Arquivo mensal: dezembro 2012

Homem público tem vida privada?

A Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, noticiada pela grande imprensa em 23 de novembro, indiciou Rosemary Noronha por tráfico de influência e corrupção passiva. Rosemary era chefe de gabinete do escritório da Presidência da República em São Paulo até operação revelar um esquema de compra de pareceres técnicos de agências do governo, como ANA (das Águas) e Anac (Aviação Civil). Mas o que tem ocupado as páginas dos jornais é a ligação estreita que ela mantinha com o ex-presidente Lula desde 1993. Alguns setores da imprensa dão conta de que a primeira dama Marisa Letícia “não gostava da assessora” e que Rosemary viajava com o ex-presidente quando sua mulher não podia.

Até que ponto essa relação mais íntima deve ser de conhecimento da imprensa? A partir do momento em que a ex-chefe de gabinete usa o nome de um presidente da República para conseguir benefícios, nomear cargos e tomar decisões em nome do Palácio do Planalto, a relação tem importância de Estado.

Richard Sennet, professor de sociologia na London School of Economics e na New York University, afirma, em O declínio do homem público, que os debates políticos tornam-se melodramas sentimentais, e os temas públicos são tratados como assuntos da intimidade salpicados de namoros e intrigas pessoais. A dimensão clássica do homem público se esvanece, consumida pela sua intimidade exposta. Isso pode confundir na hora da checagem da noticiabilidade.

Mas, como informa o pesquisador Eugênio Bucci, o que prejudica o jornalismo, não é a divulgação da informação, mesmo que seja divulgação dessa intimidade. O que prejudica o bom jornalismo é o sensacionalismo, o moralismo e o mau gosto e, acrescento, a mania pertinente de julgar antes do Ministério Público ou órgão responsável. Afinal, quando o poder age no sentido de subtrair ao cidadão a informação que lhe é devida, está corroendo as bases do exercício do jornalismo ético, que é o bom jornalismo, e corrompendo a sociedade. Ao jornalismo, o que lhe é de direito: divulgação da informação. À esfera jurídica, o julgamento.

É justo devassar a intimidade de alguém? A resposta é óbvia: “Não, todo mundo sabe”. Mas, de novo, e recorro à Bucci, não é com tanta simplicidade que essas dúvidas costumam aparecer. “Pergunte-se outra vez: é justo investigar a intimidade de alguém que esteja exercendo uma função pública e guarda, em sua intimidade, práticas suspeitas que envolvem o Estado?”. Para essa pergunta, escritor Rui Barbosa tem a resposta: “Queiram ou não, os que se consagraram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro”.

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A polêmica capa do New York Post

A capa do New York Post (original, em inglês aqui ) desta terça-feira (4) trouxe à tona o debate sobre ética na imprensa. Um fotógrafo flagrou o atropelamento de um homem em uma estação de metrô na Times Square, em Nova York. Ao ser questionado sobre o por quê de não ter ajudado o homem caído na plataforma, o fotógrafo afirma que começou a disparar seu flash, fotografando a cena, na tentativa de que a luz ajudasse a avisar o operador do trem, para que ele freasse. Um dos maiores fotógrafos do mundo, Henri Cartier-Bresson dizia: “ A ordem (para fazer uma fotografia) é manter o cérebro alerta, o olho e o coração alerta; e ter elasticidade no corpo.” A união desses três fatores faz o fotógrafo. E, a pergunta que fica é: onde estava o coração do fotógrafo nesse momento?

Capa New York Post / 4 de dez

Capa New York Post / 4 de dez

Eugênio Bucci afirma: “O êxito, por si, não torna eticamente aceitável a conduta daquele que age para atingir a um fim. O jornalista não age para obter resultados que não sejam o de bem informar o público; ele não tem autorização ética para perseguir outros fins que não este. Além disso, é cada vez mais chamado a pensar nas consequências do que pratica.” E, Bresson completa: “As coisas como tais oferecem tanta abundância em material que o fotógrafo deve precaver-se contra a tentação de procurar fazer tudo.” Bresson explica que existe a seleção que fazemos quando olhamos através da objetiva, visando o assunto; e existe a escolha que fazemos depois que os filmes foram revelados e copiados. Por mais que essa fotografia tivesse sido feita, ela jamais deveria ter estampado uma capa de jornal.

Eu poderia escrever duzentos posts sobre essa lamentável capa do New York Post, mas prefiro encerrar com Bucci, mais uma vez: “Quando o poder age no sentido de subtrair ao cidadão a informação que lhe é devida, está corroendo as bases do exercício do jornalismo ético, que é o bom jornalismo, e corrompendo a sociedade”. Quando esse jornalismo age com sensacionalismo, o está fazendo da mesma forma. O fotógrafo esqueceu que era um homem que estava caído naquela plataforma de metrô.

Update: Fotógrafo diz que tentou correr, mas não conseguiu salvar homem no metrô.

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