Arquivo mensal: junho 2015

Todos como “ Homo Lattes ”? O Jurista, o Acadêmico e o “Homo Latteável”?

Por Alexandre Morais da Rosa*¹ e Alexandre Barbosa da Silva*²

Existem três personagens muito “na moda” no sistema jurídico e educacional do Brasil contemporâneo. Tratam-se do jurista, do acadêmico e do “ homo lattes ”, no plano meramente aparente, sem contar as agruras ideológicas apontadas por Roberto Lyra Filho[i], por exemplo.

O jurista, figura notável do direito ao longo dos séculos, é aquele que contribui para a construção de uma “ciência jurídica” prospectiva, reflexiva e que resulte na simbiótica ligação da teoria com a prática do direito, sempre com vista à edificação de um sistema jurídico democrático, coerente e eficaz.

O acadêmico, famoso por edificar teses que orientam os pensamentos dos também doutos e práticos jurídicos, envida sempre seus esforços para ensinar e auxiliar na melhoria da condição de aprendizado de alunos e demais atores do direito, muito embora as vezes seja difícil reconhecer-se tese em teses.

O mais novo elemento nessa cadeia de nomenclaturas subjetivas dos participantes da docência jurídica é o “ homo lattes ”. Trata-se de pessoa que dedica sua vida a preencher formulários públicos, enchendo-os de anotações que reduzam seu pensamento científico a números que, para os burocratas de plantão, significam conhecimento e produção acadêmica.

Pensa na lógica do rendimento, dos artigos publicados, enfim, da quantidade, reproduzindo-se com metâmeros no contexto atual. Operam na lógica do rendimento e da Imperatriz Leopoldinense, Escola de Samba Carioca, campeã em diversos carnavais, mas que simplesmente não empolgava a arquibancada, já que jogava com o regulamento no colo, como lembra Lenio Streck[ii].

Sergio Bruno Martins ao tratar dos critérios de seleção para professores de Universidades públicas, tece comentários sobre o “ homo lattes ”: “O Homo lattes tirando uma pilha de fotocópias comprobatórias e o professor convidado a contar pontos em currículos inchados nada mais são do que duas imagens extremas — mas tristemente normalizadas, porque corriqueiras — do que a academia está se tornando sob os auspícios do produtivismo e do objetivismo. Que formação intelectual pode advir desse contexto? Que ética do conhecimento está implícita aí? Que espécie de saber se pode esperar desse acadêmico burocratizado? Queremos acadêmicos conformados ao que já se conhece, ou capazes de abrir perspectivas críticas e científicas?”[iii]

As respostas a essas indagações parecem estar no cotidiano de todas as instituições de ensino superior, ou seja, ao invés de estimular o estudo aprofundado, crítico e substancial dos acadêmicos e juristas, o que se tem fomentado é a qualidade pela quantidade, de maneira que os números de publicações e participações em eventos – na maioria das vezes até mesmo de qualidade questionável – significará o quão “bom profissional” será o professor. Acrescente-se que o ensino do Direito passou, em Universidades ditas Eficientes, a ser “o estudo do que cairá na prova da OAB” (Se não está na prova da OAB não está no mundo)

Nicoleta Cavalcanti Pereira Rebel, em texto publicado no site da Associação Brasileira de Educação, deixa clara a preocupação com o modelo que se inseriu no país, fundado no produtivismo e no objetivismo: “Atualmente, enaltece-se o produtivismo pela exigência ao professor de uma produção excessiva, ressaltando-se o objetivismo, isto é, reduzindo-se o qualitativo a termos quantitativos. Vale mais o pesquisador que obtenha mais pontos referentes ao quantitativo de sua produção.”[iv]

A preocupação é que muitos dos bons professores, preocupados com a qualidade de seus textos, que precisam, exatamente para ser bons, ser gestados em ambiente adequado de coerência técnica e redacional, acabam por ser considerados como “de baixa produtividade”. De nada importa o quanto já tenham estudado, pesquisado, desenvolvido ideias, orientado trabalhos, se estas atividades não estiverem rigorosa e metodicamente inseridas nos “padrões” determinados. É a fúria do rendimento.

Não se olvida que o subjetivismo para a escolha de professores ou para a consideração sobre o que seja qualidade, não é algo bom. Mas objetivar em demasia, certamente, não torna, necessariamente, o processo melhor.

