Arquivo mensal: maio 2016

Neurocientista defende universidades geridas como empresas: 'É preciso demitir quem não produz'

Fonte G1

 

Após deixar o Brasil por condições melhores de pesquisa, Suzana Herculano-Houzel critica falta de meritocracia em universidades federais.

“O Ministério que cuidava da Ciência agora tem que cuidar de Comunicação também, e eu francamente não vejo o que é que uma coisa tem a ver com a outra”, diz pesquisadora

Pouco mais de uma semana após trocar o Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ Brasil por uma universidade nos Estados Unidos, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel diz não estar tendo problemas para adaptar-se à nova realidade.

“Aqui, mesmo quando as coisas não funcionam, elas acabam sendo resolvidas rapidamente”, disse à BBC Brasil, por telefone, da Universidade Vanderbilt, em Nashville, no Estado do Tennessee.

“O que não funciona aqui no momento, para você ter ideia, é que o meu sobrenome é grande demais para caber nos formulários (risos). É muito legal trabalhar numa universidade que tenha a estrutura ágil que qualquer empresa tem. As universidades brasileiras, as públicas, pelo menos, não tem.”

No início de maio, em artigo da revista Piauí, a pesquisadora carioca – que estuda o funcionamento do cérebro humano e de outras espécies de mamíferos – descreve as dificuldades para produzir ciência de nível internacional no Brasil, como a burocracia para comprar equipamentos e as dificuldades de financiamento.

Apesar de ter publicado trabalhos de repercussão mundial, como o que defende a hipótese de que cozinhar alimentos permitiu aos ancestrais do homem sustentarem um cérebro maior, e um estudo, publicado na revista Science, sobre como o córtex cerebral se dobra, Herculano-Houzel, chegou a usar o próprio dinheiro para cobrir despesas de seu laboratório. Em 2015, fez uma “vaquinha”, uma campanha de financiamento coletivo na internet, para conseguir manter a produção por alguns meses.

Ela critica o que diz ser falta de meritocracia nas universidades federais, onde professores têm salários fixos independentemente do que produzem, e afirma que “não dá para ser otimista no Brasil nesse momento”.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Em seus artigos sobre a dificuldade de fazer ciência no Brasil, você menciona não só problemas de financiamento via governo federal e estadual, mas uma certa resistência da universidade onde trabalhava de aumentar seu laboratório por achar que você “não precisaria de mais espaço”, mesmo após o reconhecimento internacional. A mentalidade nas universidades brasileiras também dificulta a pesquisa?

Suzana Herculano-Houzel – O sistema do funcionalismo brasileiro, que se estende às universidades, encoraja o engessamento e diz a alguns professores: “agora que você chegou até aqui, não precisa se preocupar em fazer mais nada. Agora que você conquistou esse laboratório grande, vai tê-lo até o fim dos seus dias, não importa que outros pesquisadores mais jovens, recém-contratados ou que produzam mais precisem desse espaço”.

Tudo isso porque mérito não importa. Não importa o que você produz, os seus direitos e o seu salário já são garantidos pelas regras do funcionalismo. E isso é mortal. Isso garante os direitos de quem já está por cima, mas é extremamente frustrante para quem está em começo de carreira e interessado em produzir.

É preciso ter um ambiente que estimule a meritocracia e recompense o esforço. Mas para esse ambiente meritocrático funcionar, é preciso que quem não produz seja afastado. Exatamente como em qualquer empresa. É preciso pensar na possibilidade de demitir professores, coisa que as pessoas que hoje têm estabilidade na academia não vão querer nunca.

BBC Brasil – Você já disse que falar em meritocracia era mal recebido no ambiente das universidades públicas por ser entendido como defesa da privatização. O que pensa da ideia de privatizar as universidades?

Herculano-Houzel – Me dei conta de que muitas dessas críticas são falácias dos opositores à ideia de meritocracia. Introduzir meritocracia e acabar com a estabilidade (na universidade) não é, de maneira alguma, sinônimo de privatização, mas os críticos fazem parecer que sim. Qualquer proposta de mudar a estrutura atual da academia do Brasil vai para o balde do “querem privatizar as universidades”.

