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Todos como “ Homo Lattes ”? O Jurista, o Acadêmico e o “Homo Latteável”?

Por Alexandre Morais da Rosa*¹ e Alexandre Barbosa da Silva*²

Existem três personagens muito “na moda” no sistema jurídico e educacional do Brasil contemporâneo. Tratam-se do jurista, do acadêmico e do “ homo lattes ”, no plano meramente aparente, sem contar as agruras ideológicas apontadas por Roberto Lyra Filho[i], por exemplo.

O jurista, figura notável do direito ao longo dos séculos, é aquele que contribui para a construção de uma “ciência jurídica” prospectiva, reflexiva e que resulte na simbiótica ligação da teoria com a prática do direito, sempre com vista à edificação de um sistema jurídico democrático, coerente e eficaz.

O acadêmico, famoso por edificar teses que orientam os pensamentos dos também doutos e práticos jurídicos, envida sempre seus esforços para ensinar e auxiliar na melhoria da condição de aprendizado de alunos e demais atores do direito, muito embora as vezes seja difícil reconhecer-se tese em teses.

O mais novo elemento nessa cadeia de nomenclaturas subjetivas dos participantes da docência jurídica é o “ homo lattes ”. Trata-se de pessoa que dedica sua vida a preencher formulários públicos, enchendo-os de anotações que reduzam seu pensamento científico a números que, para os burocratas de plantão, significam conhecimento e produção acadêmica.

Pensa na lógica do rendimento, dos artigos publicados, enfim, da quantidade, reproduzindo-se com metâmeros no contexto atual. Operam na lógica do rendimento e da Imperatriz Leopoldinense, Escola de Samba Carioca, campeã em diversos carnavais, mas que simplesmente não empolgava a arquibancada, já que jogava com o regulamento no colo, como lembra Lenio Streck[ii].

Sergio Bruno Martins ao tratar dos critérios de seleção para professores de Universidades públicas, tece comentários sobre o “ homo lattes ”: “O Homo lattes tirando uma pilha de fotocópias comprobatórias e o professor convidado a contar pontos em currículos inchados nada mais são do que duas imagens extremas — mas tristemente normalizadas, porque corriqueiras — do que a academia está se tornando sob os auspícios do produtivismo e do objetivismo. Que formação intelectual pode advir desse contexto? Que ética do conhecimento está implícita aí? Que espécie de saber se pode esperar desse acadêmico burocratizado? Queremos acadêmicos conformados ao que já se conhece, ou capazes de abrir perspectivas críticas e científicas?”[iii]

As respostas a essas indagações parecem estar no cotidiano de todas as instituições de ensino superior, ou seja, ao invés de estimular o estudo aprofundado, crítico e substancial dos acadêmicos e juristas, o que se tem fomentado é a qualidade pela quantidade, de maneira que os números de publicações e participações em eventos – na maioria das vezes até mesmo de qualidade questionável – significará o quão “bom profissional” será o professor. Acrescente-se que o ensino do Direito passou, em Universidades ditas Eficientes, a ser “o estudo do que cairá na prova da OAB” (Se não está na prova da OAB não está no mundo)

Nicoleta Cavalcanti Pereira Rebel, em texto publicado no site da Associação Brasileira de Educação, deixa clara a preocupação com o modelo que se inseriu no país, fundado no produtivismo e no objetivismo: “Atualmente, enaltece-se o produtivismo pela exigência ao professor de uma produção excessiva, ressaltando-se o objetivismo, isto é, reduzindo-se o qualitativo a termos quantitativos. Vale mais o pesquisador que obtenha mais pontos referentes ao quantitativo de sua produção.”[iv]

A preocupação é que muitos dos bons professores, preocupados com a qualidade de seus textos, que precisam, exatamente para ser bons, ser gestados em ambiente adequado de coerência técnica e redacional, acabam por ser considerados como “de baixa produtividade”. De nada importa o quanto já tenham estudado, pesquisado, desenvolvido ideias, orientado trabalhos, se estas atividades não estiverem rigorosa e metodicamente inseridas nos “padrões” determinados. É a fúria do rendimento.