Uma vez mais, por necessário, mencione-se Nicoleta Cavalcanti Pereira Rabel: “A época em que o título de doutor agregava ao professor prestígio por si só, está passando, porque hoje se exige dele mais alguma coisa: produção em alta escala. É o “publish ou perish”, traduzido entre nós como “publicou ou pereceu”. O Homo Lattes é, pois, o ser humano do Currículo Lattes, onde os docentes expõem toda a sua produção, detalhadamente, numa luta para atender ao desenvolvimento a qualquer custo, luta esta imposta pelo Estado Brasileiro.”[v]

Lamentavelmente tem-se assistido a professores competentes, educadores de escol, sendo excluídos das lides acadêmicas sob o argumento da “baixa produtividade”. Não se pondera mais a titulação acadêmica ou a prática profissional que antes elevava o docente perante seus alunos, instituição de ensino e sociedade. Hoje, o acadêmico e o jurista estão em segundo plano. Importante mesmo é ser “ homo lattes ”, ainda que reproduzindo textos idênticos em diferentes revistas – muitas vezes estrangeiras – ou modificando trechos ao talante da conveniência dos “pontos” alcançáveis em seu currículo, muitas vezes para sobreviver à academia do rendimento. Há ranking, metas semestrais, pontos a se obter. Os Professores da lógica Imperatriz Leopoldinense triunfam.

Alexandre Morais da Rosa e Salah Khaled Jr. discorrem sobre o jurista cansado, que bem poderia ser o professor cansado: “Sobre o tema vale, então, pensar com Byung-Chul Han, coreano de nascimento e atualmente Professor de Filosofia da Faculdade de Artes de Berlin. O argumento de Han é o de que vivemos a “sociedade do cansaço” (La sociedad del cansancio. Barcelona: Herder, 2012) em que o sujeito se violenta a si mesmo, em constante guerra consigo mesmo, pois se trata do “sujeito de rendimento”, cuja crença pressuposta é a de que é livre, mas se queda, utilizando-se da metáfora de Prometeu, como sujeito da auto-exploração, em cansaço infinito.”[vi]

É preciso reconhecer e valorizar a história do professor, assim como sua preocupação com a qualificação constante e a frequente reinvenção de sua capacidade e técnicas pedagógicas, naquilo que Luis Alberto Warat chamava da possibilidade de efeito mágico da academia.

Indispensável que se fomente a qualidade do pensamento, ao contrário da repetição indiscriminada de “achismos” que infelizmente tem nutrido o direito de lições mal formuladas. A quantidade deve sucumbir diante da qualidade na produção jurídico-científica.

Faz-se necessário refletir sobre a educação jurídica que se quer no Brasil: se a dos “homo lattes” ou a dos juristas e acadêmicos que, na docência, orientem a construção e o livre desenvolvimento de personalidades aptas ao conhecimento jurídico mais sofisticado e de qualidade.

A escolha de hoje fará o resultado de amanhã, ainda que pela lógica do rendimento, professores medíocres teoricamente, com baixa capacidade de inovação, pela reprodução do mesmo em novas versões, na lógica leopoldinense do ensino, possam ouvir e se regozijar com um “NOTA DEZ”. Será que acreditam, mesmo, que são isso tudo? E você?


Notas e Referências:

[i] LYRA FILHO, Roberto. Por que estudar Direito, hoje? Brasília: Nair, 1984, p. 14 e 18: “Aprender o que é Direito nas “obras” da ideologia dominante só poderia, evidentemente, servir para um de dois fins: ou beijar o chicote com que apanhamos ou vibrá-lo no lombo dos mais pobres, como nos mande qualquer ditadura”. (…) “Por isto mesmo, eu os chamo, quando professores, de catedráulicos. Nas cátedras, são o tipo do àulico, isto é, de puxa-saco do Poder, sem o menor tezão espiritual”.

[ii] STRECK, Lenio. Em tempos de carnavalização, vale lembrar o maior folião epistêmico: Warat. “Warat, ao falar da carnavalização, rejeitava o carnaval do tipo-praticado-em-Pindorama, mormente o dos desfiles do Sambódromo. Não é disso que ele tratava. Por isso, inclusive, construí o conceito aplicado a alguns programas de Pós-Graduação em Direito: Imperatriz Leopoldinense. O Curso não é grande coisa; mas as alas isoladamente estão up to date. Joga segundo o regulamento. Mas isso não é carnaval. Como não é crítico o discurso institucionalizado. Warat tinha ojeriza a isso. Brincávamos: há cursos em que das 9 às 10 o professor se esfalfela falando em crítica jurídica; entra o professor de direito penal com um manual resumido (ou mastigado) debaixo do braço e esculhamba com tudo. Mas o Curso diz: “- nosso curso é crítico; tem até fulano que dá aula das 9 às 10”. Crítica institucionalizada. Daí a necessidade da crítica à crítica do direito. Só carnavalizando é que se poderia inverter tudo isso.”

[iii] Veja o texto do professor Sergio Bruno Martins, doutor em história da arte pela University College London, em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/08/02/homo-lattes-505601.asp Acesso em 23/06/2015.

[iv] http://www.abe1924.org.br/lermo-nos/309-homo-lattes Acesso em 23/06/2015.

[v] Idem.

[vi] http://emporiododireito.com.br/voce-e-um-jurista-cansado-alexandre-morais-da-rosa-e-salah-khaled-jr/Acesso em 25/06/2015.


*¹ – Alexandre Morais da Rosa é Professor de Processo Penal da UFSC e do Curso de Direito da UNIVALI-SC (mestrado e doutorado). Doutor em Direito (UFPR). Membro do Núcleo de Direito e Psicanálise da UFPR. Juiz de Direito (TJSC). Email: alexandremoraisdarosa@gmail.com  Facebook aqui 

*² – Alexandre Barbosa da Silva é doutor em Direito Civil pela UFPR. Professor na Univel e na Escola da Magistratura do Paraná. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Direito Civil-Constitucional “Virada de Copérnico” da UFPR. Procurador do Estado do Paraná.

FONTE: EMPÓRIO DO DIREITO

 

Vale a pena ler também:

“ É um crime o currículo Lattes ”, diz Marilena Chauí

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Encontros com Susan – Fragmentos de uma entrevista de 1978

RESUMO A escritora norte-americana Susan Sontag (1933-2004) foi entrevistada duas vezes em 1978 pelo jornalista Jonathan Cott para a revista “Rolling Stone”, que, em 1979, publicou parte do diálogo. A íntegra, editada em inglês em 2013, sai no mês que vem no Brasil; uma seleta das respostas é apresentada, em tópicos, aqui.

*

Um escritor é alguém que presta atenção ao mundo. A famosa definição de Susan Sontag para seu ofício é, quase certamente, a melhor definição dela própria.

Ficcionista, dramaturga, crítica e sobretudo ensaísta –mas também cineasta e, notavelmente, ativista–, Sontag foi autora de um livro inteiro sobre fotografia no qual, ultrapassada a capa, não há uma só fotografia; e de um ensaio de história cultural sobre a doença escrito praticamente num leito de hospital, ao longo de um tratamento contra o primeiro de seus dois cânceres –o segundo a mataria aos 71 anos, em 2004.

Foi em 1978, aproximando-se a confluência desses lançamentos –”Sobre Fotografia” saíra no ano anterior; “Doença como Metáfora” estava para sair, bem como o livro de contos “I, Etcetera”– que o jornalista Jonathan Cott entrevistou a escritora. Ele conhecera Sontag quando era aluno na Universidade Columbia, em Nova York, onde ela lecionava, e viria a ter com ela algumas vezes ao longo dos anos 1960. Até o fim da década seguinte, porém, Cott não tinha achado oportunidade para um almejado encontro mediado pelo gravador.

Quando Sontag aceitou a proposta de ser entrevistada para a revista “Rolling Stone”, eles se viram em Paris, onde a ensaísta estava morando, no mês de junho. Conversaram por três horas, ao fim das quais a entrevistada –para surpresa do entrevistador, que ia se dando por satisfeito– propôs um segundo encontro, em Nova York, para onde estava voltando.

Esse novo encontro se daria só em novembro; a entrevista foi publicada quase um ano depois, em outubro de 1979 –um terço dela. A íntegra da conversa em dois tempos dormiu nos arquivos de Cott até 2013, quando foi publicada em livro pela Yale University Press. No mês que vem, sai no Brasil como “Susan Sontag: Entrevista Completa para a Revista ‘Rolling Stone'” [trad. Rogério Bettoni, Autêntica, R$ 34, 128 págs.].

Na segunda resposta a Cott, Sontag expressa sua noção de estar no mundo –e atenta.

“Olha, o que quero é estar presente por inteiro na minha vida –ser quem você é de verdade, contemporânea de si mesma na sua vida, dando plena atenção ao mundo, que inclui você. Você não é o mundo, o mundo não é idêntico a você, mas você está nele e presta atenção nele. O escritor faz isso –presta atenção no mundo. Sou contra essa ideia solipsista de que está tudo na nossa cabeça.”

De uma ou outra forma, as cerca de cem páginas que se seguem podem ser lidas como uma glosa dessa ideia –e de outra, complementar, que é a de que esse “estar no mundo” é sempre mutável.

Cott recorda que, em determinado momento entre os dois encontros, Sontag lhe dissera: “Precisamos nos ver logo porque eu posso mudar demais”. “Isso me surpreendeu”, confessa ele. Rindo, a escritora responde: “Por quê? Parece tão natural”.

DESLOCAMENTOS

Sontag teve uma biografia incomum e marcada por mudanças e deslocamentos, nem sempre voluntários. Não conheceu o pai, um comerciante de peles que morreu na China quando ela tinha quatro anos. Sua mãe, alcoólatra, decidiu sair de Nova York para o Arizona em busca de clima mais quente para a irmã de Susan, que era asmática.

Ter aprendido a ler sozinha aos três anos, quando a maioria das crianças está ainda estruturando a linguagem verbal, fez dela uma devoradora de livros. Mais ainda, fez com que ela questionasse a validade mesma do conceito de infância, como se vê na entrevista.

Diante da conturbada vida familiar, afirma-se sem origens, o que pode ter a ver com a perseguição da autonomia em sua trajetória.

