Contempo

Hoje tivemos o Interprogramas na Cásper Líbero. Outro evento sensacional! Essa semana foi excelente. Mas, sobre o Interprogramas escrevo com calma depois. Compartilho com vocês resenha minha publicada na Revista Contempo. Se alguém não conseguir abrir o link, segue o texto abaixo:

Os Tempos da Fotografia – o efêmero e o  perpétuo

KOSSOY, Boris. Os Tempos da Fotografia – entender a história da imagem para entender a nossa história. Cotia: Ateliê
Editorial, 2007. 176 p

* Por Deisy Oliveira Cioccari, mestranda em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero

Em Os Tempos da Fotografia – o efêmero e o perpétuo, livro que complementa a trilogia iniciada com Fotografia & História e Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, Boris Kossoy relata o papel cultural da fotografia, fornecendo um grande embasamento teórico.Nesse livro, o autor evidencia que a fotografia não é uma ciência exata e busca respostas para o que ele chama de “processo de construção da realidade”. Kossoy deixa claro que a noção de que a câmara recupera fielmente a primeira realidade se desconstroi imediatamente após o registro da imagem. O que temos acesso é à segunda realidade. Fruto de uma realidade construída cheia de ideologias, impressões e códigos. A leitura que fazemos de uma fotografia em que não entendemos o contexto é diferente da leitura que fazemos quando conhecemos. Para o autor, quanto mais conhecemos a teoria, mais conhecemos a imagem. Imagem essa que pode informar e desinformar, que não é neutra e que possui detalhes que nunca devem ser desconsiderados.

A imagem fotográfica vai além do que mostra em sua superfície.Talvez por isso tenha dedicado boa parte à história da fotografia no Brasil, um capítulo esquecido pelos historiadores. Evidencia-se a necessidade de “rastrear” fotógrafos do passado e as influências e mudanças que a imprensa estrangeira causou em nossa imprensa. A necessidade de se encontrar um papel importante nos meios de comunicação passando pela fotomontagem à São Paulo de Hildegard Rosenthal, onde os ares de metrópole da capital não se chocavam com as ideologias da cidade modelo da era Vargas. Há, nesse livro, um importante registro da fotografia tomando proporções no resto do país e das imagens da fotógrafa Hildegard inaugurando a fotorreportagem no país.A fotografia como sustentáculo da memória e seus usos para imprimir uma intenção ideológica e política no Brasil não passam despercebidos. Kossoy deixa claro que as imagens são concebidas com o filtro cultural de seus autores e nesse sentido, é fundamental recuperar os sentidos dos fatos do passado. Dessa forma, garante-se a recuperação, com auxílio de conhecimentos pelas fontes escritas, da história política brasileira.

Na última parte do livro, o perpétuo e o efêmero se fundem. Há uma ênfase que se coloca no “instantâneo” da imagem fotográfica. Já o recorte da imagem parece agir de modo diferenciado quando fragmenta o espaço e quando faz o mesmo com o tempo. Enquanto o recorte espacial é claramente uma operação de seleção e transformação da realidade, o recorte temporal parece resultar num ato de anulação. Em outras palavras, enquanto as formas de representação do espaço precisam ser desvendadas, o tempo é esquecido, pois é supostamente aquilo que se perde na fotografia. Aparentemente, trata-se de uma apropriação de um efeito espacial da realidade, eliminando-se o
efeito temporal.
A fotografia interage conosco. A fotografia nos possibilita um diálogo com o passado, com o que passou, com o efêmero. O que resta são nossas impressões e representações. São os “tempos da fotografia”. E, sua morte. Como quando Kossoy registra os tempos de manipulação, de registro digital, eletrônico. Os simulacros tomam forma de máscaras e impõem-se obre o original. “Com a invenção da fotografia, inventou-se também, de certa forma, a máquina do tempo”, diz o autor para explicar que com a imagem fotográfica percebeu-se que, mesmo ausente, o objeto pode ser representado eternamente. “Derreteu-se o relógio, desestruturou-se a matéria”, completa. Mas para o autor, isso não é o caos. É uma consequência da evolução do processo, extensão da trajetória da fotografia, que oscila de significado de acordo com a ideologia de cada instante.Em Os Tempos da Fotografia, Kossoy deixa claro o papel da fotografia: não o de ser um detector de verdades ou mentiras, mas um registro construído ideologicamente, que nos permite entender o passado, perseguir seus segredos implícitos e captar a promessa do perpétuo. Toda imagem  fotográfica tem uma história que procuramos desvendar e que originou o que conhecemos de nós mesmos. É com muita propriedade que Boris Kossoy afirma que o século XX não seria o mesmo sem um espelho com memória para registrá-lo.

Tags , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *