como ilegítimo, então a “soberania popular”, base da nossa tradição democrática, será perdida para sempre ao invés de ser rejuvenescida. Meu medo é que a última implicação do argumento da “democracia monitorada” poder ser a legitimação indireta de uma teoria elitista, inclusive da volta ao liberalismo oligárquico.

Nisto devemos ser claros: a democracia supõe um autogoverno no nível mais básico: trata-se de uma demanda pela igualdade de direitos e de participação na tomada de decisões que envolve a totalidade dos cidadãos. Sem dúvida, não podemos esperar que os cidadãos estejam sempre alertas, dispostos a dedicar seu tempo e sua energia em debater e decidir sobre todas as coisas. É por isso que os gregos antigos estabeleceram um conjunto de prêmios para a participação e um conjunto de castigos para quem não participava da vida democrática pública.

Sabemos, além disso, por Maquiavel, que uma dificuldade aqui tem a ver com o desejo: em oposição ao desejo dos ricos e poderosos, que é um desejo de “mais e mais”, o desejo do povo, dos marginalizados e oprimidos é um desejo definido negativamente. O povo primeiro deseja “não ser dominado”; certamente deseja não sê-lo de maneira brutal, antidemocrática e pouco digna. É por isso que as lutas populares enfrentam dificuldades no estabelecimento de suas metas e, paradoxalmente, tendem a aceitar os objetivos de seus adversários. Quer dizer, quando um povo previamente empobrecido e excluído recupera, por exemplo, um status de classe média, pode acontecer que chegue a negar sua situação passada e comece a comportar-se de maneira hierárquica, elitista e excludente.

Em outra entrevista você assinalou que os regimes políticos europeus são débeis porque o mercado ocupa um lugar central, mas como nenhuma pessoa pode apaixonar-se pelo mercado, isso fica facilmente debilitado. Sem dúvida, os vaivéns da economia mostram que o mercado também se apaixona.

Se nos concentramos nas regiões que mencionamos, Europa (com sua crise econômica centrada especialmente no sul) e América do Sul, podemos dizer que vivem uma trajetória semelhante, mas com uma disposição distinta das etapas históricas. A Europa, por exemplo, enfrenta uma crise parecida com a que levou a Argentina ao calote. Com o domínio do ordoliberalismo alemão, baseado na chantagem e na extorsão, num “consentimento” forçado, no qual a dívida funciona como o instrumento principal de disciplina subjetiva e coletiva.

Enquanto que na Argentina, logo depois de passar pelo colapso de um sistema construído em torno da dívida e da coerção, e tendo logo reconstruído sua economia e a democracia, atualmente parecem haver esquecido as dificuldades do passado e voltado a abraçar as promessas de um futuro dominado por um consumo neoliberal imaginário. Isso significa que muitos setores na Argentina optaram por um retorno à “normalidade”, uma volta ao capitalismo tardio. Não há nada de extremamente fora do comum em tudo isso. Como sabemos graças a Jacques Lacan, as pessoas desejam o que lhes falta. O objeto que cumpre essa função não é eterno nem fixo, está histórica e culturalmente determinado. O mais importante, também pode mudar da esfera política à esfera privada. Em seu livro Circunstancias cambiantes, Albert Hirschman demonstrou como nossa vida pode seguir um ritmo circular, passando por períodos de uma intensa participação pública inspirada em ideais altruístas, ou por uma despolitização extrema nos períodos em que o interesse individual e a realização pessoal têm prioridade.

http://outraspalavras.net/capa/o-triste-espetaculo-da-democracia-sem-demos/

 

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II Encoi – Encontro Nacional de Pesquisa em Comunicação e Imagem

A UEL é fantástica quando o assunto é imagem!!! Mais um Encontro sobre o assunto pra gente discutir esse tema fantástico. Segue a chamada:

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O Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) convida pesquisadores brasileiros e estrangeiros para o II Encontro Nacional de Pesquisa e Comunicação e Imagem (ENCOI).

Nesta edição, o evento consolida-se como um espaço acadêmico que busca aprofundamento teórico e metodológico no estudo das interfaces imagem/mídia, um campo cujas bases epistemológicas ainda são movediças.

Assim, a imagem, em sua expressão midiática, deverá ser debatida a partir de eixos como semiótica, cinema, imaginário, cultura, educação, ideologia, história e estética, tornando clara a natureza complexa e interdisciplinar da produção visual na comunicação contemporânea.

Envio de trabalhos
Resumos expandidos – 08/04
Resultado – 25/04

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Pesquisadora encontra solidariedade no trânsito de São Paulo ao discutir o papel de mediação social dos jornalistas

A mobilidade urbana se tornou um dos temas mais recorrentes na discussão urbana contemporânea, tanto na esfera acadêmica como na jornalística. O ponto de maior visibilidade desse debate é, certamente, a característica caótica e, em grande medida, conflituosa do trânsito.