Foto Adriano Vizoni/Folhapress

Precoce em tudo, casou-se aos 17 com Philip Rieff, seu professor na Universidade de Chicago –a segunda que frequentava, depois de um período em Berkeley. Aos 25, abandonaria casamento e vida acadêmica de uma tacada, após um período na Europa. Seguiu vida independente, ao lado do filho, David, e de amantes –a última foi a fotógrafa Annie Leibovitz.

A maneira como saltou de tema a tema e se aventurou em diferentes formas de expressão, semelhante à forma errática como escolhia leituras na infância, é notável e, às vezes, vista como ligeireza.

“Não se pode interpretar a obra a partir da vida. Mas pode-se, a partir da obra, interpretar a vida”, escreveu em um de seus ensaios mais famosos, “Sob o Signo de Saturno”. O que diz sobre o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), vale em boa extensão para ela mesma, e os fulcros entre as instâncias surgem na entrevista com Cott, ao final da qual fica a impressão de que Sontag está mais em seus livros do que considerava.

Embora seu pensamento seja límpido –a maneira articulada como falava, em “parágrafos extensos e bem cuidados”, é frisada por Cott no prefácio– a figura que fica desse livro é mais errática, humana e acessível do que a imagem de séria Minerva, mecha branca sobre a fronte, que se tem dela.

É essa a Sontag que, na íntegra, nos convida a ler sua obra e nos faz pensar sobre o que, no mundo de hoje, captaria sua atenção.

*

ESTAR NO MUNDO

O que quero é estar totalmente presente na minha vida -ser quem você realmente é, contemporânea de si mesma na sua vida, dando plena atenção ao mundo, que inclui você. Você não é o mundo, o mundo não é idêntico a você, mas você está nele e presta atenção nele. O escritor faz isso -presta atenção no mundo. Sou contra essa ideia solipsista de que está tudo na nossa cabeça. Mentira, há um mundo lá fora quer você esteja nele ou não.

ESCREVER SOBRE A DOENÇA

Escrever não costuma ser agradável para mim. Geralmente é muito cansativo e entediante, porque passo por muitos rascunhos quando escrevo. E, apesar do fato de que tive
de esperar um ano para começar a escrever, “A Doença como Metáfora” foi uma das poucas coisas que escrevi bem rápido e com prazer, pois podia me conectar com tudo que estava acontecendo diariamente na minha vida.

ENVELHECER
Você não pode se irritar com a natureza. Não pode se irritar com a biologia. Todos nós vamos morrer -é algo muito difícil de aceitar- e todos vivenciamos esse processo. A sensação é de que existe uma pessoa -na sua cabeça, basicamente- presa nesse repertório fisiológico que vai sobreviver pelo menos uns 70 ou 80 anos, normalmente, em uma condição decente qualquer. Em certo momento ela começa a se deteriorar, e então durante metade da sua vida, talvez até mais, você observa essa matéria se desgastar. E não pode fazer nada a respeito.

LEITURA
Ler é minha diversão, minha distração, meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo, me enrosco a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo. Mas minha leitura não é nada sistemática. Tenho muita sorte de conseguir ler rápido, acho que, comparada à maioria das pessoas, sou uma leitora veloz, o que me dá uma vantagem grande de poder ler bastante, mas também tem suas desvantagens porque não me envolvo muito com aquilo, apenas absorvo e deixo digerindo em algum lugar. Sou muito mais ignorante do que as pessoas pensam. Se você me perguntar o que significa estruturalismo ou semiologia, não saberei dizer. Sou capaz de me lembrar de uma imagem numa frase de Barthes e ter uma ideia geral daquilo, mas não entender muito bem.

ARGUMENTOS
Não tenho paciência para ensaios que usam um argumento linear. Sinto que tenho de tornar as coisas mais sequenciais do que realmente são porque minha mente simplesmente salta, e um argumento, para mim, se parece muito mais com os raios de uma roda do que com os elos de uma corrente.

AUTONOMIA
Meu desejo era ter diversas vidas, e é muito difícil ter diversas vidas quando temos um marido -pelo menos no tipo de casamento que eu tinha, algo inacreditavelmente intenso. […] Por isso digo que, em algum momento da nossa trajetória, precisamos escolher entre a Vida e o Projeto.

ERUDITO & POPULAR

No final dos anos 50, vivi num universo totalmente acadêmico. Ninguém sabia de nada, e eu não conhecia uma única pessoa com quem pudesse compartilhar essas coisas, então não comentava nada com ninguém. Não perguntava coisas do tipo: “Você ouviu aquela música?”. As pessoas que eu conhecia falavam de Schönberg. Muita gente diz um tanto de baboseiras sobre os anos 50, mas é verdade que, naquela época, havia uma separação completa entre as pessoas antenadas com a cultura popular e aquelas envolvidas com a alta cultura. Nunca conheci ninguém que se interessasse pelas duas coisas; eu sempre me interessei pelas duas e costumava fazer tudo sozinha porque não tinha ninguém com quem compartilhar. Em determinado momento, é claro, tudo mudou. E isso é o interessante dos anos 60. Mas agora, como a alta cultura está sendo liquidada, as pessoas querem dar um passo para trás e dizer: “Ei, espera um minuto, Shakespeare ainda é o maior escritor que já existiu, não se esqueçam disso”.