Não se olvida que o subjetivismo para a escolha de professores ou para a consideração sobre o que seja qualidade, não é algo bom. Mas objetivar em demasia, certamente, não torna, necessariamente, o processo melhor.

Uma vez mais, por necessário, mencione-se Nicoleta Cavalcanti Pereira Rabel: “A época em que o título de doutor agregava ao professor prestígio por si só, está passando, porque hoje se exige dele mais alguma coisa: produção em alta escala. É o “publish ou perish”, traduzido entre nós como “publicou ou pereceu”. O Homo Lattes é, pois, o ser humano do Currículo Lattes, onde os docentes expõem toda a sua produção, detalhadamente, numa luta para atender ao desenvolvimento a qualquer custo, luta esta imposta pelo Estado Brasileiro.”[v]

Lamentavelmente tem-se assistido a professores competentes, educadores de escol, sendo excluídos das lides acadêmicas sob o argumento da “baixa produtividade”. Não se pondera mais a titulação acadêmica ou a prática profissional que antes elevava o docente perante seus alunos, instituição de ensino e sociedade. Hoje, o acadêmico e o jurista estão em segundo plano. Importante mesmo é ser “ homo lattes ”, ainda que reproduzindo textos idênticos em diferentes revistas – muitas vezes estrangeiras – ou modificando trechos ao talante da conveniência dos “pontos” alcançáveis em seu currículo, muitas vezes para sobreviver à academia do rendimento. Há ranking, metas semestrais, pontos a se obter. Os Professores da lógica Imperatriz Leopoldinense triunfam.

Alexandre Morais da Rosa e Salah Khaled Jr. discorrem sobre o jurista cansado, que bem poderia ser o professor cansado: “Sobre o tema vale, então, pensar com Byung-Chul Han, coreano de nascimento e atualmente Professor de Filosofia da Faculdade de Artes de Berlin. O argumento de Han é o de que vivemos a “sociedade do cansaço” (La sociedad del cansancio. Barcelona: Herder, 2012) em que o sujeito se violenta a si mesmo, em constante guerra consigo mesmo, pois se trata do “sujeito de rendimento”, cuja crença pressuposta é a de que é livre, mas se queda, utilizando-se da metáfora de Prometeu, como sujeito da auto-exploração, em cansaço infinito.”[vi]

É preciso reconhecer e valorizar a história do professor, assim como sua preocupação com a qualificação constante e a frequente reinvenção de sua capacidade e técnicas pedagógicas, naquilo que Luis Alberto Warat chamava da possibilidade de efeito mágico da academia.

Indispensável que se fomente a qualidade do pensamento, ao contrário da repetição indiscriminada de “achismos” que infelizmente tem nutrido o direito de lições mal formuladas. A quantidade deve sucumbir diante da qualidade na produção jurídico-científica.

Faz-se necessário refletir sobre a educação jurídica que se quer no Brasil: se a dos “homo lattes” ou a dos juristas e acadêmicos que, na docência, orientem a construção e o livre desenvolvimento de personalidades aptas ao conhecimento jurídico mais sofisticado e de qualidade.

A escolha de hoje fará o resultado de amanhã, ainda que pela lógica do rendimento, professores medíocres teoricamente, com baixa capacidade de inovação, pela reprodução do mesmo em novas versões, na lógica leopoldinense do ensino, possam ouvir e se regozijar com um “NOTA DEZ”. Será que acreditam, mesmo, que são isso tudo? E você?