Não estou falando de privatizar a pesquisa nem de privatizar a universidade, de modo nenhum. Eu não entendo, francamente, por que universidades não podem continuar sendo empresas federais, mas gerenciadas como empresas – com flexibilidade não só de compras e aquisições (de equipamento), mas também de contratação e afastamento (de pessoal).

BBC Brasil – Você também afirmou que a distribuição de recursos para regiões menos desenvolvidas do Brasil dificultava a criação de centros de excelência, mas muitos pesquisadores fora do Sudeste e do Sul reclamam de uma concentração de investimentos nestas regiões. Como garantir uma distribuição justa de recursos e, ao mesmo tempo, incentivar a pesquisa de ponta?

Herculano-Houzel – Não adianta, a solução é ter mais dinheiro. O que acontece no momento é que o pouco dinheiro que os centros de excelência nas regiões Sul e Sudeste poderiam receber, que já é insuficiente, se torna ainda menor porque uma parcela desses recursos precisa ser transferida para Norte-Nordeste. O que é uma política perfeitamente válida. O problema é que os recursos são insuficientes.

Então acaba que nem bem você consegue formar centros de pesquisa nas regiões Norte e Nordeste – que também precisariam de muito mais dinheiro -, nem bem consegue manter o funcionamento dos centros de excelência já existentes no Sul e no Sudeste. A única maneira de resolver o problema é aumentar o investimento.

O problema é para que esse investimento direcionado de recursos na região Norte-Nordeste seja realmente efetivo é preciso que o volume de recursos seja grande o suficiente para permitir levar pessoas para lá, mas não é.

Como é que você vai atrair expoentes para formar um novo centro de pesquisas em Fortaleza, por exemplo, se você não pode oferecer um salário atraente para atrair um pesquisador da Alemanha, da França, da Holanda?

Não precisa nem ser pesquisador estrangeiro, só repatriar um pesquisador brasileiro, por exemplo, que está trabalhando em Bruxelas com um laboratório maravilhoso e o financiamento da União Europeia. Temos que aumentar o financiamento como um todo e mudar as políticas de contratação. Atualmente não é atraente fazer ciência no Brasil.

Apesar de reconhecimento internacional de seu trabalho com cérebros, Herculano-Houzel teve que fazer “vaquinha” para laboratório

BBC Brasil – Buscar o financiamento de empresas para laboratórios e pesquisadores seria uma opção?

Herculano-Houzel – O que eu acho fundamental que exista é investimento privado, sim, mas de instituições criadas especificamente para financiar pesquisa. Aqui nos EUA há inúmeras possibilidades de conseguir apoio financeiro para pesquisa dessas instituições privadas de fomento que são filantrópicas.

O financiamento privado de empresas é outra coisa que também existe em alguns países. No Brasil, Campinas é um pólo de bom relacionamento entre a universidade e a indústria local. O risco disso é algumas pessoas usarem o argumento de que a ciência no Brasil está falida porque a indústria não investe.

Não, senhor. A ciência no Brasil está falida porque o governo não investe e investimento em ciência é papel dos governos federal e estadual. Uma vez que exista ciência viável porque governos fizeram os investimentos devidos, aí sim existe a possibilidade de você criar parcerias com empresas e com indústria, o que é muito interessante, mas não deve ser considerado nem a tábua de salvação da ciência brasileira, nem a maneira como a ciência deveria ser financiada.

BBC Brasil – O orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação teve cortes de quase R$ 2 bilhões durante o governo Dilma, e você chegou a criticar o principal programa do governo na área, o Ciência sem Fronteiras. Como vê o futuro da pesquisa científica e do incentivo à pesquisa no Brasil?

Herculano-Houzel – As perspectivas para o setor de ciência no Brasil são ainda mais sombrias. O Ministério que cuidava da Ciência agora tem que cuidar de Comunicação também, e eu francamente não vejo o que é que uma coisa tem a ver com a outra.

Não vejo perspectiva de o orçamento da Ciência e Tecnologia aumentar, o governo só fala de cortes, e ao mesmo tempo a gente vê a aprovação de aumento de salários para o Judiciário e outros.

Não vejo como ser otimista no Brasil neste momento, não em relação à Ciência. O que a gente vê a décadas é uma desvalorização da Ciência por profunda falta de conhecimento dos políticos.