TEMAS

Eu não fazia ideia de que estava dizendo a mesma coisa desde que comecei a escrever. É impressionante, mas não gosto de pensar muito nisso porque pode acontecer algo com o que tenho na minha cabeça. A maioria das coisas que faço, ao contrário do que pensam, é muito intuitiva e nada premeditada, e não aquele tipo de atividade cerebral calculada que as pessoas imaginam. Apenas sigo meus instintos e minhas intuições.

FOTOGRAFIA

Eu amo fotografias. Não tiro fotos, mas observo, gosto, coleciono, sou fascinada por elas… é um interesse antigo e muito apaixonado. Comecei a ter vontade de escrever sobre fotografia quando percebi que essa atividade central refletia todos os equívocos, contradições e complexidades da nossa sociedade. Esses equívocos, contradições ou complexidades definem a fotografia, a maneira como pensamos. E considero interessante que essa atividade, que para mim envolve tirar fotografias e também observá-las, encapsula todas essas contradições -não consigo pensar em outra atividade em que todos esses equívocos e contradições estejam tão incorporados.

FRAGMENTOS

A Vênus de Milo nunca teria se tornado tão famosa se tivesse braços. Começou no século 18, quando as pessoas viram a beleza das ruínas. Suponho que o amor pelos fragmentos tem primeiro a ver com certo sentido do páthos da história e com as devastações do tempo porque o que aparecia para as pessoas na forma de fragmentos eram obras, cujas partes despencaram, foram perdidas ou destruídas. E agora, é claro, é possível e muito convincente que as pessoas criem obras na forma de fragmentos. Os fragmentos no mundo do pensamento ou da arte parecem ruínas, como aquelas artificiais que os ricos colocavam em suas propriedades no século 18.

SENTIR E PENSAR

Uma das minhas campanhas mais antigas é contra a distinção entre pensar e sentir, o que é realmente a base de todas as visões anti-intelectuais: cabeça e coração, pensamento e sentimento, fantasia e julgamento… não acredito que isso seja verdade. Temos mais ou menos o mesmo corpo, mas tipos muito diferentes de pensamentos. Acredito que pensamos muito mais com os instrumentos dados pela cultura do que pelo corpo, e disso surge uma diversidade muito maior de pensamento no mundo. Tenho a impressão de que o pensar
é uma forma de sentir, e que o sentir é uma forma de pensar.

Foto Adriano Vizoni/Folhapress

METÁFORAS

Não que eu seja contra poesia -ao contrário, as duas coisas que mais leio são poesia e história da arte. Mas, na medida em que existe uma coisa chamada prosa e outra coisa chamada pensamento, acho que fico girando e girando em torno do problema do que é a metáfora.Não é como uma comparação: se você diz que uma coisa é como outra coisa, tudo bem, você deixa claro quais são as diferenças… embora às vezes não fique tão claro, porque a poesia pode ser muito compacta. Mas quando você diz, por exemplo, “a doença é uma maldição”, vejo como um tipo de colapso do pensamento -é uma forma de parar de pensar e cristalizar as pessoas em determinadas atitudes.

ESTEREÓTIPOS

As pessoas dizem o tempo todo: “Ah, não posso fazer isso. Tenho 60 anos, estou velha demais”. Ou: “Não posso fazer isso, tenho 20 anos. Sou nova demais”. Por quê? Por que dizer isso? Na vida você quer manter o máximo possível de opções abertas, mas é claro que quer poder ser livre para fazer escolhas verdadeiras. Quer dizer, não acho que você possa ter tudo, e é preciso fazer escolhas. Os americanos tendem a pensar que tudo é possível, e eu gosto disso nos americanos [rindo]; nesse sentido me sinto muito americana.

MASCULINO E FEMININO

Sinto uma lealdade intensa para com as mulheres, mas ela não se estende ao ponto de dar minha obra apenas para revistas feministas porque também sinto uma lealdade intensa para com a cultura ocidental. Apesar do fato de ser profundamente comprometida e corrompida pelo sexismo, é essa a cultura que temos, e sinto que precisamos trabalhar com essa coisa comprometida, ainda que sejamos mulheres, e fazer as correções e transformações necessárias.

TRANSSEXUALIDADE

Certamente haverá outros relatos no futuro, mas o que as pessoas mais notaram sobre a mudança de Jan Morris é que ela realmente se identifica com uma ideia bem convencional de feminilidade -quando James Morris cogitou como seria se tornar Jan Morris, pensou o seguinte: “Eu gostaria de vestir isso, agiria dessa ou daquela maneira, sentiria isso ou aquilo”, e ela o fez em termos que considero estereótipos culturais convencionais.