Na contramão dessa perspectiva, a professora e jornalista Mara Rovida observa a dimensão solidária presente na cobertura e nas narrativas apresentadas por repórteres que atuam diretamente no espaço urbano. A reflexão sobre essa possibilidade e o mergulho empírico nessa realidade resultou em Jornalismo em trânsito: o diálogo social solidário no espaço urbano, lançamento da EdUFSCar.

Buscando em Émile Durkheim o conceito de solidariedade orgânica, Mara discute o que está além da fragmentação típica das sociedades capitalistas modernas. Da Comunicação Social, traz a ideia de dialogia jornalística de Cremilda Medina, o jornalismo como um espaço de encontro das diversidades. Trafega assim entre a Sociologia e a reflexão sobre a prática jornalística em busca do diálogo social solidário.

Contrapondo sua proposta com as falas padronizadas e repetitivas sobre as condições do trânsito, Mara se volta para outra possibilidade narrativa: uma que desvenda a diversidade dos personagens e seus conflitos e disputas, mas que, principalmente, possibilita o diálogo e a solidariedade entre estes sujeitos sociais. Neste caminho, busca responder, na segunda parte de Jornalismo em trânsito, que sociedade, que espaço urbano é este? Descobre então que o caótico cenário do trânsito de São Paulo é também um lugar de encontro, muitas vezes forçados e violentos, mas também de empatia e cumplicidade.

Na sequência, mergulha no cotidiano dos repórteres da Rádio SulAmérica Trânsito para compreender as relações e interações acionadas no processo de produção de suas narrativas. Nessa observação empírica, descobre, entre as narrativas da equipe, uma fala que contempla a perspectiva de um dos antagonistas mais emblemáticos do trânsito, o caminhoneiro. Daí, circula por São Paulo a bordo de caminhões, além de buscar informações de especialistas e órgãos responsáveis pelo controle do trânsito. Esta imersão, como registra Cremilda Medina no prefácio, possibilitou à autora um duplo protagonismo, como ouvinte e como jornalista, em relação à cobertura cotidiana do universo da cidade. O resultado é que, assim, “o diálogo social solidário deixou de ser uma chave conceitual para se tornar embate real nas ruas congestionadas, nas marginais e nas estradas de acesso a São Paulo”.

Sobre a autora – Mara Ferreira Rovida é doutora em Ciências da Comunicação pela USP, mestre em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Líbero e jornalista. Atualmente, faz parte do corpo docente das Faculdades Integradas Rio Branco, onde leciona disciplinas teóricas e laboratoriais no curso de jornalismo. É membro do grupo de pesquisa do CNPq Comunicação e Sociedade do Espetáculo e é autora de artigos publicados em periódicos de referência na área de Comunicação e de Ciências Sociais. (Foto: Carlos Eduardo Martini)

Título: Jornalismo em trânsito: o diálogo social solidário no espaço urbano
Autora: Mara Ferreira Rovida
Número de páginas: 254
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R$ 36,00
ISBN: 978-85-7600-420-2

Fonte: PLURICOM

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Reféns da magreza – o silêncio como inimigo do corpo

A professora da FIAM-FAAM, Helen Braun, me convidou para participar de uma banca de graduação da Mariana Lima (juntamente com a professora Maria Isabel Blanco). O trabalho dela se chama Reféns da magreza- o silêncio como inimigo do corpo, e trata da anorexia e bulimia. A professora Helen e sua orientanda se propuseram a analisar como os meios de comunicação contribuem para a discussão (ou não) desses temas.

Lendo o trabalho, comecei a pesquisar esse tema na mídia. E, fiquei um pouco impressionada ao perceber que isso não é discutido em ponto algum. Pelo contrário, tudo que a Mariana falou, que a mídia de certa forma esconde o debate por corroborar a prerrogativa de que mulher tem mesmo que ser magra, me parece muito evidente nas análises.

Por mais que haja uma maior abertura sobre o assunto da mulher plus size, ao mesmo tempo, somos invadidos por matérias falando como as mulheres são cada vez mais lindas sendo magras, e não é nem um pouco difícil encontrar uma matéria criticando uma celebridade que engordou. O politicamente correto que a mídia tenta empregar falando das plus size vai por água abaixo no momento em que tu acessas uma página de moda. Gisele Bündchen, do alto (literalmente) de seu 1.78m e 53 kg ainda é o modelo de mulher que a sociedade nos impõe.

Gigi Hadid, plus size?

Gigi Hadid, plus size?

Na mesma linha, não podemos esquecer do ódio dirigido às modelos consideradas “maiores” (e nem falo de plus size) como Gigi Hadid e Kate Upton. A verdade, é que nossa sociedade não está preparada para as mulheres gordinhas. Ser gordo ainda é feio, e o que a indústria impõe é que a mulher vista no máximo manequim 40. Nesse momento, volto às minhas leituras do Lipovetsky.

Parabéns à Mariana e à Helen, que levantaram um debate muito necessário e que a mídia ainda insiste em evitar.

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