BBC Brasil – A estudante da rede pública carioca Lorrayne Isidoro, de 17 anos, virou notícia ao vencer a Olimpíada Nacional de Neurociência e fazer uma vaquinha, como a que você fez, para participar da competição internacional. O que sentiu ao saber da história dela?

Suzana Herculano-Houzel – Senti tristeza, de certo modo. Lorrayne teve a sorte de estudar num excelente colégio público federal, onde a professora dela certamente é muito mais bem paga do que professores de outras escolas públicas estaduais e municipais. O (colégio) Pedro 2º é uma escola bem equipada. Isso tudo certamente ajudou muito, sem desmerecer a motivação e a força de vontade dela, que são extraordinárias.

Mas o triste é que vejo pessoas como ela chegarem na iniciação científica na universidade e rapidamente desistirem porque as condições de trabalho são péssimas.

A perspectiva é que depois de 4 anos na universidade eles assinarão um papel que os limita a receber uma bolsa de não mais de R$ 1.200 por dois anos (no mestrado), para depois passarem outros 4 anos com uma bolsa de R$ 2.200 por mês (no doutorado).

Essa vai ser a renda máxima deles nos próximos seis anos depois de formados, enquanto um engenheiro químico sai da universidade já com um piso salarial estipulado em oito salários mínimos. É extremamente desestimulante.

A ciência é muito dependente desses jovens que trabalham nos laboratórios, que fazem os experimentos acontecerem. Aqui nos EUA já se segue a onda que veio da Europa de dar a eles contratos de trabalho e pagar salários dignos desde a pós-graduação. E o Brasil está na lanterna.

Eu acho perfeitamente compreensível que os jovens que começam a fazer iniciação científica estejam debandando. É o que eu vi acontecer no meu laboratório e o que eu ouço de vários colegas.

BBC Brasil – Nas redes sociais brasileiras têm crescido as piadas – e a rivalidade – entre pessoas “de humanas”, percebidas como mais à esquerda, menos pragmáticas e mais preguiçosas e pessoas “de exatas”, percebidas como mais à direita, superficiais e elitistas. Como vê essa divisão? As áreas estudadas realmente influenciam na orientação política e outras características?

Suzana Herculano-Houzel – “Pessoas disso” ou “Pessoas daquilo” não existem. Existem pessoas, ponto. Estes são estereótipos, que geralmente são nocivos.

Isso tem muito a ver com as expectativas que a gente tem com relação a esses profissionais na sociedade. Se você espera que alunos da área de Humanidades sejam esquerdistas, toda vez que conhecer um vai dizer: “Ahá, tá vendo?”. E quando aparecerem os alunos de Humanas conservadores, você os ignora como “exceção”.

É esse o problema dos estereótipos, eles criam o que a gente chama de profecias autorrealizadas. Você cria uma expectativa com base na percepção daquele estereótipo e você passa a distorcer sua visão de mundo para que ela se encaixe nele.

No Facebook ficou fácil demais falar qualquer besteira em público, e o Facebook é uma máquina de propagação de estereótipos. Você dá “like” no que se encaixa com o que você pensa e ignora o resto.

Mas isso tudo é besteira, conhecimento é conhecimento. Se hoje a gente pode olhar ao redor e ver um mundo organizado em que boa parte das pessoas não é apedrejada por seus ideais ou crenças, é tudo graças ao conhecimento. Todo conhecimento é importante.

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"A história vai fazer justiça com Itamar Franco", diz ex-senador Pedro Simon

Meu colega Rodrigo Estramanho e eu conversamos hoje com o ex-senador pelo Rio Grande do Sul, Pedro Simon. A conversa faz parte das pesquisas do  Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP), da PUC-SP, que realiza uma pesquisa científica intitulada Lideranças Políticas, com financiamento da FAPESP.

Um resumo da conversa de duas horas.

Em duas horas de conversa, Simon afirmou que a Operação Lava-Jato “é uma das melhores coisas que aconteceram na história do país”. Disse que “com tantos ‘nunca antes na história desse país’, nunca vimos tantos figurões sendo presos”. O ex-senador comentou o péssimo momento que o Rio Grande do Sul vive na sua política: “O Sartori (governador) não pode nem sair na rua que será apedrejado. Mas o Estado está um horror. É lamentável ver o Rio Grande assim”.