INFÂNCIA
Comecei a ler aos três. O primeiro romance que me comoveu foi “Os Miseráveis” -chorei, solucei, lamentei. Quando você é uma criança leitora, acaba lendo os livros que estão pela casa. Lá pelos 13 anos, li Mann, Joyce, Eliot, Kafka, Gide -basicamente os europeus. Só fui descobrir a literatura americana muito depois. Descobri um monte de escritores nas edições da Modern Library, que eram vendidas numa loja de cartões comemorativos da Hallmark, e eu costumava guardar minha mesada e comprar todos. Cheguei a comprar uns abacaxis também, como “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith [rindo]. Eu achava que tudo da Modern Library devia ser ótimo.

ORIGENS

Não quero retornar às minhas origens. Acho que elas são apenas o ponto de partida. Minha interpretação é de que já cheguei longe demais. E o que me agrada é a distância que já percorri desde minhas origens. Isso porque tive, como já mencionei, uma infância sem raízes e uma família extremamente fragmentada. Em Nova York tenho vários parentes próximos que nunca vi. Não sei quem são. E isso tem apenas a ver com o fato de eu fazer parte de uma família que ruiu, se desintegrou ou se separou. Não tenho nada a que retornar, não consigo imaginar o que encontraria. Passei a vida toda me distanciando.

AMOR

Pedimos tudo do amor. Pedimos que seja anárquico. Pedimos que seja o elo que une a família, que permite que a sociedade seja ordenada, que permite que todos os tipos de processos materiais sejam transmitidos de uma geração para a outra. Mas acredito que a conexão entre amor e sexo é muito misteriosa. Parte da ideologia moderna do amor consiste em assumir que amor e sexo andam sempre juntos. Acho que eles podem andar juntos, mas acredito mais numa coisa em detrimento da outra. Talvez o maior problema dos seres humanos seja o fato de as duas coisas simplesmente não caminharem juntas. E por que as pessoas querem se apaixonar? Isso é muito interessante. Em parte, as pessoas querem se apaixonar da mesma maneira como voltam a uma montanha-russa -mesmo sabendo que seu coração vai se partir.

AUTODIDATA

Penso em mim mesma como alguém que se criou -é uma ilusão que funciona. Também penso em mim mesma como autodidata, apesar de ter tido uma excelente educação -Berkeley, Chicago, Harvard. Mas ainda acho que, em essência, sou autodidata. Nunca fui discípula nem protegida de ninguém, não fui lançada por ninguém, não “fiz minha carreira” por ser amante, esposa ou filha de alguém. Nunca esperei que fosse de outra maneira.

ZERAR

Sabe, eu tenho uma fantasia persistente -é claro que nunca a realizo porque não sei como, e talvez também não tenha tanto tempo de vida para fazê-la valer a pena- mas tenho essa fantasia de jogar tudo para o alto e começar do zero, usando um pseudônimo que ninguém relacionaria a Susan Sontag. Eu adoraria fazer isso, seria maravilhoso começar de novo e não ter de carregar o peso de uma obra já feita.

MUDANÇAS

Sinto que estou mudando o tempo inteiro, algo difícil de explicar, porque as pessoas costumam acreditar que a atividade do escritor está ou ligada à expressão de si ou à criação de uma obra que convença ou mude as pessoas de acordo com as visões do escritor. Não acho que nenhum dos dois modelos faça sentido para mim. Quer dizer, escrevo em parte para mudar a mim mesma, de modo que não tenha que pensar sobre alguma coisa depois de escrever sobre ela. Na verdade escrevo para me livrar dessas ideias.

TAREFA

Antes eu disse que a tarefa do escritor é prestar atenção no mundo, mas obviamente acredito que a tarefa do escritor, como a concebo em relação a mim mesma, também é manter uma relação agressiva e antagônica para com todos os tipos de falsidade… […] Acho que sempre deveria haver pessoas autônomas que, por mais quixotesco que pareça, tentam arrancar mais algumas cabeças [da Hidra de Lerna], tentando acabar com a alucinação, a falsidade e a demagogia, tornando as coisas mais complicadas, pois existe um impulso inevitável para tornar as coisas mais simples.

VIDA & OBRA

Se algo que na verdade acontece cabe perfeitamente num personagem que estou escrevendo, posso muito bem usar aquele fato em vez de criar algo diferente. Então às vezes emprego coisas da minha própria vida porque parecem funcionar, mas não acho que eu esteja representando a mim mesma. […] Eu estou interessada é no que está no mundo. Toda a minha obra é baseada na ideia de que realmente existe um mundo, e sinto que estou nele de fato.

PARAR DE PENSAR

Para mim, a coisa mais terrível seria sentir que concordo com as coisas que já disse e escrevi -isso me tornaria ainda mais desconfortável, pois significaria que parei de pensar.

FRANCESCA ANGIOLILLO, 43, é editora-adjunta da “Ilustríssima”.

LEDA CATUNDA, 54, é artista plástica. Ela participa da exposição “Geração 80: Ousadia & Afirmação” na galeria Simões de Assis, em Curitiba, até 1/8.

