O estudo nunca termina

Uma das primeiras coisas que a Simonetta (minha orientadora) disse quando entrei no mestrado foi: “o estudo nunca termina. Você vai fazer um doutorado e ainda vai estar cheia de dúvidas.” Na época me pareceu mais um discurso bonito do que uma realidade, mas hoje percebo o quanto ela estava certa. Semana que vem apresento em Curitiba, no COMPOLITICA, meu trabalho sobre o senador Demóstenes (O caso Demóstenes – A queda do Senador vista pela Folha de São Paulo e “não vista” pela Revista Veja). Minha abordagem foi fotográfica, com base nas teorias de segunda realidade do professor Boris Kossoy e as conclusões foram muito bem resumidas pelo Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa.

Tudo isso para dizer que, semana passada estava lendo o livro Jornalismo e Política-escândalos e relações de poder na câmara municipal de São Paulo, da professora Vera Chaia, e percebi uma outra abordagem para o mesmo assunto. A autora e professora, chama a atenção para o poder do agenda-setting na recepção da política. O pressuposto básico do agenda-setting é que, se os indivíduos não possuem um repertório próprio sobre um determinado tema, eles recebem esses conhecimentos e assimilam a realidade social por meio do prisma do mass media. No caso do senador Demóstenes, a Folha de SP o julgou antes da justiça. Partindo desse ponto, os receptores assimilaram tudo sem questionar. “Demóstenes é culpado”.

Na avaliação de Fernando Antonio Azevedo (2002, p.11), “a ideia-força implícita na noção de agenda-setting é a de que: (1) a mídia, ao selecionar determinados assuntos e ignorar outros, define quais são os temas, acontecimentos e atores (objetos) relevantes para a notícia; (2) o enfatizar determinados temas, acontecimentos e atores sobre outros estabelece uma escala de proeminência entre esses objetos; (3) ao adotar enquadramentos positivos e negativos sobre temas, acontecimentos e atores constrói atributos (positivos ou negativos) sobre esses objetos; (4) há uma relação direta e causal entre as proeminências dos tópicos da mídia e a percepção pública de quais são os temas (issues) importantes num determinado período histórico”.

A mídia definiu a culpa do ex-senador e essa foi a abordagem até sua cassação.  Construiu, como eu defendo no artigo, somente atributos negativos. Mesmo quando outras escutas foram divulgadas, o tema definido já era Demóstenes Torres. Essa era a forma mais interessante de divulgar o fato.

Foto: Site Diário de Anápolis Disponível em:   Acesso em: 2/5/13

Foto: Site Diário de Anápolis Disponível em: <http://www.diarioanapolis.com/politica/mpf-go-quer-manter-inelegibilidade-de-demostenes-torres-ate-2027/ > Acesso em: 2/5/13

Em seu trabalho, Swanson (1995, p.14) afirma que o processo de construção das notícias políticas obedece a um esquema particular: “É bastante comum ver as noticias construídas de maneira com que faça que o governo e os políticos sejam mais interessantes para a audiência. As formas usadas frequentemente de fazer as notícias mais interessantes para o público incluem o seguinte: enfatizar dramas e conflitos; concentrar-se em acontecimentos concretos e não em idéias abstratas; personalizar as notícias apresentando pessoas concretas na representação de instituições, idéias e outras formas impessoais que por elas mesmas são difíceis de visualizar, reduzir assuntos à simples histórias com moral.”

Ainda no livro Jornalismo e Política, Vera Chaia cita  Patterson (2000,p.82) que afirma que: “As notícias são uma forma de contar ‘estórias’. Por esta razão, as convenções jornalísticas incluem uma ênfase especial nos aspectos mais dramáticos e controversos da política. A principal preocupação do jornalismo é com a novidade, o invulgar e o sensacional.”

“O estudo, realmente, nunca termina”.

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