Aposentado da política (ele só concorreu ao Senado em 2015 por pressão do partido), agora percorre o país palestrando e “chamando os jovens para as ruas”, como ele mesmo disse. Para Simon, a história deve justiça ao ex-presidente Itamar Franco, “o melhor presidente que o Brasil já teve”.

Disse que a primeira vez que conversou com Collor percebeu que ali não haveria um presidente de fato. “Essas coisas tu percebes. Era só ele. Não tinha apoio. Eu só ouvia sobre ele que havia feito um casamento com ostentação”.

Entre as brincadeiras, Simon afirmou: “O Tancredo morreu e ficou em dívida conosco. Poderia ter feito muito. E, poderia ter levado o Sarney”.

Agradecemos ao assessor do ex-senador, Renato, que foi muito gentil conosco e nos ajudou na pesquisa para a PUC.

Financiadora da pesquisa: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Coordenadora– Profª Drª Vera Lúcia Michalany Chaia – PUC-SP

 

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Frei Betto dialoga com Deus e prevê a volta de Lula

Em artigo que ironiza os votos dos deputados a favor do impeachment, Frei Betto dialoga com Deus: “quem atrapalha a República são aqueles que catam mosquitos no olho alheio e vivem engolindo camelos”. Quanto à corrida pela Presidência, prevê a volta do ex-presidente Lula: “o maior eleitor dele se chama Michel Temer”, diz.

Deus e o Brasil

― Deus, o que o Senhor achou de tantos deputados acusados de corrupção invocarem seu santo nome em vão durante a votação do impeachment na Câmara?

― Pelo amor de Mim, um horror! Meu Filho se lembrou dos fariseus hipócritas, aquela raça de víboras.

― O Senhor não está sendo muito rigoroso? São todos cristãos!

― Cristãos eram também Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e Pinochet. Posso não me intrometer muito nas mazelas humanas, mas uma coisa é certa: ninguém me engana. Não vejo cara nem coração. Fico de olho é na intenção.

― Mas, pelo menos neste mundo tão descrente, foi um sinal de que ainda há quem creia no Senhor.

― Creem da boca para fora e de olho no dinheiro para dentro do bolso, ou de algum paraíso fiscal. Muitos ali adoram o bezerro de ouro, o Deus do poder, da soberba e da demagogia. Falam em paz e apoiam a bancada da bala. Pregam o amor ao próximo e estimulam a homofobia.

Carregam a Bíblia debaixo do braço e escorraçam de suas terras, para espalhar o gado, índios e quilombolas, pescadores e lavradores.

― Homossexualidade então não é pecado?

― Pecado é a falta de amor. Onde há amor, aí Me faço presente.

― Mas há textos bíblicos que condenam a homossexualidade.

― Sim, como há outros que mandam passar ao fio da espada adeptos de outras religiões, como hoje faz o Estado Islâmico. Cada texto precisa ser lido dentro de seu contexto. É no mínimo desonestidade intelectual tirar pretextos preconceituosos de versículos bíblicos escolhidos segundo motivações que negam a qualquer ser humano a ontológica sacralidade de ter sido criado à Minha imagem e semelhança.

― Mas o Senhor não se sente lisonjeado com a bancada da Bíblia?

― Nunca deu certo a religião pretender monitorar a política. Por isso meu filho entrou em choque com Pilatos e o Sinédrio judaico. Há quem julgue que o cristianismo converteu o Império Romano no século 4º. Foi contrário: Constantino logrou tornar a igreja uma instituição imperial.

E isso resultou na Inquisição, que pretendeu impor a fé a ferro e fogo, e em rupturas que hoje o papa Francisco tenta costurar. Política, Estado e partidos devem ser laicos. Todo fundamentalismo é nocivo. Lembre-se que meu filho acolheu a mulher samaritana, considerada herege pelos judeus; a mulher fenícia, tida como idólatra; o centurião romano, adepto do paganismo. Sempre ressaltando a importância da tolerância religiosa.

― Deus, o Brasil tem jeito?