 

FRANCESCA ANGIOLILLO
ilustração LEDA CATUNDA

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Seminário Mídia, Política e Eleições

Ficamos tão felizes com a quantidade e qualidade dos trabalhos que recebemos para o MPE desse ano. O mais legal nisso tudo é que vamos conseguir promover um debate sério e de qualidade. Outra coisa legal é que a equipe trabalha muito bem junto. A Merilyn, Marina, Nelson e eu nos entendemos bem e acredito que estejamos conseguindo fazer um baita trabalho. Entregamos as cartas de aceite, e infelizmente, as de recusa, antes do prazo e soltamos a programação também antes do prazo. Isso é demais! Quem quiser participar como ouvinte ainda pode se inscrever. Se o primeiro MPE foi fantástico, esse só tende a melhorar!

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As diferenças entre PT e PSDB, por Roseli Martins Coelho

“Quem quiser ser social-democrata… é bobo”

(livro-entrevista Democracia para Mudar, com Fernando Henrique Cardoso, 1978).

Segundo o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, PT e PSDB são versões da social-democracia e  as diferenças entre os dois partidos são meros detalhes (entrevista ao Estadão, 6-6-2015).  Alguns podem estar surpresos  diante da reivindicação para que seu partido seja reconhecido como primo-irmão do PT, o qual  é considerado por tucanos e seus seguidores como o maior problema do país.  Mas quem acompanha a vida partidária nacional com a devida atenção sabe que o PSDB há tempos sonha com um upgrade que o coloque ideologicamente e socialmente na mesma classe em que está o PT. O que constitui uma das mais interessantes contradições da política brasileira porque,  em diversas ocasiões antes da criação do PSDB, o ex-Presidente manifestou enfaticamente sua reprovação a qualquer tentativa de reproduzir no Brasil uma solução  inspirada nas organizações socialistas européias.  Em entrevista de 1978, para o livro Democracia para mudar,  FHC afirmou que “no Brasil, enquanto não se tiver um movimento de trabalhadores forte, não se tiver sindicatos ativos, nenhum partido propriamente operário, nem burguesia disposta a oferecer cogestão ou codireção para nada, quem quiser ser social-democrata… é bobo”.

A ironia é que passados alguns anos, ignorando as repreensões de FHC, o seu grupo político escolheu exatamente a denominação “social-democrata”  para batizar o partido que nasceu da separação do PMDB. Independentemente de explicações burocráticas nos documentos oficiais, é de se imaginar que os integrantes da agremiação tenham plena consciência de que o PSDB não tem nada a ver com a inserção social e o recorte ideológico  da social-democracia histórica. E pode-se dizer que FHC de fato esqueceu o que escreveu e passou a acreditar que a origem e a atuação de seu partido não constituem impedimento para a exploração da grife “social-democracia”.

Se FHC definiu corretamente – social-democracia é sinônimo de partidos surgidos do movimento social e do sindicalismo independente do Estado – temos que concluir que o PT se encaixa perfeitamente nessa definição. Seja como for, é preciso reconhecer que o ex-Presidente tem suas razões para reivindicar a identificação de seu partido com a social-democracia,  pois trata-se da faixa mais  atrativa e acolhedora  de todo o espectro ideológico. Exatamente porque, como definiu Marx há um século e meio, a social-democracia busca “acabar com os dois extremos, capital e trabalho assalariado, enfraquecer seu antagonismo e transformá-lo em harmonia”.

No entanto, política e metodologicamente, a inserção de um partido num determinado recorte ideológico exige um mínimo de verossimilhança e coerência. O que significa dizer que  a pretensão de FHC esbarra em obstáculos intransponíveis. Convém trazer aqui as considerações de Angelo Penebianco, um dos principais especialistas em partidos políticos da atualidade. Segundo Panebianco, um partido político jamais muda completamente em relação à sua origem, ou melhor, em relação aos seus propósitos originais. O que ocorre, frequentemente, são adaptações de objetivos que foram decisivos no surgimento do partido e não a “substituição dos fins”. O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso participou da fundação de seu partido e sabe que ele foi concebido como uma organização para ocupar a faixa da direita ao centro. E, de fato, ao longo de sua trajetória, o PSDB tem sido coerente com a proposta original que orientou sua criação. Desde a composição com a extrema direita propriamente dita (PFL-DEM) que assegurou as duas vitórias eleitorais tucanas para a Presidência da República, passando pelas privatizações e outras medidas neoliberais (“que realizamos com empenho”, vangloriou-se ele), até o alinhamento incondicional com os Estados Unidos, são todas marcas da metade à direita do arco ideológico-político. Como oposição, o PSDB continua firme em sua linha centrista-direitista, como se pode facilmente depreender de sua defesa da ampliação da terceirização nas relações de trabalho e de diversas outras medidas que estão na atual pauta do Congresso nacional.

Para justificar sua interpretação sobre a proximidade ideológica entre seu partido e o PT, Fernando Henrique Cardoso afirma enxergar uma irresistível vocação democrática  no PSDB, o que  qualificaria a agremiação tucana como social-democrata, e neutralizaria a indiscutível identificação do partido de Lula com a inclusão social.