Notas e Referências:

[i] LYRA FILHO, Roberto. Por que estudar Direito, hoje? Brasília: Nair, 1984, p. 14 e 18: “Aprender o que é Direito nas “obras” da ideologia dominante só poderia, evidentemente, servir para um de dois fins: ou beijar o chicote com que apanhamos ou vibrá-lo no lombo dos mais pobres, como nos mande qualquer ditadura”. (…) “Por isto mesmo, eu os chamo, quando professores, de catedráulicos. Nas cátedras, são o tipo do àulico, isto é, de puxa-saco do Poder, sem o menor tezão espiritual”.

[ii] STRECK, Lenio. Em tempos de carnavalização, vale lembrar o maior folião epistêmico: Warat. “Warat, ao falar da carnavalização, rejeitava o carnaval do tipo-praticado-em-Pindorama, mormente o dos desfiles do Sambódromo. Não é disso que ele tratava. Por isso, inclusive, construí o conceito aplicado a alguns programas de Pós-Graduação em Direito: Imperatriz Leopoldinense. O Curso não é grande coisa; mas as alas isoladamente estão up to date. Joga segundo o regulamento. Mas isso não é carnaval. Como não é crítico o discurso institucionalizado. Warat tinha ojeriza a isso. Brincávamos: há cursos em que das 9 às 10 o professor se esfalfela falando em crítica jurídica; entra o professor de direito penal com um manual resumido (ou mastigado) debaixo do braço e esculhamba com tudo. Mas o Curso diz: “- nosso curso é crítico; tem até fulano que dá aula das 9 às 10”. Crítica institucionalizada. Daí a necessidade da crítica à crítica do direito. Só carnavalizando é que se poderia inverter tudo isso.”

[iii] Veja o texto do professor Sergio Bruno Martins, doutor em história da arte pela University College London, em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/08/02/homo-lattes-505601.asp Acesso em 23/06/2015.

[iv] http://www.abe1924.org.br/lermo-nos/309-homo-lattes Acesso em 23/06/2015.

[v] Idem.

[vi] http://emporiododireito.com.br/voce-e-um-jurista-cansado-alexandre-morais-da-rosa-e-salah-khaled-jr/Acesso em 25/06/2015.


*¹ – Alexandre Morais da Rosa é Professor de Processo Penal da UFSC e do Curso de Direito da UNIVALI-SC (mestrado e doutorado). Doutor em Direito (UFPR). Membro do Núcleo de Direito e Psicanálise da UFPR. Juiz de Direito (TJSC). Email: alexandremoraisdarosa@gmail.com  Facebook aqui 

*² – Alexandre Barbosa da Silva é doutor em Direito Civil pela UFPR. Professor na Univel e na Escola da Magistratura do Paraná. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Direito Civil-Constitucional “Virada de Copérnico” da UFPR. Procurador do Estado do Paraná.

FONTE: EMPÓRIO DO DIREITO

 

Vale a pena ler também:

“ É um crime o currículo Lattes ”, diz Marilena Chauí

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Onde, como e quando publicar

Muitos acadêmicos, principalmente mestrandos, têm perguntado onde publicar, como publicar…nessa história entrou minha amiga, colega de doutorado e de viagens a Congressos, a Merilyn Escobar. Com a grande ajuda dela, selecionamos alguns Congressos que ainda estão com a chamada aberta e revistas onde vocês podem mandar artigos. Esperamos que gostem!

*II Congresso internacional de História UEPG-UNICENTRO: Produção e Circulação do Conhecimento Histórico no Século XXI, evento que ocorrerá de 12 a 15 de maio de 2015 na Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná.

http://www.cih2015.eventos.dype.com.br/simposio/public

 

*Forum Brasileiro de Pos Graduação de Ciencia Politica UFF

http://www.forumcienciapolitica.com.br/

 

*III Congresso Iberoamericano de Arqueologia, Etnologia e Etno-história.
Inscrições até 30 de março! Dourados _MS

http://ciaee2015.com.br/

 

II Simpósio de Gênero e Sexualidade

Campo Grande – MS

https://sigesex.wordpress.com/

 