― Não enquanto houver estruturas injustas. Não importa quem venha a governá-lo. Podem até colocar remendos novos em pano velho, como esses programas sociais compensatórios. Aliviam, mas não emancipam. Coço minha longa barba e pergunto: como, após 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, ainda há tantos sem-terra e sem-teto?

― E das pedaladas da Dilma, o que acha o Senhor?

― Ela faz muito bem de dar suas pedaladas matinais. Bicicleta não polui nem congestiona o trânsito. Quem atrapalha a República são aqueles que catam mosquitos no olho alheio e vivem engolindo camelos.

― Uma curiosidade, Senhor, já que És um ser onisciente: o Lula voltará à Presidência?

― O maior eleitor dele se chama Michel Temer.

― O que vai dar no Senado?

― Esse futuro, felizmente, a Mim não pertence! Respeito a liberdade de voto dos senadores. E que tenham presente que estarão votando também na moldura que haverá de enquadrar suas biografias nas páginas da história do Brasil.

― Deus é brasileiro?

― Também, e vota na justiça como fonte de paz.

 

Fonte: Brasil 247

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Pesquisas do Grupo de Comunicação e Política na Soc. do Espetáculo na Alterjor

A Alterjor desse semestre publicou dois trabalhos do grupo de pesquisa Comunicação e Política na Soc. do Espetáculo:Intelectuais e imprensa em momentos de radicalização política: 1964/2015, feito por mim e pela Vivian Paixão. Um estudo sobre o papel dos escritores em dois momentos da política- o golpe de 64 e a crise que levou ao processo de impeachment da presidente.

E, a  pesquisa da dra Mara Rovida (nossa amiga!!): Trabalho e identidade social – implicações nas pesquisas em comunicação.

 

 

Intelectuais e imprensa em momentos de radicalização política: 1964/2015

Resumo

O objetivo deste artigo é analisar a atuação dos jornalistas e intelectuais brasileiros durante a ditadura militar e no ano de 2015, assim como o papel da imprensa nestes dois períodos, visto que, em 64, o papel da imprensa se deu sob um regime autoritário que reprimia qualquer manifestação contrária ao governo. Hoje a sua atuação é tão importante que faz dela um ator político no processo democrático, objeto de nossa análise. Para o trabalho, foram entrevistados jornalistas e intelectuais que fizeram parte da imprensa brasileira nos dois períodos citados: Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Frei Betto e Juremir Machado da Silva.

Palavras-chave

Jornalismo; Comunicação Política; Ditadura
Carlos Heitor Cony

Carlos Heitor Cony

Trabalho e identidade social – implicações nas pesquisas em comunicação

Resumo

O resgate da centralidade do trabalho nos processos de mediação e de formação das identidades sociais tem impactos expressivos no entendimento das dinâmicas sociais contemporâneas. Numa sociedade marcada pelo avanço da divisão do trabalho social e pelo amplo desenvolvimento das tecnologias de comunicação (cada vez mais importantes no processo produtivo capitalista), é preciso rever a noção de trabalho como atividade essencial do ser humano e como aspecto constituidor de identidade individual e coletiva. Tal discussão se mostra fundamental para o desenvolvimento das pesquisas em comunicação.

Palavras-chave

Identidade social; trabalho; mediação social; solidariedade social
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Em nome de Deus, da família e do espetáculo

 Aliás – Estadão 01/05/16 12:32

GABRIEL ZACARIAS – O ESTADO DE S.PAULO

O excesso de exposição pode ser uma arma perigosa aos políticos

Desde que se iniciou a crise política brasileira, diversas metáforas foram empregadas para descrevê-la, sempre ligadas ao âmbito dos espetáculos. Manifestantes foram comparados a torcedores de futebol, políticos a personagens de novelas e seriados. Antes de acontecer, a transmissão ao vivo da votação do processo de impeachment na Câmara foi antecipada como uma final de campeonato. Após sua realização, porém, a metáfora que se impôs foi a do circo. Pouco justa com os artistas circenses, cujas peripécias são muito menos trucadas do que a dos políticos nacionais, pareceu todavia transmitir bem a imagem de espetáculo barato, rumoroso e deselegante que caracterizou a votação no plenário. Cabe, então, perguntar: porque essas metáforas parecem se adequar tão bem à política? Qual a verdade de fundo por trás da simples piada?

Se retomarmos a caracterização da sociedade contemporânea como uma “sociedade do espetáculo”, talvez possamos responder tais perguntas. Quando propôs essa expressão pela primeira vez, na década de 1960, o pensador francês Guy Debord não se referia simplesmente à mídia – que considerava apenas a manifestação “superficial” e “mais esmagadora” do espetáculo. Com o conceito de espetáculo abarcava um fenômeno social total, ou seja, um “conjunto de relações sociais mediadas por imagens”. Se na sociedade capitalista é o mercado que serve de instância unificadora das atividades sociais, as relações sociais se estabelecendo em torno à produção e ao consumo de mercadorias, na sociedade do espetáculo essas relações se estabelecem também em torno à produção e ao consumo de imagens. Debord vê a sociedade do espetáculo como um desdobramento da sociedade capitalista. Assim, é a hiperespecialização do trabalho no capitalismo que, restringindo a experiência quotidiana à realização de uma tarefa muito específica e repetitiva, torna necessário o consumo imaginário de outras experiências – o que fazemos, por exemplo, quando nos identificamos aos protagonistas de enredos declaradamente fictícios (como telenovelas) ou supostamente reais (como a vida de celebridades).

Sucesso midiático e eleitoral. Como parte da sociedade do espetáculo, a democracia representativa é orientada pela mesma lógica espetacular, o sucesso eleitoral de políticos sendo proporcional ao grau de identificação que conseguem arrebatar através de sua exposição midiática. Não é à toa que cada vez mais as fronteiras entre políticos profissionais e celebridades pareçam se confundir.

Tomemos o exemplo de alguns dos membros mais célebres do Congresso. Durante seu mandato anterior, o deputado federal Jair Bolsonaro – aquele que em seu voto pró-impeachment homenageou um torturador – conseguiu aumentar sua exposição nas mídias por conta de declarações ofensivas, sexistas e homofóbicas, o que lhe garantiu o terceiro maior eleitorado para a Câmara nas últimas eleições.

No polo oposto, Jean Wyllys, internacionalmente reconhecido pela defesa da comunidade LGBT, antes de ser deputado havia sido vencedor de um reality show de televisão. Tiririca, único palhaço profissional no circo em questão, também chegou ali por conta de seu sucesso televisivo. E sequer precisou aderir a uma causa política. Foi eleito em 2010 com slogans de campanha cínicos, como “Tiririca, pior do que está não fica”, e “Você sabe o que faz um deputado? Vote em mim que eu te conto”.

Se Tiririca tivesse contado, talvez não tivesse sido reeleito. Ao menos a julgar pelo impacto negativo que a exposição da Câmara produziu nas redes sociais. Segundo pesquisa de Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, as postagens em língua portuguesa no Twitter, particularmente intensas no dia 17, durante a votação, extrapolaram a polarização em torno do impeachment, em favor de um repúdio generalizado ao ritual transmitido pela televisão.

A lógica da exposição espetacular parece ter se chocado à opacidade habitual da política brasileira. Para uma política feita de conchavos e ditada de cima para baixo, a exposição excessiva pode ser uma arma perigosa. Do ponto de vista da legitimação do sistema político, o impeachment pode ter sido um tiro pela culatra que, expondo despudoradamente o jogo de negociatas da Câmara, trouxe à tona uma parte da política que apenas subsiste por estar à sombra.

Contradições da sociedade do espetáculo. Debord havia notado na década de 1980 que uma regra original do espetáculo – de ser uma “imensa positividade” na qual “tudo que aparece é bom, tudo que é bom aparece” – dava agora lugar a uma valorização absoluta de tudo mostrar, bom ou ruim. Mas o valor supremo da exibição tem um preço, e a exposição demasiada pode minar o próprio espetáculo. Para quem assistiu ao circo do dia 17 de abril, o cinismo de deputados corruptos que falam contra a corrupção, a carência de argumentos políticos, a insistência monotemática em dedicar seu voto a Deus e à família podem ter funcionado como um efeito de distanciamento brechtiniano – rompendo o mecanismo de identificação e expondo os limites da representação.

 

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