Feitos um para o outro

( texto do caderno Link, do Estadão, 16 de abril de 2012)

Ao comprar o Instagram por US$ 1 bilhão, o Facebook reforça a atual cultura das aparências

Por Dan Zak, do Washington Post

O Facebook comprou o Instagram na segunda-feira passada por um b-b-bilhão de dólares, um solavanco tecnônico no reino da mídia social. Mas o que isso tem a ver com o mundo real – este universo caótico que nos cerca, não apenas aquele que é nos apresentado de forma organizada nas pequenas telas de nossos smartphones?

Nada. Ou tudo.

Dada a expressiva reação sobre a compra, tem-se a impressão de estarmos assistindo a uma transação como a de quando a British Petroleum comprou os poços da Standard Oil. Mas esqueça os Carnegies e os Rockefellers, estes titãs da utilidade.

O Facebook de Mark Zuckerberg e o Instagram de Kevin Systrom são nossos titãs da futilidade, em um mundo paralelo que nos delicia à medida que sacrificamos tempo e produtividade. Seus produtos expandiram o mundo ao mesmo tempo que o reduziu a um painel de controle. Eles fizeram a interface se sobrepor ao cara a cara e ampliaram nossa mentalidade de colmeia.

Esta colmeia zumbiu alto quando cogitou-se a possibilidade de o Facebook, cheio de penduricalhos, infectar a simplicidade clean do Instagram, mas os dois serviços foram feitos um para o outro. São ferramentas que usamos para definir e refinar nossas próprias imagens – e ambos nos permitem editar e filtrar o mundo como acharmos melhor.

Se até sua avó está no Facebook, isso quer dizer que ele já perdeu a aura de novidade entre os 483 milhões de usuários ativos. Mas com apenas 18 meses de idade e mais de 30 milhões de cadastrados, o Instagram é uma novidade. Seus usuários tiram fotos com o celular, escolhem filtros artísticos para retocá-las e publicam estes produtos estilizados para uma corrente de seguidores que “curtem” ou comentam as imagens.

Com o Instagram à disposição, uma formação geométrica na espuma do cappuccino não é um mero devaneio passageiro, mas um detalhe que merece ser registrado, filtrado de forma icônica e compartilhado com estranhos. Também é uma forma de comunicar aos outros que você é o tipo de pessoa que, além de beber cappuccino com uma espuma geométrica, também pode converter aquela imagem em arte instantânea. Instagram: o equivalente visual ao Miojo.

Nele, o kitsch e a ironia se encontram, com filtros que poderiam pertencer à paleta do recém-falecido Thomas Kinkade – autodenominado “pintor da luz” que nauseava a crítica e encantava milhões com suas paisagens ensolaradas. Há a boa arte e má arte, o fato e a ficção. O Instagram pousa em algum lugar nesse meio. E agora este território pertence ao reino do Facebook.

Da mesma forma que o Instagram faz fotos ruins parecerem boas e fotos boas parecerem ótimas, o Facebook nos vende como felizes e amados sempre. Personalize e compartilhe o que for editado e envernizado. Deixe a verdade de lado, realce a beleza.

Não publique o autorretrato em preto e branco que você tirou quando estava exausto numa cabine do banheiro do escritório. Não compartilhe com os amigos que sua namorada continua lhe traindo. Capture aquele pôr do sol e amplifique a beleza de sempre com o filtro “Toaster”. Publique suas fotos do Instagram em seu perfil do Facebook, de forma que sua surrealidade faça sentido neste contexto.

Então o que o casamento do Facebook com o Instagram significa para nosso mundo, este fora dos nossos telefones, que é filtrado apenas por nossas córneas e apresentado de forma aleatória, sem bloqueio e fora de ordem?

Nada. Ou tudo. É um dilema que só pode ser solucionado ao invocarmos Keats. Beleza. Verdade. Únicas e uma só. Extrapole isto para a mídia social e aceite que a beleza falsa possa ser a verdade real. Ergamos nossos smartphones à união do Instagram com o Facebook. E que seu matrimônio nos mantenha sempre em sua luz artística perpétua.

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