*ICOM –Cuba

http://www.icomcuba.com/

 

*III Congreso Uruguayo de Sociologia – resumos ate 10 abril

http://colegiodesociologos.org.uy/iii-congreso-uruguayo-de-sociologia/fechas-clave.html

 

*VI CIEAM – UNESP “Discursos, Identidades, Sexualidades” – 15 a 18/06/2015

O Ciclo Internacional de Estudos Antigos e Medievais, em sua sexta edição, será sediado na Faculdade de Ciências e Letras de Assis, campus da UNESP, entre os dias 15 e 18 de junho de 2015 em comemoração aos seus trinta anos na formação de pesquisadores.

O objetivo é reunir a comunidade científica nacional e internacional para o debate acadêmico em torno da temática “Discursos, Identidades e Sexualidades”, tão cara e atual às Ciências Humanas.

O evento contará com a presença de conferencistas e palestrantes do Brasil, dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, do Chile e da Argentina, além de proporcionar a oportunidade para pesquisadores oferecerem e participarem de minicursos e acompanhar mesas redondas. As apresentações de comunicações serão organizadas em simpósios temáticos.

Acesse o site para mais informações:
http://vicieam.wix.com/vicieam

Email: vicieam@yahoo.com.br

 

*Revista de Historia GNARUS

Chamada de artigos e resenhas

gnarusrevistadehistoria@gmail.com ou fgralha@hotmail.com

www.gnarusrevistadehistoria.com.br

 

 

*Chamada para publicar artigo e resenhas. Revista FOCO

Informamos que a revista está com chamada aberta até o dia 30 de abril para recebimento de artigos e resenhas para seu próximo número, com previsão de lançamento em julho de 2015.

Os artigos e as resenhas devem estar ligados aos seguintes campos de estudos: Administração; Administração Pública; Gestão Pública; Sociologia da Administração; Sociologia do trabalho; Recursos Humanos; Psicologia da Administração; Psicologia do trabalho; Economia empresarial e; demais áreas afins a Administração.

Acesse a revista e conheça as regras de submissão, disponível emhttp://www.novomilenio.br/Periodicos/index.php/foco/index

A submissão deve ser realizada exclusivamente pelo site da revista.

 

 

*(chamada para artigos)

A Revista de Direito da Cidade (ISSN 2317-7721), publicação eletrônica semestral de professores do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tem o prazer de anunciar que estará recebendo artigos e trabalhos para o seu novo número (vol. 07, nº 01, 2015) que será publicado em março de 2015.

Criada a partir da necessidade de estudos do direito a partir de matrizes multidisciplinares, a Revista de Direito da Cidade recebe, em fluxo contínuo, trabalhos sobre propriedade, história urbana e territorial, história fundiária, posse, planejamento urbano e regional no Brasil, habitação e políticas locais, segregação e mobilidade sócio-espacial, criminalidade, impactos econômicos dos grandes projetos urbanos e de megaeventos culturais e esportivos, violência urbana, regularização fundiária, Estatuto da Cidade, acesso à justiça, políticas urbanas, conflitos socioambientais, riscos ambientais, direito urbanístico, metropolização, dinâmicas intrametropolitanas, tributação ambiental, gestão participativa de programas e projetos, direito ambiental, Planos diretores municipais, regulação social, habitação popular, participação social, etc. e outras disciplinas que tenham o Direito da Cidade por objeto de estudo, dialogando, sempre, com a dogmática jurídica, âmbito de reflexão de notórias contribuições à matéria.

Com o propósito de promover maior participação e interação entre as pesquisas, convidamos os professores e alunos de pós-graduação a participarem da Revista, enviando seus trabalhos para a nossa próxima edição, lembrando que a Revista de Direito da Cidade recebe trabalhos em português, inglês e espanhol em fluxo contínuo, submetidos em nossa página eletrônica ( http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rdc/index ) ou através dos e-mails abaixo referidos de nossa Equipe Editorial.

Cabe ter em conta que a Revista de Direito da Cidade tem no debate multidisciplinar o escopo de sua política editorial, cujo conteúdo pode ser acessado através da página eletrônica: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rdc/index

Também estamos abrindo chamada para a participação de professores que queiram atuar na Revista Quaestio Iuris como Pareceristas Avaliadores na avaliação esporádica de artigos, que são enviados para parecer pelo sistema de submissão on line (parecer padrão de 02 laudas, avaliando os pontos positivos e negativos do artigo, aprovando, sugerindo correções ou não aceitando para publicação).

Se houver interesse na publicação de artigos ou na participação como pareceristas avaliadores, os mesmos deverão ser enviados pelo sistema da Revista ( http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rdc/index ) ou através dos e-mails abaixo referidos de nossa Equipe Editorial.

Agradecemos a disposição de todos de participar da Revista de Direito da Cidade e estamos à disposição para qualquer esclarecimento que seja necessário através de nosso email: revistadedircidade@gmail.com .

Atenciosamente,
Prof. Mauricio Mota
Editor Chefe da Revista de Direito da Cidade
Email: revistadedircidade@gmail.com
Claudia Tannus Gurgel do Amaral
Editora Assistente da Revista de Direito da Cidade
Email: revistadedircidade@gmail.com
Bianca Tomaino
Editora Executiva da Revista de Direito da Cidade
Email: revistadedircidade@gmail.com

 

 

Alceu: revista de comunicação, cultura e política (ISSN 1518-8728)

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro/Departamento de Comunicação Social

Contato: revistas@rdc.puc-rio.br

CPRI: CSAP1: B1; SO: B4; INT: B1

 

Brazilian Journalism Research (BJR) (ISSN 1981-9854)

Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)

Contato: beatrizbecker@uol.com.br (Ed. Executiva);  fernandoresende1501@gmail.com e tattianat@gmail.com (Ed. Adjuntos)

CPRI:  CSAP1: B1; SO: -; INT: B1

 

Comunicação & Educação (ISSN 0104-6829)

Especialização Gestão da Comunicação (ECA-USP)

Contato: comueduc@edu.usp.br

CPRI: -; CSAP1: B2; SO: B3; INT: B2

 

 

Baleia na Rede (ISSN 1808-8473)

Grupo de Pesquisa em Cinema e Literatura (UNESP)

Contato: baleia2010@uol.com.br

Qualis: CPRI: -, CSAP1:B4; SO: B5; INT: –

 

Cadernos de Estudos Sociais e Políticos (ISSN 2238-3425)

Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP)

Contato: cadernos@iesp.uerj.br

Qualis: CPRI: B5; CSAP1:B4; SO: B5

 

Contemporânea (ISSN 2236-532X )

Universidade Federal de São Carlos (Sociologia)

Contato:  revcontemporanea@gmail.com

Qualis: CPRI: B4, CSAP1: B3; SO: B1; INT: –

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Prof. Miguel Chaia e a época da reprodutibilidade acadêmica

Vocês já devem ter ouvido falar do livro “A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin. O texto mexe com o status da obra de arte, retirando-lhe o que Benjamin chamou de “aura”, ou seja, aquela característica que a torna única, a experiência da contemplação “aqui e agora”. Para além do artístico, o autor revela as consequências dessa revolução para os campos social e político.O que Benjamin chama em seu texto de “reprodutibilidade técnica” é, na verdade, a entrada do processo industrial na produção artística. A reprodutibilidade tira da obra de arte sua aura e com isso, eu diria, seu próprio status de obra de arte.