Independetemente do colorido democrático do PSDB, porém,  cabe  registrar que o PT tem demonstrado  adesão irrepreensivel à democracia, como, aliás,  raramente se viu  na História brasileira. Basta lembrar que Lula, apesar da alta aprovação popular,   não empreendeu movimentação para mudar regras constitucionais com o objetivo de disputar uma segunda reeleição, e que o partido não reage com virulência  a manifestações hostis, de pessoas e grupos sociais,  e a ataques cotidianos da mídia tradicional.

Para não ficar apenas como “wishful thinking”, a frase de FHC sobre a proximidade ideológica com o PT poderia ser  entendida como um exemplo de “incentivo de identidade”. Ou seja,  como uma declaração que lideranças partidárias devem fazer frequentemente com o objetivo de elevar a moral de membros, simpatizantes e eleitores.  Ao melhorar a disposição de todos em torno do partido,  os “incentivos de identidade” acabam, supostamente, por ampliar chances de sucesso eleitoral nas disputas eleitorais seguintes. A ver, como dizem os espanhóis.

*Roseli Martins Coelho é cientista política com doutorado em Filosofia Política e professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase nos seguintes temas: representação política, democracia, estado e desenvolvimento, vida intelectual e ideologia, direitos de cidadania, desigualdade social, políticas públicas.

 

Fonte: Luis Nassif Online

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Sebastião Salgado’s Advice for Young Photographers Today

Severin is a community manager at EyeEm. He originally published this post on Medium after attending a lecture by Sebastião Salgado in London.

Last weekend at Photo London I had the chance to attend a lecture with Sebastião Salgado. Leo Johnson interviewed the 71-year old photographer about his life and work. In the Q&A that followed, a young student, probably around 21 years old, asked what he would recommend to a young photographer to start his career today. And Salgado answered:

“If you’re young and have the time, go and study. Study anthropology, sociology, economy, geopolitics. Study so that you’re actually able to understand what you’re photographing. What you can photograph and what you should photograph.”

I found this answer very interesting. Many photographers have an answer to that question, and I myself have asked it many times. The most common answer I heard was “Just go out there and shoot” or “Study the masters of photography” or “Practice, practice, practice”. But none of these photographers talked about going to university and studying economics. So what does Salgado mean by that?

Sebastião’s Salgado’s own biography sheds a light on the answer. Salgado, the only son of a farmer’s family with 7 daughters (all named Maria, but that’s another story), fought the military dictatorship in his home country Brazil, studied economics, emigrated to Paris and worked at the International Coffee Organisation there, which often let him travel to Africa.

Only when he was in his late 20s did he get a camera and start taking photos. He quit his job and began traveling the world, often staying in far-away places for 4-5 months to work on his reportages, thousands of miles away from his wife and young son in Paris. He dedicated his life to the stories he told through his lens. Salgado refuses to be called a documentary photographer or photojournalist. His life is photography, he says. His biography proves it.

salgado gold mineGold mine in Serra Pelada, one of Salgado’s early projects. Photo by Sebastião Salgado/Amazonas Images/Sony Pictures Classics, via npr.org

What becomes so obvious in Salgado’s early work is that his pictures couldn’t exist without his commitment to social justice. What he photographs is defined by what he believes in. His pictures are so strong because he knows exactly what he’s doing. If he would have been just some guy who happens to be at a place where social injustice is happening, he couldn’t have captured it in the same way. He would have been an observer, a tourist, but could not have told those stories from the inside out.

In this context should his current work be understood. You could walk into an exhibition of Genesis and think “Oh, these are nice photos of nature I’m seeing here”. Or you could think that Salgado is tired of seeing the world’s pain and sorrow and retired to nature photography in his old days. But it’s the opposite. Salgado understood that the planet’s environment is probably the most pressing and universal issue of our time. That’s what Genesis is about. And if you read it this way, it might be just the start of Salgado’s most powerful, most meaningful and impactful work.

This it not big news. It’s the ultimate message of Wim Wenders and Julian Salgado’s recent film The Salt of the Earth. I believe that’s possibly why this movie was made in the first place. Salgado wants his message to be understood.

 

What does it mean for aspiring photographers?

Understand what you want to shoot. Understand the impact your work could have. Study what makes the world move. Don’t just be a guy with a camera, because we all are.

One of the most touching moments in Salgado’s talk was when he mentioned how hard it was for him to be away from his family. Away for months in the mountains of Brazil, his wife Lélia and son were in Paris. On a Sunday, Salgado climbed a mountain and burst out in tears. He couldn’t change the situation. Traveling took weeks. There was no money. He had to stay to finish his work.

This dedication is what makes a photographer to Salgado. Now that we all take pictures every day, are surrounded by images, we tend to forget that. Yes, we all are photographers today. But few of us are ready to make the sacrifice it takes to truly tell the stories that matter.

 

FONTE:  EYEEM

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