Em 2013 fiz vários posts falando sobre a exigência que nós, pesquisadores, temos de produzir, produzir e produzir. No IBERCOM, o prof. Miguel Vicente questionou se estávamos em condições de importar talentos, visto que o debate era que a academia americana seria preconceituosa com os trabalhos latinos. Já comentei que, aqui no Brasil, a exigência pela produção QUANTITATIVA é  mil vezes maior do que pela produção QUALITATIVA e isso explica muita coisa. Não estamos em pé de igualdade com os americanos porque temos que produzir qualquer coisa para ser publicada. Estamos apenas Reproduzindo. Não temos mais a aura.

Por que estou falando tudo isso? Porque ontem fui surpreendida com a notícia de que o professor Miguel Chaia ( não vou me ater em apresentações, um simples “google” fala por si) havia sido “descredenciado” da pós da PUC.  Na verdade, ele “pediu para sair” conforme vocês verão abaixo. Existem os critérios de avaliação de “produtividade” da CAPES, os quais expressam cada vez mais um processo de delinquência acadêmica. O processo, puramente quantitativista, produz resultados desastrosos. Acabou refletindo num dos maiores intelectuais brasileiros: o professor Miguel Chaia. 

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Abaixo, reproduzo a carta do professor ao Programa de Pós-graduação da PUC. O professor nem imagina que estou publicando. A carta, como vocês imaginam, rodou. E é emocionante. SEM MAIS.

São Paulo, 27 de outubro de 2014.

À Coordenação do PEPG em Ciências Sociais

O soco acadêmico me pegou de jeito, bem no fígado: rebaixamento a professor colaborador, eufemismo para descredenciamento. Experimentei o constrangimento de perder as credenciais num bom momento da carreira, sentir-se um convidado em sua própria casa.

Considero injusta a sentença lançada sobre as minhas atividades acadêmicas, emitida pela comissão de avaliação e pela coordenação do programa. Discordo do resultado e do processo que levou a esta sentença, mesmo que ele tenha se dado no interior de uma tendência atual nas universidades.

Além do mais acho omissa, burocrática e insensível a coordenação do programa, tão apegada ao exercício do pequeno poder que nem suspeita que dois mais dois são cinco. É preciso ter sabedoria e boa vontade para defender sim, simultaneamente, os interesses da instituição e de seus pares.

Acho injusta a sentença, pois no período da avaliação, produzi um dos melhores textos da minha trajetória – longo, denso e criativo – fruto de mais um ano de pesquisa meticulosa sobre arte e micropolítica. Ele foi publicado pela Editora Cosac Naify, que tem Prêmio Nobel em seu catálogo.

Acho injusta a condenação, porque no período em questão organizei um substancioso livro sobre cinema e política, do qual produzi um capítulo. Selecionei os textos, li, reli, tive dúvidas e após um bom tempo já está no prelo pela Editorial Azougue (RJ).

Acho injusta a sentença, pois nesta época toda, fui diretor da EDUC, fantástica editora universitária da PUC-SP. Nesta fábrica magnífica de pontuações para a CAPES, incentivei a publicação de dezenas de livros e revistas. Professores da casa e de outras universidades receberam, pela EDUC, inúmeras pontuações.

Acho injusta a condenação, pois no período em questão participei da diretoria da Bienal Internacional de São Paulo e de seu comitê curatorial que elegeu em suas edições o tema “Arte e Política”, sem remuneração, levando o nome da PUC-SP e do NEAMP para além dos muros da universidade.

Acho injusta a sentença porque participo como um dos pesquisadores principais do Projeto Temático/FAPESP “Lideranças Políticas no Brasil: características e questão institucional”.

Acho injusta a condenação, pois há três anos estou aperfeiçoando um longuíssimo texto sobre o Poder Político em William Shakespeare, a partir do seu aprendizado com Maquiavel. Só agora é que ele está quase pronto para ser encaminhado para eventual publicação. Para mim o processo intelectual é lento, gostosamente penoso, que exige reflexão demorada e uma íntima contemplação.

Critico a coordenação por não defender seus pares, por não dificultar a aplicação da pena, por deixar que professores sérios e históricos recebessem penas imerecidas.

A coordenação foi ineficiente ao aplicar a penalidade quando já estavam planejadas as atividades acadêmicas para o primeiro semestre de 2015.

A coordenação foi deselegante na forma como conduziu a comunicação da sentença aos professores.

Conclusão: por isso tudo inicio um processo para me desligar do PEPG em Ciências Sociais. Não tenho mais a mínima vontade de atuar junto ao programa. Ficarei apenas o tempo necessário para orientar os excelentes mestrandos, doutorandos e um pós-doutorando sob a minha responsabilidade.

Sou produtivo e escrevo muito, para o meu aprendizado e formação intelectual, para os meus interlocutores e, principalmente, para o meu prazer. Não gosto de ser medido por números rasos. Mesmo que eu já tenha construído um significativo espaço para contribuir com o desenvolvimento do programa, desde o início dos anos 90, agora não quero mais trabalhar nele. Simples assim, com certa leveza: bye, bye pós-graduação.

Miguel Chaia

 

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Dois livros saindo do forno

Hoje tive a grata surpresa de receber dois livros com artigos meus.

Um é Mídia: espetáculo e poder simbólico, organizado pelos meus queridos mestres Cláudio Novaes Pinto Coelho e Luís Mauro Sá Martino, editora In House. Nesse livro publiquei uma análise sobre o ex-candidato à vice-presidência da República Indio da Costa (hoje PSD, na época DEM). O nome do trabalho: “O caso Indio da Costa: vida e morte na sociedade do espetáculo”.

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O outro livro é Comunicação, Entretenimento e Imagem, organizado pela minha orientadora de mestrado Simonetta Persichetti e pelo professor Dimas Künsch. A editora é a Plêiade. Nesse foi publicado um resumo da minha dissertação: A imagem contemporânea e a construção do personagem político nas eleições municipais de 2012.

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III Seminário Buscando o Sul

Foi uma viagem MUITO longa e cansativa até São Borja, mas valeu demais. O III Seminário Buscando o Sul foi extremamente organizado. Me surpreendeu a quantidade de trabalhos de graduandos da UNIPAMPA, o que foi algo extremamente positivo. Fiquei impressionada com a vontade acadêmica deles.

Meu trabalho foi “Do PFL ao DEM: dos grandes personagens políticos ao esvaziamento nos anos 2000“. O trabalho foi bem aceito e recebi excelentes sugestões de como deixá-lo mais interessante.  Quem quiser lê-lo, está linkado.

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LASA 2015

Recebi da professora Vera Chaia chamada para o LASA 2015.

We are currently accepting proposals for LASA2015 in San Juan, Puerto Rico. We would love to receive your proposal for consideration before the deadline of September 8th, 2014 (17h00 EDT). Please find the Call for Papers here:http://lasa.international.pitt.edu/files/Call.pdf

Important: All participants need to be LASA 2014 members to be able to submit proposals and be involved in the proposals. You can become a LASA member by joining here: http://lasa.international.pitt.edu/eng/membership/join.asp. Additionally, section panel participants also need to be section members for 2014. The membership deadline is September 8th, 2014 (17h00 EDT).

 

Notes on participation:

–          LASA Participants are limited to one paper per congress, no exceptions.  (Co-authorship counts towards the one paper limit).

–          Participants can only have 2 active participations per congress (not counting being an Organizer).  The participation may take the form of paper presenter, discussant or chair role.  A participant is able to be a part of a workshop and a panel. (Section members are allowed a 3rd active participation in a Section panel).

–          Participants can only have 2 organizer appearances. Even if a participant wants to organize more than 2 sessions, they can only be recognized in the program book as an organizer for a maximum of 2 sessions.

 

We hope to receive your proposal soon! Please send any questions to: lasacong@pitt.edu or visit our FAQ:http://lasa.international.pitt.edu/eng/congress/faqs_generalinfo.asp

 

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